A Naturalidade de ser artista
Mauro Mendonça @mauro.foto Uma mulher à frente do seu tempo, que vive de arte, respira arte e faz arte diariamente! Desde quando era um bebezinho, a multiartista Juçara Costa, de 71 anos, se mostrou ser uma pessoa pessoa diferente de todos ao seu redor. Belorizontina, Juçara nasceu em casa, na Av. Olegário Maciel, com 4,5kg e permaneceu de olhos abertos das 5h da manhã até às 19h. “Minha mãe chamou o médico para saber se a filha era normal rsrs”, brinca. Pode-se dizer que seu contato com a arte é algo mágico e simplesmente natural, começando pela escolha de seu nome, de origem indígena.
“Eu sou Juçara Costa com ç rsrsrs. Meu pai já conhecia minha alma quando escolheu um nome indígena para mim e ainda escrito da forma certa, com cê cedilha. Desde criança a relação com a natureza, animais, curiosidades indígenas foi muito forte”, relembra a artista, que vivenciou uma infância no quintal, sempre brincando com barro, terra, tinta, lápis e tudo o que a permitia criar e experimentar.
Juçara relata que esse contato com a natureza e, em contrapartida, com sua veia artística, ficou ainda maior depois que se encontrou com a xamã terapêutica, Carminha Levy, em São Paulo.
“Foi quando eu me entendi e me conheci melhor na minha relação com a natureza! A natureza foi a minha grande mestra na pintura”, afirma.
Os múltiplos talentos de Juçara Costa, perpassam pela pintura, bordado, atuação no teatro e cinema, no tarot, na moda e tantas outras possibilidades. No entanto, trabalhar com arte não foi algo escolhido por ela, mas a arte a escolheu para seguir este caminho de cores, traços, harmonias e contrastes.
"Eu trabalho com arte desde que eu nasci rsrsrs. E eu nunca tive dúvida na minha vida que eu seguiria carreira artística. Mas foi muito interessante porque ela aconteceu. Eu não procurei, não busquei, não fui atrás. Eu já era artista e isso aconteceu”, diz
Além do seu contato com a terra e as infinitas criações utilizando o barro e as cores, curiosamente, o dom de Juçara se aprimorava em meio às advertências escolares.
"Tinha um temperamento artístico incompreendido que não permitiu que eu desfrutasse sem medos intensos e tive muitos problemas nas escolas na minha infância. Não me adaptava e nem conseguia focar nas aulas que para mim eram muito desinteressantes. Por isso, os castigos atrás do quadro negro eram para mim um presente porque eu ficava desenhando o tempo todo”.
Vale destacar que Juçara só conseguia prestar atenção nas aulas enquanto desenhava e, assim, absorvia melhor o conteúdo ensinado pelas professoras.
Dessa forma, ela criou naturalmente um método de aprendizado.
“Hoje esse método está sendo desenvolvido com o professor Ângelo Campos nas aulas de Filosofia que ele dá todas as sextas-feiras no grupo que há seis anos se encontra. Durante as aulas eu faço desenhos, escrevo, brinco e assimilo melhor o que estou ouvindo.”
Juçara e Ângelo acreditam que, por meio das pesquisas realizadas, a técnica, que ainda está em processo, pode ser de grande valia para as pessoas que têm a mesma dificuldade em assimilar os conteúdos.
Espiritualidade expressa na arte e natureza
É notável que Juçara é multiartista desde sempre. “Comecei na pintura e digo que nasci com o pincel na mão”. Mas, apesar de ter feito vários cursos na área e aprendido com diversos professores e linguagens, a natureza que foi sua grande escola.
"O meu contato vivo com a natureza foi onde eu pude aprender composição, cores, texturas, cheiro, som, formas, e mais que isso tudo, a grande alma que habita em tudo e todos; o grande Centro e a perfeição do Tudo que É”.
Juçara afirma que já tentou buscar a espiritualidade em religiões diversas, pais de santos, padres, igrejas… Mas a sua maior experiência com Deus foi fazendo arte na natureza.
“Foi essa experiência que fez a ponte para um método que hoje eu aplico e é patenteado e reconhecido: Método DB - Desenhos Bordados. Foi através dele que o bordado se revelou na minha vida e na minha arte. Hoje, não busco religiões e sim, sempre a conexão com o divino na arte, filosofia, conhecimento, desafios da vida, na natureza, no belo, em mim e no outro. Nesse caminho me sinto abastecida de fé, alegria e gratidão.”
Mudanças intensas e relações familiares
Com dois filhos e dois netos já independentes, o tempo de Juçara tem sido todo dedicado à arte. Além disso, sua geração familiar tem sido representada, atualmente, apenas por ela e por sua irmã mais velha.
Seus pais tiveram quatro filhos, porém a irmã mais nova fez a passagem com 30 anos, depois de 8 anos lutando contra um câncer no pé; o seu irmão mais novo faleceu com seu sobrinho em um acidente de avião.
Sua família sempre a apoiou enquanto pintora e seus pais nunca interferiram em sua trajetória profissional.
Mas, ao ingressar na carreira de atriz, foram acarretadas intensas mudanças e autodescobertas, acerca disso ela relata:
“Fui lançada no salão jovem do Minas Tênis Clube com Palhano Júnior quando estava grávida do meu segundo filho. Eu nem sabia o que era ser artista. Eu pintava simplesmente, criava e isso me bastava. Mas depois do sucesso da minha primeira exposição de arte, me desafiava em cada tela pintada. As interrogações começavam a crescer cada vez mais. A pergunta quem sou eu, me levou para uma outra…, onde estou…, e assim por diante. Eu não tinha mais respostas e nem certezas, somente perguntas e um vazio enorme! As famílias se fragilizam quando algum dos seus fica estranhamente diferente de todos. Começa então algo desesperador quando você se sente sem fazer parte de um coletivo, de uma instituição, de um lugar. A arte tem esse poder de nos fazer avançar corajosamente pelos sonhos, desejos e encontros com você mesma. Ela tem a mania de nos romper, a força de nos desconstruir e a grande magia de nos transformar. Fiz dolorosamente essa trajetória, mas sem nunca ter perdido a fé.”
Juçara acredita que essa mudança machucou a família, seus pais e quem a acompanhava de perto:
“Minha vontade de ser mãe sempre foi muito grande. Eu queria ser mãe, mas não conseguia ser uma mãe como todas. Um dia, meu filho Décio com 11 anos me falou: ‘Mãe, você é diferente das mães dos meus colegas. Te vendo assim fazendo teatro e quadros, você é muito legal!’. Isso foi um bálsamo pro meu coração”, se emociona, explicando que não era uma mãe e esposa tradicional como a maioria das mulheres da época, já que as tarefas domésticas não eram o seu forte.
Ela diz que diversos outros caminhos, enquanto artista, foram apresentados e que passaram a interferir nas questões familiares e sociais.
“Aquela certeza de que sem a arte não há caminho. Sem ela não há humanidade, desenvolvimento e grandeza! Eu vivo e não abro mão. Não quero a arte para me fazer feliz, eu preciso dela para me fazer viver.”
Por consequência, Juçara passou para uma nova etapa, uma “segunda vida”, quando tinha 26 anos.
“Me separei, me desconstruí, me arrastei, fui arrastada, levantei e caí muitas outras vezes, mas sempre a arte me mostrando caminhos. Foi também o momento que fui de encontro com o grande desejo de ser atriz. Me matriculei na escola do Palácio das Artes e antes de terminar a escola já comecei a participar e ser chamada para produções. O teatro para mim foi minha grande escola. A partir daí comecei a fazer espetáculos e a fazer parte de várias produções. Ganhei prêmios, fiz figurinos e era muito curiosa. Eu gostava e não saía do ambiente do teatro e da pintura. A minha vida já era completamente diferente, era como se eu tivesse passado por um portal, e eu já estava em outro lugar.”
Ela afirma que em meio à trajetória de buscas, seja no lado profissional ou afetivo, quando segue em direção ao que “nossa alma quer”, não é possível agradar a todos.
"E eu com certeza desagradei muito. Desagradei a sociedade mineira, desagradei muitas pessoas, mas eu tinha um coração muito puro, muito limpo e muito certo de que eu estava querendo ir em direção da luz. Eu confiei nisso e hoje, com 71 anos, me sinto com uma estrutura sólida”.
Se você acredita que, em meio a tantas buscas Juçara encontrou o seu ponto de chegada, ela diz que ainda não está 100% realizada. Pois, segundo a artista, “a arte é um caminho aberto, você conquista aqui e tem mais para conquistar lá, sempre vão abrindo portais e mais portais.” Contudo, há solidez em tudo que ela acredita, em todas as suas criações, na estrutura construída, nos seus conhecimentos e em tudo o que almeja.
Trabalhos que marcaram a carreira
Não é fácil para Juçara escolher um trabalho que mais marcou a sua carreira. Ela relata que todo o seu processo foi marcante.
“Eu tenho orgulho de mim mesma, porque eu fui A muito fiel à arte, muito fiel ao meu talento. Fiz uma trajetória muito digna, com muita verdade, autenticidade. Eu sei que, com 71 anos, eu não sou uma artista de mentira. Aliás, eu costumo dizer que não sou mais artista, eu sou a arte rsrs.”
Em vista disso, ela relembra que foi a primeira artista de Belo Horizonte a abrir um espaço multidisciplinar, feito em parceria de sua irmã, que é psicóloga. O empreendimento se situava na Av. Raja Gabáglia e, na época, se tornou o “Juçara Costa Expressões Artísticas”, em que ela chegou a ter 19 oficinas, sendo considerado um boom em Belo Horizonte, uma verdadeira revolução.
“Tinha oficina de criatividade, pintura, teatro, capoeira, espiritualidade, caligrafia, decoração… tudo que aparecia na minha frente eu lançava”, relata.
Ademais, a artista e sua irmã conseguiram apoio de jornalistas na época. Logo, o espaço era mencionado nos jornais de BH, o que garantiu um reconhecimento para o seu trabalho e, concomitantemente, um crescimento na carreira.
A relação de Juçara Costa com a arte é algo muito forte para ela. A Júlia Memória do Futuro, por exemplo, é um espetáculo teatral que ela faz há 17 anos e tem sido uma grande referência de sua história. “Há 17 anos atrás eu pedi ao Jair Raso (diretor teatral) para fazer um trabalho comigo e ficamos um ano trabalhando em cima da minha vida. Fiz laboratórios, ficamos um ano construindo o texto, montamos o espetáculo e estreei”.
Vale destacar que nos dia de hoje, a peça passou por uma nova montagem.
“Eu tive um problema de artrose há 5 anos e eu já não podia fazer os movimentos que fazia. O Jair Raso liberou para eu ter uma nova direção e refazer o espetáculo. Então, o Kalluh Araújo fez uma segunda montagem e a Júlia está envelhecendo comigo. É uma personagem que tem uma alma”.
Diversos espetáculos abrilhantam seu portfólio no teatro, como:
- Viva o Cordão Encarnado - direção Luiz Mendonça;
- Ensina- me a Viver- Elvécio Guimarães;
- Dona Beja - Paulo Cezar Bicalho;
- Laio e o Poder- Elvécio Guimarães;
- Oh Oh Minas Gerais - Ronaldo Boschi;
- Fernão Capelo Gaivota - Ronaldo Boschi;
- Toda Nudez Será Castigada- Kalluh Araújo;
- A Taça da Ira - leitura dramática - Kalluh Araújo;
- Liderato, O Rato que Era Líder- direção Magela;
- Alice no País da Imaginação - M. Queiroz;
- DDD: Deleite Depois Delete - texto e direção Jair Raso;
- Júlia e a Memória do Futuro - texto e direção Jair Raso.
Sua carreira de atriz também teve destaque em longas metragens e comerciais de TV. Em paralelo à atuação, Juçara fez pequenas exposições nos Estados Unidos e na Itália, criou o método DB e ministrou aulas de pintura.
“Tudo foi importante, foi intenso, não teve nada mais ou menos. Isso tudo foi muito vivido e sou uma pessoa que faz tudo de corpo e alma”, garante.
A arte é a sua morada
Apesar de ser pintora, Juçara nunca se satisfez apenas com o quadro pendurado na parede. Por isso, muitas de suas ilustrações se transformam em estampas de roupas.
“Sempre tive consciência de que a arte é para todos em toda parte. Então, nunca segui esse caminho tradicional de todo artista, que vai para as galerias, que vendem quadros para as galerias e ficam fazendo exposições. Eu faço o meu próprio caminho. Eu vou de acordo com o fluxo e vou fazendo.”
A arte ainda faz parte de sua existência e, literalmente, é a sua morada. “Depois da pandemia, minha vida deu uma virada, morava num apartamento e resolvi voltar para o meu espaço. Meu espaço não tem luxo, mas tem muita arte, tem muita história. É uma casa onde recebo as pessoas e eu chamo de ‘Juçara Costa Residência Artística’”.
O atelier é onde ela pinta, ministra aulas, é onde as oficinas produzem os produtos do DB e onde ela faz os desenhos bordados. E é neste mesmo lugar que ela mora.
“Aqui é onde o meu universo está. Na rua Pouso Alto, no Serra, e está pousando alto mesmo rsrsrs. É onde me sinto completa”.
Perspectivas futuras
No dia 11 de novembro de 2023, será realizado um desfile das estampas da coleção “Não vestimos mulheres, vestimos Deusas”, de Juçara Costa, no Espaço Cultural Marcos Andrade, à convite do Dr. Marcos, proprietário do local. Além do desfile, a exposição contará com uma análise filosófica de sua obra, que será apresentada pelo filósofo Ângelo Campos, um parceiro de trabalho da multiartista e que vem estudando sua arte filosoficamente.
“Eu estou me considerando hoje uma pessoa muito realizada e muito feliz com o que ando fazendo. A arte, está realmente celebrando junto com a minha vida agora. Eu sempre acreditei na arte e na vida junto né. Atualmente eu tenho certeza que as duas coisas estão bastante juntas aqui comigo mesmo”, enfatiza.
Ouvir a voz da alma
Segundo Juçara Costa, o método DB contextualiza todos os caminhos da criatividade através do bordado e que facilita o processo criativo. Além de ensinar este método para quem busca inspirações, Juçara dá consultorias para quem está começando uma trajetória artística. Para quem quer viver de arte ou, pelo menos, aplicar manifestações artísticas no seu dia a dia, Juçara aconselha todos os artistas a ouvirem o seu coração:
"Faça o que seu coração pedir, ouça a sua alma, tente ser aquilo que você é o tempo todo. Tente ser sua verdade, não deixe que te inventem, inventem quem você é, seja o que você é. Certo ou errado, feio ou bonito, não importa. Nós temos o direito de ser tudo, e de consertar tudo, e de mudar tudo. As possibilidades de vida, de aprendizagem e de desenvolvimento são infinitas, então não tenha medo disso! Para ser um artista não tenha medo de romper. Rompa, rompa com tudo aquilo que você não quer mais, que não te faz feliz, que não tá te acrescentando. Não tenha medo de perder, nós nunca perdemos nada, a gente tá sempre ganhando, a natureza está sempre a nosso favor, a gente está simplesmente deixando pra trás o que não te serve mais e alcançando lá na frente. Enfim, o futuro é agora. Então, nós temos que ouvir nossa alma”.
Eu sou Bruxa por Juçara Costa
Eu,
sou bruxa,
Prazer em me conhecer!
Se você, mulher, um dia for chamada de bruxa, considere um elogio!
Na verdade, a palavra “bruxa” veio pra enfraquecer as mulheres.
Aquelas que se propunham autonomia na grande consciência de se saberem fadas, deusas ou sacerdotisas!
A grandeza sagrada das mulheres foi transformada e sobre ela implantada rótulos para assustar, reprimir os desejos e as forças da natureza telúrica, para não serem livres, e não manifestarem seus poderes de expressão criativa e genuína.
E essa bruxa se tornou protagonista da crueldade, da feiura e do terror nos palcos, nas telas de cinema, nos contos de fadas! Na vida de cada criança em formação, no coletivo.
E acreditamos nisso.
E o pior; guardamos nossa força em baús, em poeiras e cinzas, nos transformando ao longo de muitas gerações em pedaços de mulher.
Inteira?
Mulher na plenitude é perigosa.
Sua independência vai mostrar seu corpo com desejo, sem repressão, sem culpa, com profundo prazer e coragem!
Uma mulher inteira vai ter peito pro filho, pra vida e para a intuição!
Uma mulher inteira vai acolher e ser bela com uma força capaz de transformar só com o olhar.
Uma mulher inteira é capaz de unir pedaços, de mudar o mundo, de defender seus filhos da terra e do útero.
Uma mulher inteira é curandeira, astróloga,
médium,
terapeuta,
artista,
cientista,
dançarina,
empresária,
esotérica.
Enfim;
Uma mulher inteira é a expressão máxima da própria vida!
Eu,
sou bruxa
Muito prazer!
Sou bruxa aprendiz, com 71 anos e sábia na infância quando alimentava na imaginação uma fada azul de varinha de condão nas mãos. Uma fada, das que me dava tudo o que eu precisava.
Já adulta, como artista plástica, pintando um quadro, manifestei uma pincelada mágica, incrível, um insight colorido com cheiro de tinta.
Nesse gesto de artista comprovei dentro de mim que fadas existem.
O meu pincel, era minha varinha de condão.
Eu sou artista, mãe, avó, filha, irmã
Eu crio quadros, bordados e transformo tudo em beleza.
Eu jogo cartas ciganas, danço superando próteses.
Eu faço amor, faço sexo.
Eu tenho prazer e êxtases!
Eu sou bruxa.
Eu sou mulher,
Prazer em te conhecer!




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