Ílvio Amaral e Maurício Canguçu: os mestres da cena
Ilvio e Maurício não são só atores; são ícones do teatro mineiro. Ilvio, com seu carisma inato, e Maurício, com sua paixão pela arte, formam uma dupla que é sinônimo de sucesso. Eles trazem a cada apresentação um frescor tão contagiante que é como se estivessem estreando a peça a cada noite.
Falando em Maurício, ele conta que a receita do sucesso é uma mistura de "merecimento e muito cuidado com o projeto". Segundo ele, é esse zelo constante que mantém a peça vibrante: "A cada final de ano a gente troca figurino, reforma cenário, ensaia como se fosse a estreia". Para ele, o teatro é um organismo vivo, que se renova e respira junto com o público.
Ilvio, por sua vez, enfatiza a importância da união e do respeito entre os atores. Para ele, o segredo está na alegria e na paixão compartilhadas: "Se algo dá errado, a gente se reúne e conversa. O principal é ter respeito entre a gente e com a plateia". Essa abordagem ressoa em cada linha, em cada gesto, criando uma conexão genuína com o público.
A história: um espírito além do convencional
"Acredite" é uma comédia sobre um fantasma gay que decide "infernalizar" a vida de um machista radical. A premissa já é um prato cheio para risadas, mas o que realmente faz a peça brilhar é a liberdade que os atores têm em cena. A improvisação e a inclusão de temas atuais mantêm o espetáculo fresco e relevante, mesmo após 25 anos.
O fenômeno fora dos palcos
Esta peça não ficou restrita ao teatro. Em 2001, ela ganhou as telas do cinema, com um elenco estelar, e inspirou um livro e um documentário. A riqueza e a profundidade de "Acredite" mostram que essa obra vai muito além das risadas; ela é um reflexo da sociedade, um espelho das nossas alegrias, medos e preconceitos.
Ilvio e Maurício são contadores de histórias que, através da comédia, provocam reflexões profundas. Suas carreiras são um exemplo de como a arte pode ser um veículo para mudanças sociais e culturais.
Os dois compartilham a visão de que o teatro é mais do que um caminho para a fama; é uma jornada de realização e compromisso com a arte. Eles aconselham futuros atores a encarar a profissão com seriedade, estudo e paixão. É esse amor pelo que fazem que torna "Acredite" um fenômeno.
Com um elenco brilhante, uma direção sensível e um roteiro que é pura diversão, essa peça é um brinde à vida, ao teatro e, claro, ao riso. E se você já assistiu, sabe que sempre tem algo novo a cada apresentação. Então, vamos celebrar juntos esses 25 anos de pura alegria e arte!
A notoriedade desse fenômeno resultou em uma série de prêmios e conquistas como:
- Melhor Espetáculo de 1998 – Prêmio Sesc/Sated.
- Melhor Ator (Ilvio Amaral) – Prêmio Sesc/Sated.
- Melhor Ator Comediante (Ilvio Amaral) – Prêmio Sesc/Sated.
- Maior Público do ano de 98 – Prêmio Amparc/Bonsucesso.
- Peça teatral de destaque – Troféu JK de Cultura e Desenvolvimento de Minas Gerais – 2016.
Entrevista: Ílvio Amaral
REVISTA SALTO - Quem é Ílvio Amaral?
ÍLVIO AMARAL - Sou de São Gonçalo do Pará – MG. Nasci lá, vivi até os meus 13, 14 anos mais ou menos, depois mudei para Divinópolis. Posteriormente, vim diretamente para Belo Horizonte, onde resido até hoje. Embora já tenha morado em São Paulo e no Rio de Janeiro, atualmente, moro em Belo Horizonte. Contudo, não tenho uma residência fixa; isso depende do trabalho. Se há trabalho no Rio de Janeiro, eu vou para lá. No ano passado, por exemplo, passei oito meses morando lá, atuando na novela "Reis" da Record. Este ano, passei dois meses em São Paulo fazendo a peça "Acredite, um Espírito Baixou em Mim". No próximo ano, devo retornar a São Paulo e ao Rio de Janeiro para atuar em "Maio, antes que você me esqueça". Somos uma família de cinco filhos.
Meu pai foi fazendeiro a vida toda, herdando essa vocação de seu pai. Além disso, quando nos mudamos para Belo Horizonte, ele tornou-se comerciante, sem, no entanto, deixar a fazenda. Eu viajava para lá menos frequentemente devido ao teatro, que se tornou minha grande paixão. Deixei de participar de festas de família e de outras atividades desse nível. Quando me mudei para Belo Horizonte, assisti à peça "Sonhos de uma Noite de Verão", dirigida por Haydée Bittencourt, que era diretora do Teatro Universitário. Apaixonei-me pela arte teatral e decidi que era isso que queria fazer. Ao sair do colégio, me formei no Colégio Precursor e fiz vestibular para Pedagogia, Psicologia e, posteriormente, Educação Artística. Trabalhei por cerca de 12 anos na FUNEC – Fundação do Ensino de Contagem, dando aulas e simultaneamente envolvendo-me com o teatro. Eventualmente, decidi dedicar-me inteiramente às Artes Cênicas.
RS - Como foi seu primeiro contato com o teatro e o que você fazia antes de ingressar nas artes cênicas?
IA - Meu primeiro contato ocorreu ao assistir à peça "Sonhos de uma Noite de Verão" no Teatro Francisco Nunes. Enquanto estudava pela manhã no Colégio Padre Eustáquio, um amigo chamado César me convidou para assistir à peça, despertando minha curiosidade. Perguntei sobre como ingressar nesse mundo, e me indicaram o curso no Teatro Universitário da UFMG. Após ser aprovado, cursei os três anos e nunca mais parei de atuar. Em São Gonçalo do Pará, ainda na infância, participei de peças locais. O contato foi essencial, e o teatro se tornou minha verdadeira vocação.
RS - Há quanto tempo você trabalha com teatro e como foi a decisão de seguir na carreira artística?
IA - Iniciei meu trabalho efetivo no Teatro Universitário, onde comecei a atuar profissionalmente. Na infância, já participava de peças em São Gonçalo do Pará. Cursei o Teatro Universitário por volta dos 17 a 19 anos e, aos 64 anos, continuo na carreira artística com prazer e alegria. A decisão de seguir no teatro foi tomada quando percebi que meu coração estava na arte cênica. Abandonei outras profissões e me entreguei totalmente ao teatro.
RS - Você teve o apoio da sua família quando decidiu seguir por este caminho?
IA - Sempre contei com o apoio irrestrito da minha família. Meu pai, que era fazendeiro, e minha mãe sempre estiveram ao meu lado. Mesmo quando me mudei para Belo Horizonte, eles continuaram apoiando minhas decisões, mesmo diante das dificuldades do meio artístico. Meu irmão também sempre esteve presente, oferecendo suporte financeiro quando necessário. A família do Maurício, com quem trabalho, também tem sido muito colaborativa e solidária ao longo dos anos.
RS - Quais foram as maiores dificuldades já encontradas desde quando iniciou a carreira?
IA - As dificuldades no meio artístico são universais. Buscar patrocínio para espetáculos é uma tarefa árdua. Muitos acreditam que conseguir patrocínio, especialmente por meio de leis de incentivo, é fácil, mas não é. Há muita concorrência e burocracia. Outra dificuldade é a falta de espaços para apresentações. Além disso, enfrentamos o desafio de formar plateias. Em Belo Horizonte, temos poucos teatros e muitos grupos. Outro aspecto é a formação do ator. Hoje em dia, os cursos de teatro são mais específicos e voltados para a prática. No meu tempo, era um pouco diferente, e os cursos abrangiam várias áreas. Por fim, o teatro é uma arte subjetiva, e as pessoas muitas vezes não entendem o valor cultural e social dessa expressão artística.
RS - Ao longo de sua trajetória, quais foram os momentos mais marcantes e quais espetáculos ou personagens mais o emocionaram?
IA - Cada espetáculo tem seu valor e marca um momento na minha vida. No Teatro Universitário, participei de várias peças importantes. Lá, fiz "A Ópera dos Três Vinténs", "Seis Personagens à Procura de um Autor", entre outras. Também atuei na TV e no cinema. A novela "Reis", da Record, foi um momento marcante. No cinema, destaco o filme "Pátio", dirigido por Gastón de la Torre. Em relação a personagens, cada um tem sua complexidade e importância. Fazer o Oberon em "Sonhos de uma Noite de Verão" foi especial, assim como o papel de Zeca Diabo no filme "O Cangaceiro". Atualmente, estou com um espetáculo chamado "Uma Noite na Lua", que apresenta um texto lindo e desafiador.
RS - Como é a sua rotina de trabalho e como você se prepara para interpretar um personagem?
A rotina varia de acordo com os projetos em que estou envolvido. Quando estou em cartaz com uma peça, por exemplo, tenho os ensaios diários, além das apresentações à noite. Quando estou em período de filmagem, a dinâmica é diferente. A preparação para interpretar um personagem envolve o estudo do texto, a compreensão do contexto da história, a construção da psicologia do personagem e a relação com os outros personagens. A pesquisa é fundamental, seja sobre o período histórico da trama, o ambiente, o contexto social. É um trabalho detalhado e que exige dedicação. Além disso, a troca com o diretor e os colegas de elenco é enriquecedora. Cada personagem é um desafio único.
RS - Quais são seus planos e projetos futuros na área artística?
IA - Tenho vários projetos em mente. Pretendo continuar atuando no teatro, na TV e no cinema. No próximo ano, devo retornar aos palcos com a peça "Maio, antes que você me esqueça" e seguir com o espetáculo "Uma Noite na Lua". Também tenho planos de lançar um livro, que já está em processo de escrita, sobre a minha trajetória no teatro. Além disso, continuo buscando novos desafios e oportunidades na área artística.
RS - Como você enxerga o cenário cultural e teatral no Brasil atualmente?
IA - O cenário cultural e teatral no Brasil enfrenta desafios, mas ao mesmo tempo é muito rico e diversificado. Temos artistas talentosos, produções de qualidade e uma cena teatral pulsante. No entanto, a falta de investimento e apoio é uma realidade. A cultura muitas vezes não é valorizada como deveria, o que impacta diretamente os artistas e a produção cultural. É fundamental que haja mais políticas públicas e incentivos para o setor, reconhecendo a importância da cultura na formação da identidade de um povo. Além disso, é preciso ampliar o acesso da população às manifestações culturais, democratizando o espaço teatral e promovendo a educação artística nas escolas.
Entrevista - Maurício Canguçu
REVISTA SALTO - Quem é Maurício Canguçu?
MAURÍCIO CANGUÇU - Nasci em Felisburgo, no vale do Jequitinhonha, mas moro atualmente em Belo Horizonte. Sou o terceiro irmão de 11; lá em casa somos 11 irmãos. Não tenho filho nem neto. Meu hobby preferido é o teatro (risos). Quando vou descansar, vou para o teatro, pois adoro assistir e ver meus colegas em cena, além de aproveitar para estudar observando outros atores. Sou da cidade de Felisburgo, uma cidade pequena no Vale do Jequitinhonha, com cerca de 5 mil habitantes. Até onde sei, sou o primeiro ator da minha família. Meu pai trabalhava com fazenda, minha mãe era costureira, e meus irmãos não seguiram carreiras artísticas. Portanto, sou o pioneiro na família a trabalhar com teatro e interpretação.
RS - Como foi seu primeiro contato com o teatro?
MC - Meu primeiro contato com o teatro foi em Felisburgo, na escola, com minha professora de Português, D. Alice Pereira. Em datas comemorativas, fazíamos peças para autoridades locais, e ali descobri minha paixão pelo teatro, com cerca de 7, 8, ou 9 anos. Posteriormente, mudei-me para Belo Horizonte, fiz um curso no NET - Núcleo de Estudos Teatrais e, em seguida, ingressei no curso do SESC Tupinambás, onde estudei teatro com o professor Fernando Penido por três anos.
RS - Há quanto tempo você trabalha com teatro e como foi a decisão de seguir na carreira artística?
Trabalho com teatro há 35 anos. A decisão de seguir na carreira artística não foi uma escolha consciente; fui arrebatado pela arte da interpretação. Nunca pensei em ser outra coisa. Embora tenha trabalhado em diferentes áreas, como professor de Educação Artística e em uma construtora, desde que descobri o teatro, por volta dos 16, 17 anos, nunca mais fiz outra coisa que não estivesse ligada às artes e à cultura.
RS - Você teve o apoio da sua família quando decidiu seguir por este caminho?
MC - Sempre tive apoio da minha família. No início, meu pai tinha algumas reservas, pois vinha de uma tradição mais rural, mas ele acabou se orgulhando quando viu o sucesso e reconhecimento do meu trabalho. Minha mãe e irmãos sempre foram muito apoiadores, e até mesmo meu pai, que no início tinha dúvidas, acabou se emocionando ao assistir às peças e se tornando um grande admirador da minha carreira.
RS – Quais foram as maiores dificuldades já encontradas desde quando iniciou a carreira?
As dificuldades são as comuns a muitos artistas no Brasil. Viver de arte é desafiador, especialmente devido à dificuldade em obter apoio e patrocínio. A cultura é uma atividade cara, e a instabilidade do setor cultural no país é um desafio adicional. O teatro exige sucesso imediato, pois não há tempo para esperar, e muitas vezes as produções enfrentam dificuldades financeiras. No Brasil, a cultura nem sempre é prioridade dos governantes, o que torna a vida do artista mais complicada.
RS - Como você e o Ílvio se conheceram?
MC - Conheci o Ílvio Amaral no SESC, onde eu fazia curso de teatro. Ele fazia parte da banca julgadora e, após um teste, fui selecionado para fazer parte da peça "A Noite das Mal Dormidas". A amizade e parceria profissional entre nós começaram nessa época.
RS - Como surgiu essa ideia de migrar do teatro para a sétima arte? Foi um convite do diretor Jorge Moreno e do roteirista Rodrigo Campos ou essa ideia partiu de vocês?
MC - O filme surgiu de uma conversa no camarim, quando a atriz Dayse Belico, que fazia parte do elenco da peça, sugeriu a ideia de gravar o espetáculo para que as pessoas pudessem assisti-lo em outras ocasiões. A proposta foi ganhando força e, eventualmente, o filme foi produzido. Não foi um convite externo; foi uma ideia que começou internamente entre o elenco e se concretizou.
RS - E sobre o Livro e o documentário? Foram lançados este ano como forma de comemoração dos 25 anos da trama?
Sim, o livro é o segundo da trajetória da peça. O primeiro foi lançado há algum tempo, quando comemoramos 10 anos do espetáculo. O segundo, lançado este ano, celebra os 25 anos da peça, contando histórias de bastidores, experiências de pessoas envolvidas e detalhes sobre o percurso da peça ao longo do tempo. O documentário, produzido pela Rede Minas, também faz parte das comemorações dos 25 anos e traz depoimentos de artistas, diretores e pessoas que foram impactadas pela peça. Ele aborda a história da peça desde o início, mostrando os desafios enfrentados, os momentos marcantes e as transformações ao longo do tempo. Além dos depoimentos de pessoas envolvidas na produção, o documentário também destaca a importância cultural e social da peça, que se tornou um fenômeno de público e impactou a vida de muitas pessoas.
RS - Sobre o processo criativo da peça, houve muitas mudanças desde a estreia até os dias atuais ou a essência da história permanece a mesma?
MC- A essência da história permanece a mesma, mas ao longo dos anos, fizemos algumas adaptações e inserções de novos elementos para manter a peça atualizada e interessante para o público. A interação com a plateia é uma parte fundamental da peça, e as improvisações são constantes, o que torna cada apresentação única. O texto base se mantém, mas sempre há espaço para a criatividade e para incorporar elementos contemporâneos.
RS - Qual a sensação de ver o espetáculo completar 25 anos e alcançar tanto sucesso?
A sensação é de gratidão e realização. Quando começamos, jamais imaginávamos que a peça chegaria a esse patamar. O reconhecimento do público ao longo desses anos é algo incrível e emocionante. Ver a peça completar 25 anos e ainda atrair um público significativo é uma prova da força e da atemporalidade da obra. Estamos muito felizes e agradecidos por todo esse percurso.
Exemplos de persistência e amor à arte
por Januária Vargas
Quando uma dupla se une e trabalha há tanto tempo junto, como é o exemplo destes dois grandes atores, é sinal que a parceria deu muito certo. “Jamais imaginávamos que a peça chegaria a esse patamar. Ver a peça completar 25 anos e ainda atrair um público significativo é uma prova da força e da atemporalidade da obra,” relata Maurício com sentimento de gratidão e realização. O artista ainda afirma que “o reconhecimento do público ao longo desses anos é algo incrível e emocionante. Estamos muito felizes e agradecidos por todo esse percurso”.
Para Maurício, a peça não iria tão longe sem o apoio e presença de cada espectador. Para ele, o público que assiste “Acredite, um espírito baixou em mim”, tem a oportunidade de vivenciar uma experiência única, além de poder rir, se emocionar e celebrar junto ao elenco, “o teatro é uma arte viva, e a plateia é parte integrante desse processo”, afirma.
Os atores são exemplo nítido de que com esperança, criatividade, apoio das pessoas próximas e do público, é possível ir longe na carreira artística. O segredo, segundo Ílvio Amaral, é “persistir e acreditar no seu talento”. Ademais, o artista recomenda a quem deseja ingressar na carreira do teatro, se dedicar aos estudos, “se aprimorar constantemente, buscar oportunidades de aprendizado e, principalmente, não desistir diante das dificuldades.”
Ele diz que é normal ter obstáculos no caminho, mas a paixão pela arte que dará o impulso para seguir em frente. “Além disso, é importante cultivar a humildade, o respeito pelos colegas de trabalho e a ética profissional. A construção de uma carreira sólida no meio artístico demanda tempo e dedicação, mas o amor pela arte é o que torna a jornada gratificante”, enfatiza.
"Enquanto tiver uma luz acesa, saibam que estarei debaixo do holofote tentando passar o meu melhor para todos vocês.” Ílvio Amaral
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