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Brasil,06/03/2026

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    Ana Elisa Ribeiro: a mulher que escolheu permanecer

    Entre a escrita e a sala de aula, uma trajetória de resistência, pesquisa e paixão pela linguagem

    Foto por @silvaguimartins
    Ana Elisa Ribeiro: a mulher que escolheu permanecer

    Há pessoas que escolhem uma profissão. Outras são escolhidas por ela — não por acaso, mas por enfrentamento. A história de Ana Elisa Ribeiro é dessas que nascem do atrito, da dúvida e da insistência. Ela não começou querendo ser professora. Queria os livros. Queria escrever, editar, viver entre páginas. Mas foi na educação que encontrou não apenas sustento, e sim território.

    Formada em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais, Ana Elisa traz consigo uma biografia que desmistifica a ideia de vocação linear. Sua vida escolar foi conturbada. E talvez exatamente por isso tenha escolhido permanecer no campo que um dia a desafiou. “Conheço muitas pessoas que foram parar na educação porque sofreram com ela”, afirma.

    O caminho foi se fazendo — como no poema. Entre trabalhos em editoras e aulas noturnas, entre a escrita literária e a necessidade de estabilidade, veio a maternidade. E, com ela, a decisão: priorizar a docência. Mestrado. Doutorado. Concurso público. Consolidação.

    Mas nunca abandono.

    Ela não abandonou a escrita. Nem a pesquisa. Nem o desejo de inventar.


    O CEFET-MG e a coragem de criar o que não existia

    Quando ingressou no CEFET-MG, não imaginava que ali viveria o momento mais transformador de sua carreira. O ambiente institucional, a conjuntura nacional e um grupo ousado de docentes criaram o cenário ideal para um gesto raro na educação pública brasileira: propor o que não existia.

    Nasceu o curso de Letras – Tecnologias da Edição. Único no país. Corajoso. Visionário.

    Depois, a pós-graduação. Mestrado. Doutorado.

    Não foi simples. Não é simples abrir cursos, desenhar projetos, sustentar ideias inovadoras em instituições públicas. Mas foi possível. E deixou legado. Hoje, o curso é nota máxima, altamente procurado, referência nacional. A pós-graduação é disputada. O grupo atua do ensino médio ao doutorado.

    Mais do que expansão institucional, houve algo fundamental: liberdade de cátedra. Confiança. Condições minimamente dignas para pesquisar e ensinar. “Foi ali que senti possibilidade de inventar”, resume.

    E inventar, para ela, nunca foi luxo. Foi necessidade.


    Linguagem, tecnologia e o futuro da escrita

    Há quase três décadas, Ana Elisa investiga o impacto das tecnologias digitais na leitura e na escrita. Quando começou, no fim dos anos 1990, o tema era quase excêntrico. Faltavam orientadores. Faltava escuta.

    Hoje, tornou-se urgente.

    Sua formação em linguística aplicada a levou da leitura em telas à escrita mediada por tecnologia. Dos letramentos aos multiletramentos. Em estágio pós-doutoral na Universidade Estadual de Campinas, aprofundou-se na pedagogia dos multiletramentos e participou da tradução do manifesto internacional da área, ampliando o debate no Brasil.

    Com a emergência das inteligências artificiais generativas, o campo ganhou nova tensão. A escrita — que ela entende como elaboração do pensamento humano — passou a disputar espaço com textos produzidos por máquinas.

    Ela não foge do tema. Estuda. Experimenta. Problematiza.

    Para Ana Elisa, a escrita nunca foi mero relatório. É construção de mundo. É exercício de pensamento. É identidade.


    O Jabuti e o chão

    Em 2022, no palco do Teatro Municipal de São Paulo, recebeu o Prêmio Jabuti.

    Um reconhecimento improvável para quem não veio de uma família de intelectuais, para quem “não sabia o caminho das pedras”. A menina que queria escrever tornou-se escritora. Publicou poesia, contos, crônicas, livros infantis e juvenis. Insistiu.

    O Jabuti foi celebração. Mas não deslumbre.

    “O glamour dura pouco”, diz. O reconhecimento externo é fugaz. O que permanece é o trabalho — lento, persistente, muitas vezes invisível. No Brasil, a literatura circula com dificuldade. O mercado é instável. O aprendizado é contínuo.

    Ela continua.


    Orientar é também formar liberdade

    Se há um ponto em que sua voz ganha emoção incontida, é quando fala de orientação acadêmica. Formar mestres e doutores — sobretudo mulheres — é, para ela, experiência profundamente transformadora.

    Filha de uma família em que o doutorado era impensável, tornou-se a primeira doutora. Depois, formadora de doutoras.

    Chora em defesas. Vibra com conquistas. Acompanha histórias atravessadas por dificuldades financeiras, maternidade, crises pessoais. Sabe que um título não é apenas título. É aumento de salário. É autonomia. É possibilidade de escolha. É emancipação.

    “Não é vida fácil para ninguém”, afirma.

    Mas quando vê alguém atravessar o processo e se erguer, entende que valeu.


    Fragilidade, persistência e reinvenção

    A trajetória não foi romântica. Houve jornadas de 80 horas semanais com salário de 20. Houve insegurança no ensino privado. Houve maternidade simultânea ao doutorado. Houve obstáculos conjugais. Houve medo.

    Ainda há.

    Ela fala sem mitificar a carreira acadêmica. A sensação de fragilidade nunca desaparece completamente. Mudanças tecnológicas desestabilizam. Regras institucionais mudam. O respeito nem sempre acompanha a senioridade.

    Mas alguns valores permanecem: ética, compromisso, colaboração, desobediência diante do absurdo, respeito às inteligências dos estudantes.

    E amor pelos temas que a movem.


    A marca que deseja deixar

    Quando questionada sobre como gostaria de ser lembrada, não menciona títulos. Nem o Jabuti. Nem os cursos criados.

    Deseja ser lembrada como alguém que torceu — e trabalhou — pela melhor formação possível para seus alunos e alunas. Que não permitiu desistências fáceis. Que se emocionou ao vê-los se aprumando. Que respeitou suas inteligências e suas capacidades criativas.

    Em uma instituição pública e gratuita.

    Talvez essa seja sua maior obra.

    Entre a pesquisadora inquieta, a escritora insistente e a professora exigente, há uma mulher que escolheu permanecer — na educação, na escrita, na luta cotidiana por dignidade intelectual.

    E permanecer, no Brasil, é um ato extraordinário.





    Epílogo — Por Camila Sol

    Escrever sobre Ana Elisa Ribeiro nunca seria apenas um exercício jornalístico para mim. É também um gesto de gratidão.

    Em 2022/2023, enquanto minha vida pessoal se desfazia em um turbilhão silencioso, encontrei refúgio em uma disciplina isolada ministrada por ela. Toda semana, a logística cansativa do interior até Belo Horizonte parecia excessiva para quem já estava emocionalmente exausta. Mas valia. Cada quilômetro valia.

    Eu estava perdida no digital. Engolida pela velocidade, pelos algoritmos, pela produção incessante. Havia perdido a escrita com essência — aquela que pulsa, que sangra, que respira. Foi na disciplina da Ana Elisa que algo se reorganizou dentro de mim. Ela não apenas ensinava sobre escrita: ela a tratava como matéria viva.

    Foi ali que me senti escritora pela primeira vez.

    Ela me deu a honra de integrar Mulheres que Editam, da Editora Entretantas. Lembro exatamente do momento em que o livro chegou. Capa roxa — minha cor preferida. Eu pulei e gritei sozinha em casa ao ver meu nome impresso. Papel. Tinta. Permanência.

    Só quem ama a escrita entende o que isso significa.

    Eu não consegui concluir o mestrado que há anos sonho em terminar. A vida, às vezes, impõe pausas que não escolhemos. Mas a Ana Elisa me devolveu algo ainda maior naquele momento: vida, força, coragem. Devolveu-me a palavra.

    Vi-a receber o Prêmio Jabuti, pelas redes sociais,  comemorando de maneira contida, quase tímida, como quem talvez não dimensione a importância que tem para tanta gente ao redor. Eu, que sempre quis fazer um milhão de perguntas sobre sua vida, percebi que muitas respostas já tinham chegado até mim — não por explicação, mas por exemplo.

    A vida não me deu todas as conversas que eu gostaria de ter com ela.

    Mas me deu, através dela, a coragem de continuar escrevendo.

    E isso muda destinos.




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