Camila Sol
Quando o herói não existe: livro de Nena Matos transforma abandono paterno em reflexão e cura
Em Meu pai não é meu herói, autora propõe um olhar honesto sobre a ausência paterna e mostra que é possível reconstruir a própria história mesmo quando o início foi marcado por lacunas.
Nena Matos | Escritora | Publicitária e comunicadoraA figura do pai costuma ocupar, no imaginário social, o lugar de referência, proteção e validação. Mas para milhões de pessoas essa imagem simplesmente não existe. Em vez disso, há silêncio, distância ou abandono. É nesse espaço delicado que nasce o livro “Meu pai não é meu herói”, da escritora, publicitária e comunicadora Nena Matos.
Mais do que um relato pessoal, a obra se transforma em um convite para refletir sobre como a ausência paterna molda identidades, relações e a forma como cada pessoa percebe seu próprio valor. A narrativa percorre memórias, dores e descobertas, mas não se prende ao passado: ela aponta caminhos de amadurecimento emocional e libertação.
A ideia do livro surgiu de maneira inesperada, em conversas cotidianas. Ao ouvir relatos de amigos e colegas sobre suas relações com os pais, Nena começou a perceber algo em comum entre muitas histórias.
“Eu percebia que as pessoas falavam com muita dor sobre esse assunto. E comecei a pensar que muitas delas passaram por experiências semelhantes à minha. Só que eu já não sentia mais aquela dor. Foi então que pensei que deveria escrever o livro para mostrar que é possível chegar a um lugar em que essa dor não domina mais a vida.”
O título forte surgiu antes mesmo da escrita da obra. Para a autora, ele representa um momento de aceitação dentro do próprio processo de cura.
“Em determinado momento da minha reflexão eu entendi que nunca teria um pai que cuidasse de mim, que me aconselhasse ou que fosse uma referência. Um dia eu disse para mim mesma: ‘meu pai não é meu herói’. Aquilo foi uma chave de aceitação.”
Essa percepção abriu espaço para compreender também a dor de tantas outras pessoas que cresceram esperando que o pai ocupasse esse lugar simbólico.
As marcas invisíveis da ausência
Ao longo da obra, Nena aborda as consequências emocionais que o abandono afetivo pode provocar. Para ela, uma das mais profundas é a dificuldade de reconhecer o próprio valor.
“Existe uma sensação de não ter um lugar no mundo. Isso foi muito forte para mim. Como se eu não soubesse quem eu era ou o que eu merecia.”
Ela explica que muitas pessoas que cresceram sem a presença paterna acabam desenvolvendo padrões de relacionamento marcados por insegurança ou necessidade de validação constante.
“Você estabelece réguas muito altas para si mesmo. Cresce achando que precisa ser acima da média para provar seu valor. Ao mesmo tempo, pode ter dificuldade de confiar nas pessoas ou demonstrar afeto.”
Apesar das conquistas profissionais e materiais, a autora descreve que durante muito tempo sentiu que estava apenas funcionando, e não vivendo plenamente.
“Por fora eu sempre fui vista como forte. Mas por dentro existia uma solidão silenciosa.”
Um livro que provoca e acolhe
Durante a escrita, revisitar certas memórias foi um processo doloroso. Um dos momentos mais difíceis aconteceu ao recordar um episódio da infância envolvendo a gata da família.
Ao relembrar a brutalidade do pai com os filhotes do animal, a autora precisou interromper o projeto por alguns dias.
“Eu chorei como se estivesse vivendo aquilo pela primeira vez. Foi muito intenso. Mas ao mesmo tempo trouxe cura para memórias que ainda estavam abertas.”
Para Nena, escrever também foi uma forma de ressignificar essas lembranças e consolidar a decisão de perdoar — não como obrigação moral, mas como escolha de liberdade.
“O perdão é uma decisão, não um sentimento. Durante muito tempo eu conhecia o perdão apenas na teoria. Mas foi na minha aproximação com Deus que eu compreendi como colocá-lo em prática.”
Uma história que ecoa em muitos leitores
Desde o lançamento, o retorno do público tem confirmado que o tema toca uma ferida compartilhada por muitas pessoas.
Leitores relatam que a leitura desperta lembranças, lágrimas e reflexões profundas. Ao mesmo tempo, também gera sensação de acolhimento.
“Muitas pessoas dizem que o livro parece uma conversa. Como se eu estivesse falando diretamente com elas.”
Um dos relatos que mais marcou a autora veio de um leitor que demorou dias para abrir o livro.
“Só a capa já mexia com ele. Depois da leitura, levou o assunto para a terapia e me enviou um feedback página por página, contando o impacto de cada trecho.”
Para Nena, esse tipo de retorno mostra que a literatura pode ser uma ferramenta poderosa de reconhecimento e cura.
Escrever o próprio final
Um dos conceitos centrais do livro é a ideia de que nem todas as histórias começam da forma que gostaríamos — mas ainda assim é possível decidir como elas vão terminar.
“A gente não tem controle sobre o começo da nossa história. Mas o final, sim. Nós podemos construir.”
Segundo a autora, algumas páginas da vida ficam inevitavelmente em branco.
“A dívida do meu pai era impagável. Nós nunca conseguiríamos escrever aquelas páginas que ficaram faltando. Então a escolha é seguir escrevendo as próximas páginas como autor da própria história.”
Quando a pauta também é pessoal
Escrever sobre o livro de Nena Matos não é, para mim, apenas uma pauta. É também um encontro com uma parte da minha própria história.
Eu cresci sem pai.
Durante muito tempo, essa ausência foi apenas um fato silencioso, algo que parecia não merecer espaço nas conversas ou nas reflexões. Mas, ao longo da vida, percebi que a ausência também constrói. Ela molda perguntas, inseguranças e, muitas vezes, uma busca silenciosa por validação.
Ao ler as reflexões de Nena, uma frase me atravessou: a sensação de não ter um lugar no mundo. Esse vazio é mais comum do que imaginamos. Muitas pessoas carregam essa pergunta sem saber exatamente de onde ela vem.
Mas talvez o ponto mais poderoso da história dela esteja na possibilidade de ressignificação. Não de apagar o passado, mas de decidir que ele não precisa definir o futuro.
A ausência de um pai pode deixar lacunas — algumas que nunca serão preenchidas. Ainda assim, cada pessoa pode decidir o que fazer com essas páginas em branco.
E talvez seja justamente nesse espaço que nasce a parte mais importante da história: aquela que escolhemos escrever.




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