RICARDO NUNES: O homem que transformou vendas em movimento — e impacto em legado
Há empresários que constroem empresas e há aqueles que constroem estruturas capazes de sobreviver à própria presença. A trajetória de Ricardo Nunes não se resume aos números — embora eles sejam expressivos. O que começou em uma loja de 20 metros quadrados no interior de Minas Gerais transformou-se em uma das maiores operações varejistas do país, reunindo dezenas de milhares de colaboradores, faturamento bilionário, reconhecimento nacional e influência internacional. Ainda assim, o que verdadeiramente sustenta sua história não é a escala que alcançou, mas o peso da responsabilidade que assumiu ao longo do caminho.
Ele identifica com clareza o momento da virada: não foi quando o faturamento cresceu ou quando a marca se expandiu pelo Brasil, mas quando percebeu que suas decisões deixaram de impactar apenas sua própria vida e passaram a influenciar milhares de outras. “Quando entendi que minhas escolhas afetavam colaboradores, fornecedores, famílias e até o Brasil inteiro, ficou claro que eu não estava apenas crescendo uma empresa. Eu estava estruturando um ecossistema.” Foi nesse ponto que o vendedor extraordinário deu lugar ao construtor de mentalidade, e o empresário passou a atuar como articulador de impacto.
Crescer é execução. Cultura é consciência.
Para muitos líderes, expandir é o objetivo. Para Ricardo, preservar a cultura foi o verdadeiro desafio.
“Crescer rápido é execução. Preservar cultura exige consciência.”
Houve um momento em que ele escolheu desacelerar para proteger fundamentos internos. A decisão custou resultados imediatos, mas consolidou longevidade. Em um varejo marcado por pressão constante, ele escolheu a presença: visitar operações, conversar com equipes, ajustar processos, manter proximidade real com quem executa.
Expansão pode ser planejada. Cultura precisa ser vivida.
O ciclo que se encerra — e o que começa
Em 2018, ao concluir sua saída da Ricardo Eletro, Ricardo Nunes encerrou um dos capítulos mais emblemáticos do varejo brasileiro. A empresa que nasceu em uma pequena loja no interior de Minas havia alcançado faturamento bilionário e presença nacional, mas enfrentava um novo cenário: alto nível de endividamento, mudanças no comportamento do consumidor, avanço acelerado do comércio digital e uma profunda reestruturação do setor.
Naquele momento, o grupo passou por reorganização societária, com a entrada de fundos especializados em reestruturação e a saída da família fundadora do controle da operação. O varejo brasileiro vivia uma transição estrutural — novas exigências de governança, capital mais sofisticado e adaptação tecnológica inevitável. Não se tratava apenas de crescimento; tratava-se de sobrevivência estratégica em um mercado que já não operava sob as mesmas regras.
“Foi racional nos números e existencial no propósito.”
A decisão, embora inserida em um contexto empresarial complexo, representou para ele algo mais profundo: o encerramento de um ciclo de expansão física e o início de uma fase voltada à expansão de consciência. Ele compreendeu que seu próximo desafio não seria ampliar faturamento ou inaugurar novas lojas, mas ampliar impacto humano e transformação de mentalidade.
Não se tratava mais de escalar metros quadrados.
Tratava-se de escalar visão.
O Brasil que faz — e o que espera
Ricardo Nunes costuma afirmar que o chamado “Brasil que faz” não é apenas aquele que cria empresas, projetos ou oportunidades de emprego. Para ele, é o Brasil que assume responsabilidade individual, toma decisões mesmo em cenários imperfeitos e transforma o próprio entorno por meio de ação concreta. Não se trata apenas de empreendedorismo econômico, mas de postura mental.
Em contraponto, ele identifica um outro Brasil — aquele que aguarda condições ideais, espera o momento perfeito ou deposita em fatores externos a justificativa para a própria imobilidade. Esse comportamento, segundo ele, não é circunstancial; é psicológico. Trata-se da mentalidade de escassez, que converte expectativa em paralisação e transforma prudência em adiamento constante.
“Enquanto uns focam no possível, outros paralisam no idealizado”, afirma. E acrescenta que o Brasil que espera ainda transfere responsabilidade para variáveis externas — mercado, governo ou cenário econômico — e, ao fazer isso, posterga sua própria capacidade de agir.
Essa leitura dialoga com um contexto social mais amplo. Pesquisas recentes de opinião indicam que cerca de 47% dos brasileiros avaliam negativamente o sistema educacional do país, apontando problemas como desigualdade no acesso, limitações de financiamento e deficiências estruturais nas escolas (dados divulgados por institutos nacionais de pesquisa sobre percepção pública da educação). A insatisfação revela não apenas desafios objetivos, mas também a sensação coletiva de que as estruturas ainda não acompanham plenamente as necessidades contemporâneas.
Ao mesmo tempo, os números mostram avanços relevantes. A taxa de frequência escolar entre crianças de 4 a 5 anos ultrapassa 90%, assim como a presença de adolescentes de 15 a 17 anos na escola, retornando a patamares anteriores às interrupções provocadas pela pandemia, conforme dados do IBGE e do Ministério da Educação. O país também registra redução histórica nos índices de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais — embora ainda existam milhões de brasileiros nessa condição.
Esse contraste revela um cenário complexo: crescimento no acesso, mas desafios persistentes na qualidade do aprendizado, na permanência escolar e na formação de pensamento crítico e empreendedor. É justamente nesse espaço que Ricardo posiciona sua atuação atual. Para ele, reformar estruturas é fundamental, mas transformar crenças é urgente. Seu foco não é apenas transmitir conteúdo, mas provocar decisão. Porque, em sua visão, mudar sistemas é necessário — mas mudar mentalidades é decisivo.
Comunicação não é defesa. É expansão.
Ricardo entendeu cedo que quem não conduz sua narrativa acaba sendo conduzido por ela. Para ele, comunicação não é proteção — é projeção.
“O maior vendedor não vende produto. Vende visão.”
Produto é consequência. Visão gera alinhamento, cria comunidade, constrói lealdade. Autoridade não nasce da perfeição, mas da verdade vivida. Sua trajetória não foi moldada por palco, mas por operação real, por pressão constante e por decisões tomadas sob risco.
Autenticidade não é estratégia. É convicção.
Educação: o segundo império
Ao migrar para a educação empresarial, Ricardo não abandonou o universo das vendas — ele ampliou o alcance de sua missão. Se antes negociava produtos, agora atua em um território mais profundo e desafiador: a construção de identidade. Para ele, vender sempre foi consequência de algo maior. “Preço é racional. Crença é identidade.” E identidade não se altera com desconto ou argumento técnico; transforma-se por decisão interna.

O Brasil avançou de forma consistente no acesso à educação formal e expandiu o ensino superior nas últimas décadas. No entanto, o desafio da mentalidade empreendedora permanece evidente. Entre o diploma e a ação existe um intervalo silencioso que não se preenche apenas com conteúdo técnico. Há uma distância entre saber e fazer — e é exatamente nesse espaço que Ricardo decide atuar.
Seus programas vão além de treinamentos convencionais. Funcionam como filtros de postura e maturidade profissional. Separam intenção de execução, discurso de responsabilidade e entusiasmo de comprometimento real. Em poucos minutos de conversa, ele afirma reconhecer padrões que denunciam estagnação: a terceirização constante da culpa, a lamentação antecipada diante de obstáculos e o distanciamento estratégico da própria operação.
Transformar crenças exige confrontar hábitos arraigados e assumir vulnerabilidades que muitos preferem ignorar. É um processo mais exigente do que revisar metas ou ajustar planilhas. Mas, na visão de Ricardo, é essa transformação silenciosa — e profundamente interna — que sustenta crescimento verdadeiro e duradouro.
Liderança é repetição de responsabilidade
Para Ricardo, liderança não é dom eventual; é disciplina contínua. É responsabilidade repetida com coerência entre palavra e ação. Liderar significa sustentar decisões difíceis, assumir riscos e não terceirizar consequências.
Ele aprendeu que confiar sem processo fragiliza estruturas. Pessoas passam. Cultura permanece. Estrutura sustenta.
Já sentiu medo ao perceber que crescimento sem base sólida pode gerar vulnerabilidade. E, quando se fala na “solidão do topo”, ele corrige: não é solidão, é silêncio. O silêncio das decisões que poucos enxergam e muitos serão impactados.

Autoridade precisa caminhar ao lado da humanidade. Firmeza sem arrogância. Acessibilidade sem fragilidade. Liderar é assumir o peso invisível das escolhas.
Reputação, impacto e responsabilidade
Muito antes de ESG se tornar pauta recorrente no ambiente corporativo, Ricardo já defendia que impacto não poderia ser apenas discurso. ESG — sigla para Environmental, Social and Governance — consolidou-se como um dos principais parâmetros de avaliação empresarial contemporânea. Mais do que uma tendência, trata-se de um modelo estrutural que analisa como uma organização integra sustentabilidade ambiental, responsabilidade social e governança ética à sua estratégia de negócios.
No pilar ambiental, avalia-se a forma como a empresa administra recursos naturais, reduz impactos e assume compromisso com práticas sustentáveis. No eixo social, observa-se a relação com colaboradores, comunidades, diversidade, direitos humanos e impacto coletivo. Já na governança, examinam-se transparência, integridade, mecanismos de controle e responsabilidade na tomada de decisões.
O ESG não é um conjunto de boas intenções ou ações isoladas. É uma lógica de gestão que alinha crescimento econômico a impacto positivo e ética institucional, fortalecendo reputação, valor de mercado e resiliência diante de riscos. Para Ricardo, essas dimensões não são tendência passageira, mas fundamento de longevidade empresarial. “Impacto precisa ser mensurável, não apenas discursivo.” Reputação sempre foi ativo financeiro; o que mudou foi a velocidade com que julgamentos se formam na era digital. Influência, portanto, exige responsabilidade proporcional.
Futuro e legado
Ricardo acredita que o Brasil precisa reduzir burocracia e fortalecer a educação prática para impulsionar o empreendedorismo sustentável. Se houvesse uma ruptura estrutural, afirma que o empreendedor reconstruiria mais rápido — desde que não fosse sufocado por entraves sistêmicos.
Seu legado não é memória simbólica. É estrutura funcional. Deseja deixar métodos que operem sem sua presença, cultura que sobreviva à sua liderança e impacto que ultrapasse seu nome.
No silêncio
Quando o discurso se afasta dos negócios, o tom muda. Não há performance.
“Sou um cara simples.”
No silêncio da própria casa, longe das decisões estratégicas e da exposição pública, ele encontra o equilíbrio que sustenta tudo o que constrói. A convivência com a família, os rituais cotidianos e a intimidade preservada — ali está o centro que organiza o resto.
Não existem metas nem projeções. Existe presença.
Impérios podem nascer de estratégia.
Mas permanecem por causa dos alicerces humanos que os sustentam.

Ao falar com Ricardo Nunes, não enxergo apenas o empresário que construiu uma potência no varejo brasileiro. Vejo um homem que compreendeu cedo que crescimento sem consciência é frágil e que influência sem responsabilidade é vazia. Há nele uma combinação rara de pragmatismo e convicção, firmeza e simplicidade, construída não em palco, mas na prática. Ricardo carrega a marca de quem viveu o risco real, enfrentou pressões concretas e transformou experiência em método. Mais do que um nome associado a números expressivos, representa construção com propósito: alguém que escolheu agir quando muitos esperavam, que entende que impacto não é discurso, é consequência — e que, mesmo após erguer impérios, ainda valoriza o silêncio do próprio lar.





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