Dani Lobato
O Que Acontece Quando A Arte Acontece
O que a arte faz com seu corpo antes de virar opinião.
Bordar não é sobre perfeição. E sobre presença, Eu não cresci indo ao teatro.
Na cidade onde eu morava não tinha cinema, museu ou temporada cultural. Minha primeira ida ao teatro foi já adulta.
Mas eu sempre fui fascinada por mundos.
Eu lia muito. E o que me arrebatava não era teoria. Era o mistério da humanidade. O Egito antigo e suas pirâmides que até hoje desafiam explicações simples. Os hieróglifos como código secreto atravessando milênios. Cleópatra, enigmática e estrategista. A Grécia com seus mitos cheios de deuses imperfeitos e paixões humanas. Roma dominando territórios imensos com uma engenharia e uma ambição quase inacreditáveis.
Eu sempre apaixonada pela ideia de evolução humana.
Pelo que fomos capazes de construir.
Pelo que fomos capazes de destruir também.
Foi isso que me levou a fazer História. Fascínio. Curiosidade. Assombro.
Quando fui ao teatro pela primeira vez, adulta, senti algo parecido com o que sentia ao ler sobre civilizações antigas. Encantamento. Eu fiquei hipnotizada vendo a atuação acontecer ali, na minha frente. Me perguntava como aquela engrenagem funcionava tão bem — as falas todas decoradas, a precisão dos gestos, a expressão dos atores sustentando emoções inteiras ao vivo.
Aquilo não era passado distante.
Era humanidade acontecendo ali, diante de mim.
Na primeira exposição que visitei, também adulta, lembro que fiquei meio perdida. Era interativa. Eu não sabia exatamente como me comportar. Então fiz o que sempre fiz quando algo me encanta: observei. Senti. Respirei. Caminhei devagar, como quem descobre um território novo.
Eu não tive acesso precoce à cultura institucional.
Eu tive curiosidade.
Com o tempo, essa curiosidade ganhou outras camadas. Estudando emoções, corpo e subjetividade através da terapia integrativa, comecei a perceber que a arte não é só narrativa ou espetáculo. Ela é experiência física. Ela altera nosso ritmo interno. Ela mexe com nosso sistema nervoso.
Foi nesse ponto que o bordado entrou na minha vida.
Não como passatempo delicado.
Mas como prática de presença.
O Método DB — os desenhos bordados criado pela artista plástica Juçara Costa — me tocou porque não exige perfeição. Ele parte do desenho que nasce da emoção. O ponto acompanha a respiração. O gesto repetido organiza o pensamento.
Eu, que sempre fui fascinada pela grandiosidade das pirâmides e pelos impérios que marcaram a história, descobri algo curioso: às vezes a verdadeira transformação acontece no pequeno. No ponto que atravessa o tecido. No silêncio que regula o corpo.
Hoje eu entendo que cultura não é só aquilo que estudamos nos livros ou assistimos no palco. É também aquilo que transforma nossa forma de sentir.
Essa coluna nasce desse percurso.
Do encantamento pela humanidade — em suas glórias e contradições.
Da experiência concreta de descobrir a arte já adulta.
Da compreensão de que criar pode ser ferramenta de crescimento pessoal e regulação emocional.
Aqui nesse espaço quero compartilhar sobre teatro, exposições, literatura e fenômenos culturais. Vou dividir com você o que me que toca o coração e alma.
Porque, no fundo, o que sempre me moveu foi isso:
Tentar entender quem somos.
E como nos transformamos.
Seja construindo pirâmides.
Seja ocupando um palco.
Seja bordando, ponto por ponto, a própria história.




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