Dia Internacional da Mulher evidencia gargalos no diagnóstico do câncer de mama no Brasil
Sociedade Brasileira de Mastologia
Divulgação O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é frequentemente marcado por homenagens e campanhas de valorização feminina. No entanto, a data também abre espaço para reflexões urgentes sobre a saúde da mulher — especialmente quando se trata do câncer de mama, a doença oncológica mais incidente entre mulheres no Brasil.
Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) para o triênio 2023–2025, o país deve registrar cerca de 74 mil novos casos de câncer de mama por ano. Apesar dos avanços científicos, das terapias modernas e do crescimento das campanhas de conscientização, especialistas alertam que um problema estrutural ainda compromete os resultados do tratamento: o diagnóstico tardio.
A Sociedade Brasileira de Mastologia – Regional Minas Gerais (SBM-MG) chama a atenção para um cenário preocupante. Em muitos casos, mulheres brasileiras chegam ao sistema de saúde já com tumores em estágio avançado, o que reduz as chances de cura e aumenta a complexidade do tratamento.
Tempo como fator decisivo no prognóstico
Para Dr. Henrique Lima Couto, mastologista e presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia – Regional Minas Gerais, o ponto central da discussão é o tempo entre o surgimento dos primeiros sinais, a realização dos exames e o início do tratamento.
Segundo ele, em oncologia, cada etapa perdida pode impactar diretamente as chances de sobrevivência da paciente.
“Em oncologia, tempo é prognóstico. Quando o diagnóstico atrasa, a chance diminui. O problema não é apenas a incidência elevada, mas a demora entre o primeiro sintoma, o exame e o início do tratamento”, explica Henrique.
O especialista ressalta que, embora o Brasil tenha avançado em tecnologias terapêuticas e na capacitação de profissionais, o acesso ao diagnóstico ainda é desigual, principalmente quando se analisa a realidade do sistema público de saúde.
Essa lacuna faz com que muitas mulheres iniciem o tratamento apenas quando a doença já se encontra em estágio localmente avançado ou metastático — fases em que as possibilidades de cura diminuem significativamente.
Rastreamento ainda é um desafio estrutural
Em países com sistemas de rastreamento organizados, como Canadá, Reino Unido e Estados Unidos, a mamografia periódica é parte de programas estruturados de saúde pública. Nesses locais, a maioria dos tumores é identificada em fases iniciais, quando as taxas de sobrevida podem ultrapassar 90% em cinco anos.
No Brasil, entretanto, o rastreamento ainda ocorre de forma fragmentada e pouco sistematizada.
Dr. Henrique Lima Couto destaca que a ausência de um programa nacional plenamente organizado gera desigualdades regionais e dificulta o acesso rápido ao diagnóstico.
“Quando o sistema demora, a doença avança. E o atraso se reflete nas taxas de mortalidade. Não estamos falando apenas de números, mas de desfechos que poderiam ser diferentes com organização e acesso”, afirma o mastologista.
A realidade mostra que muitas mulheres enfrentam longas filas para exames, dificuldades de encaminhamento entre unidades de saúde e atrasos na realização de biópsias ou no início do tratamento.
Mesmo com a chamada Lei dos 60 dias, que determina que o tratamento oncológico no Sistema Único de Saúde (SUS) deve começar em até dois meses após o diagnóstico confirmado, o intervalo entre a suspeita inicial e a confirmação da doença ainda pode ser longo em diversas regiões do país.
A importância da detecção precoce
O câncer de mama tem maiores chances de cura quando detectado precocemente. Por isso, especialistas reforçam a importância de estratégias que envolvam educação em saúde, acesso à mamografia e organização do sistema de rastreamento.
Entre os principais sinais de alerta estão:
- nódulo endurecido na mama ou na axila
- alteração no formato ou no tamanho da mama
- retração ou mudança no mamilo
- secreção mamilar
- alterações na pele da mama, como vermelhidão ou aspecto semelhante à casca de laranja
Embora nem todos os casos apresentem sintomas iniciais, a mamografia continua sendo o principal método de rastreamento, capaz de identificar tumores antes mesmo de serem palpáveis.
No Brasil, o Ministério da Saúde recomenda a realização do exame a cada dois anos para mulheres entre 50 e 69 anos, faixa etária considerada de maior risco populacional.
Debate que vai além da conscientização
No contexto do Dia Internacional da Mulher, a discussão sobre o câncer de mama ganha um significado que ultrapassa as campanhas simbólicas. Para especialistas e entidades médicas, a questão deve ser tratada como prioridade de política pública.
Ampliar o acesso ao diagnóstico, estruturar programas de rastreamento organizados e reduzir o intervalo entre suspeita, confirmação e tratamento são medidas consideradas fundamentais para alterar o panorama da doença no país.
Para Dr. Henrique Lima Couto, a solução passa necessariamente por planejamento e integração entre os diferentes níveis do sistema de saúde.
“Quando conseguimos identificar o tumor cedo, mudamos completamente a história da paciente. O câncer de mama tem altas taxas de cura quando diagnosticado precocemente. O grande desafio ainda é garantir que todas as mulheres tenham acesso ao diagnóstico no momento certo”, conclui.
Diante de números que permanecem elevados, o Dia Internacional da Mulher surge também como um convite à reflexão coletiva: cuidar da saúde feminina não é apenas uma pauta de conscientização, mas uma responsabilidade estruturante do sistema de saúde e da sociedade.





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