Glória Barcelos
As Três Leis Sistêmicas
Pertencimento, Hierarquia e Equilíbrio
As Três Leis SistêmicasA Lei do Pertencimento
Bert Hellinger observou que os sistemas familiares são regidos por leis invisíveis que atuam independentemente da vontade consciente das pessoas. Essas leis não são morais nem religiosas; são leis fenomenológicas. Elas simplesmente atuam. Quando respeitadas, produzem força, fluidez e prosperidade. Quando violadas, geram emaranhamentos, repetições de destino e sofrimento transgeracional.
É a lei mais básica e estrutural do sistema. Aquele que faz parte de um sistema familiar tem direito igual de pertencimento. Isso inclui filhos vivos e falecidos, abortos espontâneos ou provocados, ex-cônjuges, parceiros e outros que tiveram vínculos importantes na família. Você pertence a um sistema familiar e, se negar as suas raízes, estará negando a si mesmo(a), e sua alma ficará ressentida.
Todos têm direito igual de pertencer, independentemente da conduta de vida. Nada tira o direito de pertencimento, mesmo que algum membro cometa um crime ou tenha comportamento incoerente com os costumes da família. Isso pode implicar perda de credibilidade e de prestígio, mas não do direito de pertencer.
A Lei do Pertencimento diz que todos que fazem parte de um sistema familiar jamais podem ser excluídos. Quando isso acontece, o sistema busca uma “reinclusão” por meio de um membro da família que passa por alguma dificuldade semelhante. Você pertence a um sistema familiar; você é metade pai, metade mãe isso é imutável e, se negar as suas raízes, estará negando a si mesmo(a), e sua alma ficará ressentida, criando, assim, um movimento inconsciente de compensação.
Um descendente posterior pode repetir o destino do excluído, desenvolver sintomas semelhantes, assumir culpas que não são suas ou sentir uma tristeza profunda sem causa aparente. Esse fenômeno é chamado de emaranhamento sistêmico. O amor é cego e profundamente leal. Um familiar, por amor inconsciente ao sistema, pode assumir internamente compromissos como:
“Eu faço como você.”
“Eu sigo você.”
“Eu compenso por você.”
Assim se explicam repetições de falências, vícios, doenças, relacionamentos destrutivos ou fracassos recorrentes ao longo das gerações.
O movimento de cura acontece por meio do reconhecimento. Quando o excluído é visto e recebe um lugar no coração:
“Você pertence. Eu vejo você.”
O descendente deixa de precisar representá-lo. A inclusão devolve ordem e alivia o sistema. Pertencer, na visão sistêmica, não é gostar, não é concordar e muito menos se aproximar, mas reconhecer no coração que a pessoa pertence; caso contrário, o sistema cobra de maneira silenciosa, por meio de doenças, conflitos, fracassos financeiros e de relacionamentos.
A Lei da Hierarquia
Refere-se à ordem de quem veio antes. Nos sistemas familiares, existe uma sequência natural baseada no tempo e na precedência. Quem veio antes tem prioridade sobre quem veio depois. Pais vêm antes dos filhos. O primeiro filho vem antes do segundo. Um relacionamento anterior vem antes do atual. Essa ordem gera estabilidade. Quando é invertida, surgem conflitos e fraqueza.
As inversões de hierarquia são comuns e muitas vezes inconscientes: o filho que assume o papel de parceiro emocional da mãe; a criança que julga ou despreza o pai; aquele que tenta salvar os pais; ou o irmão mais novo que desqualifica o mais velho. Quando o filho se coloca acima dos pais, sobrecarrega-se energeticamente. Pode surgir sensação de peso excessivo, ansiedade, culpa, dificuldade de prosperar e problemas nos relacionamentos.
Na visão sistêmica, o filho só recebe força quando honra seus pais no coração, reconhece o seu lugar de pequeno diante deles e não interfere na vida do casal. Quando um filho sai do lugar de filho para ocupar o lugar de pai ou de mãe, vive uma pseudo-grandeza, e sua vida não flui. Quando essa lei é desrespeitada, de modo que os pais se sintam menores que os filhos, o estado emocional se altera, gerando grande desconforto, que, por sua vez, manifesta-se como sofrimento.
Nos casos em que acontece um segundo casamento, a união atual tem prioridade sobre a anterior. Contudo, se houver filhos do primeiro casamento, estes têm prioridade sobre o segundo casamento, e há necessidade de que a mãe dos filhos seja reconhecida como a primeira mulher e mãe dos filhos do marido. Segundo Bert Hellinger, não existe ex-marido ou ex-esposa, e sim primeiro(a), segundo(a), terceiro(a), sucessivamente. Todos os ex fizeram parte do sistema e precisam ser incluídos. Diante disso, percebemos que existem muitos movimentos interrompidos em nossas vidas, inclusive com ex-namorados(as), principalmente quando houve envolvimento íntimo, porque a relação sexual cria vínculo.
A vida flui de cima para baixo, como uma cascata: avós, pais e filhos. Quando o filho rejeita ou julga os pais, bloqueia esse fluxo. Quando, internamente, reconhece: “Vocês são grandes. Eu sou pequeno(a). Recebo a vida de vocês”, alinha-se à ordem natural. E onde há ordem, há força.
A Lei do Equilíbrio
A Lei do Equilíbrio fala da troca entre dar e receber. Caso uma pessoa dê e a outra apenas receba, automaticamente há um desequilíbrio. Os desequilíbrios causam rupturas nos melhores relacionamentos. Toda relação precisa de troca equilibrada para se manter saudável. Se um dá muito e o outro pouco, o vínculo tende a se romper. Quem recebe demais pode sentir culpa ou inferioridade; quem dá demais pode experimentar superioridade ou esgotamento. O equilíbrio sustenta o respeito e a dignidade.
Entre pais e filhos, porém, essa lei funciona de forma diferente. Não há equilíbrio possível, porque os pais dão a vida e os filhos recebem. A vida não pode ser paga de volta. O fluxo saudável é: pais dão aos filhos; os filhos recebem e, mais tarde, transmitem à vida e à próxima geração. Quando um filho tenta compensar os pais sacrificando a própria felicidade ou carregando seus sofrimentos, interrompe o fluxo natural. A postura madura é reconhecer: “Eu recebo tudo de vocês. E agora faço algo bom com isso.”
As três leis atuam de forma interligada. Quando uma é violada, as outras também se desequilibram. Um membro excluído representa a quebra do pertencimento; um filho que assume o lugar de salvador viola a hierarquia; um relacionamento em que um dá e o outro apenas recebe rompe o equilíbrio. O resultado pode ser desordem sistêmica, manifestada como dificuldade financeira crônica, conflitos conjugais recorrentes, doenças psicossomáticas, sensação de não pertencimento ou autossabotagem.
Essas leis revelam uma dimensão profunda do amor. O amor infantil é cego e sacrificial; o amor maduro é consciente e respeita a ordem. A Constelação Familiar não busca culpados, mas restabelecer a ordem natural para que o amor possa fluir sem peso.
Quando há inclusão, respeito à hierarquia e equilíbrio nas trocas, o sistema encontra pacificação. E, quando o sistema encontra paz, o indivíduo encontra força.
Bert Hellinger explicou o sentido da conhecida frase de São Francisco de Assis: “É dando que se recebe”. Ele demonstrou, por meio da Constelação Familiar, que em toda relação existe a necessidade de equilíbrio entre as trocas de dar e receber. Quando você dá, precisa receber em medida semelhante, pois, se um dos lados dá ou recebe em excesso, causa danos ao relacionamento.
Ele explica que o equilíbrio pode atuar também no negativo. Por exemplo: um homem magoa sua esposa dizendo: “Você é igualzinha à sua mãe.” Se a mulher ficar muito ressentida, poderá sentir necessidade de feri-lo também para restaurar o equilíbrio, dizendo algo que o magoe. O equilíbrio tende a ser restaurado tanto no bem quanto no mal, o que pode se tornar uma das principais razões do aumento do número de divórcios.
Leia a minha próxima coluna sobre relacionamento de casal.




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