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Brasil,23/02/2026

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    Glória Barcelos

    As Três Leis Sistêmicas

    Pertencimento, Hierarquia e Equilíbrio

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    As Três Leis Sistêmicas As Três Leis Sistêmicas


    Em uma família, há uma ordem entre pais e filhos e entre irmãos. Todos se conectam uns aos outros por importantes vínculos de amor, e o não cumprimento dessas leis traz muitos efeitos desastrosos, porque o sistema não aceita desrespeito.

    A Lei do Pertencimento

    Bert Hellinger observou que os sistemas familiares são regidos por leis invisíveis que atuam independentemente da vontade consciente das pessoas. Essas leis não são morais nem religiosas; são leis fenomenológicas. Elas simplesmente atuam. Quando respeitadas, produzem força, fluidez e prosperidade. Quando violadas, geram emaranhamentos, repetições de destino e sofrimento transgeracional.

    É a lei mais básica e estrutural do sistema. Aquele que faz parte de um sistema familiar tem direito igual de pertencimento. Isso inclui filhos vivos e falecidos, abortos espontâneos ou provocados, ex-cônjuges, parceiros e outros que tiveram vínculos importantes na família. Você pertence a um sistema familiar e, se negar as suas raízes, estará negando a si mesmo(a), e sua alma ficará ressentida.

    Todos têm direito igual de pertencer, independentemente da conduta de vida. Nada tira o direito de pertencimento, mesmo que algum membro cometa um crime ou tenha comportamento incoerente com os costumes da família. Isso pode implicar perda de credibilidade e de prestígio, mas não do direito de pertencer.

    A Lei do Pertencimento diz que todos que fazem parte de um sistema familiar jamais podem ser excluídos. Quando isso acontece, o sistema busca uma “reinclusão” por meio de um membro da família que passa por alguma dificuldade semelhante. Você pertence a um sistema familiar; você é metade pai, metade mãe  isso é imutável  e, se negar as suas raízes, estará negando a si mesmo(a), e sua alma ficará ressentida, criando, assim, um movimento inconsciente de compensação.

    Um descendente posterior pode repetir o destino do excluído, desenvolver sintomas semelhantes, assumir culpas que não são suas ou sentir uma tristeza profunda sem causa aparente. Esse fenômeno é chamado de emaranhamento sistêmico. O amor é cego e profundamente leal. Um familiar, por amor inconsciente ao sistema, pode assumir internamente compromissos como:

    “Eu faço como você.”

    “Eu sigo você.”

    “Eu compenso por você.”

    Assim se explicam repetições de falências, vícios, doenças, relacionamentos destrutivos ou fracassos recorrentes ao longo das gerações.

    O movimento de cura acontece por meio do reconhecimento. Quando o excluído é visto e recebe um lugar no coração:

    “Você pertence. Eu vejo você.”

    O descendente deixa de precisar representá-lo. A inclusão devolve ordem e alivia o sistema. Pertencer, na visão sistêmica, não é gostar, não é concordar e muito menos se aproximar, mas reconhecer no coração que a pessoa pertence; caso contrário, o sistema cobra de maneira silenciosa, por meio de doenças, conflitos, fracassos financeiros e de relacionamentos.

    A Lei da Hierarquia

    Refere-se à ordem de quem veio antes. Nos sistemas familiares, existe uma sequência natural baseada no tempo e na precedência. Quem veio antes tem prioridade sobre quem veio depois. Pais vêm antes dos filhos. O primeiro filho vem antes do segundo. Um relacionamento anterior vem antes do atual. Essa ordem gera estabilidade. Quando é invertida, surgem conflitos e fraqueza.

    As inversões de hierarquia são comuns e muitas vezes inconscientes: o filho que assume o papel de parceiro emocional da mãe; a criança que julga ou despreza o pai; aquele que tenta salvar os pais; ou o irmão mais novo que desqualifica o mais velho. Quando o filho se coloca acima dos pais, sobrecarrega-se energeticamente. Pode surgir sensação de peso excessivo, ansiedade, culpa, dificuldade de prosperar e problemas nos relacionamentos.

    Na visão sistêmica, o filho só recebe força quando honra seus pais no coração, reconhece o seu lugar de pequeno diante deles e não interfere na vida do casal. Quando um filho sai do lugar de filho para ocupar o lugar de pai ou de mãe, vive uma pseudo-grandeza, e sua vida não flui. Quando essa lei é desrespeitada, de modo que os pais se sintam menores que os filhos, o estado emocional se altera, gerando grande desconforto, que, por sua vez, manifesta-se como sofrimento.

    Nos casos em que acontece um segundo casamento, a união atual tem prioridade sobre a anterior. Contudo, se houver filhos do primeiro casamento, estes têm prioridade sobre o segundo casamento, e há necessidade de que a mãe dos filhos seja reconhecida como a primeira mulher e mãe dos filhos do marido. Segundo Bert Hellinger, não existe ex-marido ou ex-esposa, e sim primeiro(a), segundo(a), terceiro(a), sucessivamente. Todos os ex fizeram parte do sistema e precisam ser incluídos. Diante disso, percebemos que existem muitos movimentos interrompidos em nossas vidas, inclusive com ex-namorados(as), principalmente quando houve envolvimento íntimo, porque a relação sexual cria vínculo.

    A vida flui de cima para baixo, como uma cascata: avós, pais e filhos. Quando o filho rejeita ou julga os pais, bloqueia esse fluxo. Quando, internamente, reconhece: “Vocês são grandes. Eu sou pequeno(a). Recebo a vida de vocês”, alinha-se à ordem natural. E onde há ordem, há força.

    A Lei do Equilíbrio

    A Lei do Equilíbrio fala da troca entre dar e receber. Caso uma pessoa dê e a outra apenas receba, automaticamente há um desequilíbrio. Os desequilíbrios causam rupturas nos melhores relacionamentos. Toda relação precisa de troca equilibrada para se manter saudável. Se um dá muito e o outro pouco, o vínculo tende a se romper. Quem recebe demais pode sentir culpa ou inferioridade; quem dá demais pode experimentar superioridade ou esgotamento. O equilíbrio sustenta o respeito e a dignidade.

    Entre pais e filhos, porém, essa lei funciona de forma diferente. Não há equilíbrio possível, porque os pais dão a vida e os filhos recebem. A vida não pode ser paga de volta. O fluxo saudável é: pais dão aos filhos; os filhos recebem e, mais tarde, transmitem à vida e à próxima geração. Quando um filho tenta compensar os pais sacrificando a própria felicidade ou carregando seus sofrimentos, interrompe o fluxo natural. A postura madura é reconhecer: “Eu recebo tudo de vocês. E agora faço algo bom com isso.”

    As três leis atuam de forma interligada. Quando uma é violada, as outras também se desequilibram. Um membro excluído representa a quebra do pertencimento; um filho que assume o lugar de salvador viola a hierarquia; um relacionamento em que um dá e o outro apenas recebe rompe o equilíbrio. O resultado pode ser desordem sistêmica, manifestada como dificuldade financeira crônica, conflitos conjugais recorrentes, doenças psicossomáticas, sensação de não pertencimento ou autossabotagem.

    Essas leis revelam uma dimensão profunda do amor. O amor infantil é cego e sacrificial; o amor maduro é consciente e respeita a ordem. A Constelação Familiar não busca culpados, mas restabelecer a ordem natural para que o amor possa fluir sem peso.

    Quando há inclusão, respeito à hierarquia e equilíbrio nas trocas, o sistema encontra pacificação. E, quando o sistema encontra paz, o indivíduo encontra força.

    Bert Hellinger explicou o sentido da conhecida frase de São Francisco de Assis: “É dando que se recebe”. Ele demonstrou, por meio da Constelação Familiar, que em toda relação existe a necessidade de equilíbrio entre as trocas de dar e receber. Quando você dá, precisa receber em medida semelhante, pois, se um dos lados dá ou recebe em excesso, causa danos ao relacionamento.

    Ele explica que o equilíbrio pode atuar também no negativo. Por exemplo: um homem magoa sua esposa dizendo: “Você é igualzinha à sua mãe.” Se a mulher ficar muito ressentida, poderá sentir necessidade de feri-lo também para restaurar o equilíbrio, dizendo algo que o magoe. O equilíbrio tende a ser restaurado tanto no bem quanto no mal, o que pode se tornar uma das principais razões do aumento do número de divórcios.

    Leia a minha próxima coluna sobre relacionamento de casal.



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