Catharina Sour: a década em que o Brasil criou um estilo de cerveja para o mundo
Primeiro estilo cervejeiro brasileiro reconhecido internacionalmente completa 10 anos e reafirma a criatividade do país em um mercado global cada vez mais aberto à diversidade sensorial.
Daniel Zimmermann Mark Neumann, Idney Nuno José e Fernando Lapolli: os primeiros a produzirem a Catharina Sour Em um mercado historicamente dominado por tradições centenárias da Europa e dos Estados Unidos, o Brasil conquistou um feito raro: criar um estilo de cerveja reconhecido internacionalmente. A Catharina Sour, nascida em Santa Catarina, completa uma década como o primeiro estilo brasileiro oficialmente catalogado pelo Beer Judge Certification Program (BJCP), consolidando o país como protagonista na inovação cervejeira global.
A trajetória do estilo será celebrada durante o Degusta Cervejas do Brasil, um dos maiores encontros do setor no país, realizado em Blumenau (SC). O evento reúne cerca de 200 cervejarias de 12 estados, que apresentam ao público rótulos de diferentes escolas, experimentações e interpretações da produção artesanal brasileira.
Mais do que um estilo técnico, a Catharina Sour tornou-se um símbolo da identidade criativa da cerveja nacional.

Um estilo com sotaque brasileiro
A principal característica da Catharina Sour é a acidez equilibrada e refrescante combinada com frutas, algo que reflete diretamente a biodiversidade e a cultura gastronômica brasileira. Diferentemente de estilos ácidos tradicionais europeus, como as lambics ou gose, a Catharina Sour foi pensada para ser leve, frutada e acessível, aproximando novos consumidores do universo das cervejas artesanais.
Ao longo desses dez anos, a diversidade de ingredientes incorporados ao estilo revela a riqueza sensorial do país. Frutas tropicais e regionais tornaram-se protagonistas em inúmeras versões: abacaxi, pêssego, caju, pitanga, goiaba, maracujá e uva são apenas alguns exemplos.
A criatividade dos cervejeiros também abriu espaço para especiarias e elementos aromáticos como hortelã, sálvia e diferentes variedades de pimenta, ampliando ainda mais o repertório sensorial da bebida.
Esse caráter experimental contribuiu para que o estilo se tornasse um dos mais dinâmicos do cenário cervejeiro contemporâneo.
De Florianópolis para o mundo
A história da Catharina Sour começa em 2016, em Santa Catarina. A primeira brassagem considerada fundadora do estilo foi a Coroa Real, produzida pela Liffey Cervejaria, em Florianópolis, combinando abacaxi e hortelã.
Poucos meses depois, a Cervejaria Blumenau deu outro passo decisivo ao lançar a Catharina Sour Pêssego, considerada a primeira versão engarrafada do estilo, ajudando a levá-lo a um público mais amplo.
O que começou como uma inovação regional rapidamente ganhou escala nacional. Concursos, encontros de cervejeiros e competições caseiras passaram a reconhecer a categoria, estimulando novas interpretações do estilo.
A validação internacional veio em etapas. Em 2018, o Beer Judge Certification Program — referência mundial para classificação de estilos — incluiu a Catharina Sour como estilo temporário em suas diretrizes. Três anos depois, em 2021, ela passou a integrar oficialmente o guia definitivo do BJCP.
Para Gordon Strong, presidente da organização, a identidade do estilo explica seu sucesso global. Segundo ele, a Catharina Sour se destaca pelo frescor, pela vibração de sabores e pela acidez que valoriza a fruta, mantendo respeito aos ingredientes e equilíbrio sensorial.
“É um estilo atual, que representa bem um país como o Brasil”, afirma Strong.
A expansão e os diferentes sotaques do estilo
Hoje, a Catharina Sour é produzida por cervejarias de diversas regiões do país — e também do exterior. Cada interpretação traz nuances distintas de ingredientes e técnicas.
No Degusta Cervejas do Brasil, algumas dessas leituras estarão presentes. A Liffey, protagonista da primeira receita, participa com rótulos que resgatam a origem do estilo. A Cervejaria Blumenau, responsável pela primeira versão engarrafada, também marca presença.
A diversidade geográfica do Brasil aparece nas versões criadas por produtores de diferentes regiões. A cervejaria 5 Elementos, da cearense Turatti, leva para o evento uma versão com goiaba, lactose e baunilha. Já o Omas Haus Brewpub, localizado próximo ao evento, apresenta uma combinação de goiaba e maracujá.
Esse mosaico de interpretações reforça a vocação da Catharina Sour para a experimentação e para a valorização de ingredientes regionais.
Reconhecimento internacional
A consolidação do estilo também se reflete em números e premiações. No Concurso Brasileiro de Cervejas de 2026, a Catharina Sour aparece como o segundo estilo com maior número de cervejarias inscritas, com 98 participantes, ficando atrás apenas da IPA, com 112.
No cenário global, o reconhecimento também cresce. Em 2025, o World Beer Awards, uma das mais importantes premiações do setor, elegeu como melhor Catharina Sour do mundo a La Gueule De – Limited Edition Sour – Rhubarb & White Peach, produzida na França.
O resultado demonstra que o estilo criado no Brasil ultrapassou fronteiras e passou a ser reinterpretado por cervejarias internacionais, consolidando-se como uma nova linguagem dentro da cultura cervejeira contemporânea.
A década que redefiniu o papel do Brasil na cerveja artesanal
Durante muito tempo, o Brasil foi visto apenas como um grande mercado consumidor de cerveja. A criação da Catharina Sour mudou essa percepção ao mostrar que o país também pode ser autor de estilos e tendências.
A combinação de criatividade, diversidade de ingredientes e espírito experimental transformou a Catharina Sour em um símbolo da maturidade da cena cervejeira nacional.
Ao completar dez anos, o estilo não celebra apenas sua trajetória. Ele também reafirma algo maior: a capacidade do Brasil de transformar sua cultura, sua biodiversidade e sua inventividade em experiências sensoriais capazes de conquistar o mundo.





COMENTÁRIOS