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Brasil,06/03/2026

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    Abrir empresa nunca foi tão rápido. Manter o negócio vivo exige estratégia

    Com recorde de novos CNPJs em São Paulo, especialistas alertam que erros no regime tributário e falta de planejamento financeiro ainda estão entre as principais causas de mortalidade empresarial


    Abrir empresa nunca foi tão rápido. Manter o negócio vivo exige estratégia Divulgação

    São Paulo segue como o maior polo empreendedor do Brasil. Dados da Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp) mostram que mais de 380 mil empresas foram abertas em 2024, reforçando a liderança do estado na criação de novos negócios. Em nível nacional, o Mapa de Empresas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços aponta que o país já ultrapassa 21 milhões de empresas ativas, com saldo positivo anual de novos CNPJs.

    A digitalização dos processos foi decisiva para esse avanço. Hoje, em muitos municípios paulistas, abrir uma empresa pode levar menos de uma semana, algo impensável há poucos anos.

    Mas enquanto o número de aberturas cresce, outro dado chama atenção: a dificuldade de manter esses negócios ativos no longo prazo.

    Segundo o Sebrae, cerca de 29% das empresas encerram suas atividades antes de completar cinco anos. Entre os principais motivos estão a falta de capital de giro, problemas na gestão financeira e ausência de planejamento estratégico.

    Para Lucas Oliveira, diretor da LCS Contabilidade, o problema raramente está na formalização da empresa — e quase sempre na forma como ela é estruturada desde o início.

    “O empreendedor se preocupa com o prazo para sair o CNPJ, com taxas e documentação. Mas raramente questiona se o regime tributário escolhido sustenta o modelo de negócio dele. E essa decisão impacta diretamente na margem”, explica.


    O erro começa na escolha do regime tributário

    De acordo com dados da Receita Federal, mais de 70% das empresas brasileiras estão enquadradas no Simples Nacional. O regime se tornou popular por concentrar tributos em uma única guia e simplificar obrigações fiscais.

    No entanto, essa facilidade pode levar a escolhas automáticas que nem sempre são as mais vantajosas.

    Dependendo da atividade e da margem operacional da empresa, a diferença de carga tributária entre Simples Nacional e Lucro Presumido pode ultrapassar 10 pontos percentuais, segundo simulações realizadas por escritórios de contabilidade consultiva.

    “Muitos escolhem o Simples por padrão. Mas, dependendo da atividade, ele pode representar uma carga maior do que o Lucro Presumido. Sem simulação prévia, o empreendedor começa pagando mais imposto do que deveria”, afirma Lucas Oliveira.

    Além disso, a falta de análise tributária impacta diretamente na formação de preços. Muitos empresários projetam faturamento e custos operacionais, mas deixam de considerar corretamente tributos como PIS, COFINS, ISS ou ICMS.

    O resultado costuma aparecer alguns meses depois: a empresa cresce em faturamento, mas a rentabilidade não acompanha.


    Plano de negócio sem simulação financeira é incompleto

    Outro ponto crítico identificado por especialistas está na elaboração do plano de negócio. Levantamento do Sebrae aponta que a ausência de planejamento estruturado está entre as três principais causas de fechamento precoce de empresas.

    Segundo Lucas Oliveira, muitos planos ignoram dois elementos fundamentais: projeção de carga tributária real e planejamento detalhado de fluxo de caixa.

    “Plano de negócio sem simulação tributária e projeção de capital de giro é apenas uma estimativa otimista. O empresário projeta vendas, mas não projeta o impacto dos impostos na margem. Isso cria uma ilusão de lucro”, afirma.

    A LCS Contabilidade relata casos de empresas que precisaram reestruturar sua operação ainda no primeiro ano após perceberem que o regime escolhido inviabilizava o crescimento.

    Em um dos exemplos acompanhados pela consultoria, uma empresa de serviços digitais abriu no Simples Nacional e, após análise tributária, migrou para o Lucro Presumido no segundo ano de operação. A mudança reduziu a carga tributária efetiva em cerca de 8% da receita bruta, permitindo que os recursos fossem reinvestidos em equipe e marketing.


    Estrutura societária também influencia crescimento

    Além da escolha do regime tributário, a forma societária da empresa também pode impactar diretamente seu potencial de expansão.

    Empresas abertas como empresário individual, por exemplo, podem enfrentar limitações quando surge a necessidade de entrada de novos sócios ou reorganizações societárias.

    “Abrir empresa é rápido. Corrigir a estrutura societária depois pode ser mais caro, mais complexo e gerar impacto tributário adicional”, explica Oliveira.

    Com a reforma tributária em andamento e a transição prevista para o modelo de IVA dual (CBS e IBS) nos próximos anos, especialistas apontam que decisões tomadas no momento da abertura tendem a ter impacto ainda maior no futuro das empresas.


    Abertura é operacional. Sobrevivência é estratégica

    Os números mostram que empreender no Brasil está mais acessível do que nunca. A tecnologia e a simplificação de processos reduziram barreiras e aceleraram a formalização de novos negócios.

    Mas a facilidade para abrir empresas não elimina a necessidade de planejamento.

    Para especialistas, incluir contabilidade estratégica, simulações tributárias e planejamento financeiro ainda antes da formalização do CNPJ pode reduzir riscos, evitar correções estruturais no futuro e melhorar a rentabilidade desde os primeiros meses de operação.

    “Empreender não é apenas abrir um CNPJ. É estruturar margem, prever impostos e organizar o crescimento desde o primeiro dia”, conclui Lucas Oliveira.




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