Sabores do território: Lobozó da Lapinha da Serra ganha releitura no Inhotim
Prato tradicional da culinária mineira chega ao restaurante Oiticica pelas mãos da chef Marina Leite, em uma celebração da cultura e da simplicidade gastronômica
Morena e Marina Leite A gastronomia mineira, marcada por memória, afeto e território, ganha novos contornos durante o mês de março no restaurante Oiticica, localizado no Inhotim. A proposta da casa é transformar o espaço em uma vitrine viva das tradições culinárias de Minas Gerais, convidando chefs de diferentes regiões do estado para apresentar pratos que carregam histórias e identidades.
À frente da curadoria está a jornalista gastronômica Carol Daher, enquanto a cozinha do restaurante é conduzida pela chef Morena Leite, que idealizou o projeto como uma homenagem contínua à riqueza da culinária mineira. A cada mês, um novo nome assume o protagonismo — e, em março, o destaque é feminino.
A convidada da vez é a chef Marina Leite, que trouxe para o público do Inhotim uma releitura do Lobozó, prato típico da Lapinha da Serra, na região da Serra do Cipó. Mais do que uma criação gastronômica, a escolha representa um mergulho na cultura alimentar local.
“Foi uma surpresa e uma honra enorme levar o território de Lapinha da Serra para o Inhotim, ainda mais em um mês que valoriza o protagonismo feminino”, destaca a chef.
Diferente de apostar em uma receita autoral, Marina optou por valorizar a tradição. O Lobozó, prato de origem tropeira, é preparado a partir de farinha de milho flocada, bem úmida, combinada com ingredientes simples e disponíveis no cotidiano — uma comida pensada para sustentar longas jornadas pelas serras.
Na versão apresentada no Oiticica, o prato ganha carne de panela e ingredientes emblemáticos do cerrado, como pequi e ora-pro-nóbis, reforçando a conexão com o território. Mesmo não fazendo parte do cardápio fixo de seu restaurante, o Casulo, a receita dialoga diretamente com a pesquisa que Marina desenvolve na região.
“A nossa cozinha é um resgate das tradições culturais da Lapinha, sempre valorizando os ingredientes que fazem parte da identidade local. Entender a história desse prato foi um processo muito especial”, explica.
Levar essa cozinha de raiz para dentro de um restaurante com operação em grande escala também exigiu adaptações. Ainda assim, a essência foi preservada.
“O desafio foi traduzir a cozinha caipira da Lapinha para a estrutura do Oiticica. Esse contexto guiou nossas escolhas, e acredito que conseguimos manter a alma do prato”, afirma.
Mais do que surpreender pelo sabor, a expectativa é provocar reconhecimento. O Lobozó chega à mesa como um retrato da simplicidade que sustenta e conecta — um prato que não busca protagonismo imediato, mas que conquista pelo significado.
“É uma comida que carrega a alma do matuto. Ela não chega para chamar atenção, mas encontra seu lugar e se alegra em compartilhar suas histórias”, conclui a chef.
No encontro entre tradição e experiência contemporânea, o resultado é um convite: provar Minas em sua essência, onde cada ingrediente conta uma história.




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