Quando cobrar não basta: o desafio de engajar estudantes com apoio e propósito
Especialistas internacionais defendem que altas expectativas só funcionam quando acompanhadas de suporte emocional, pedagógico e relações mais humanas na escola
Mateus Lima A educação contemporânea vive um paradoxo silencioso: ao mesmo tempo em que se exige cada vez mais dos estudantes, nem sempre se oferece o suporte necessário para que eles acompanhem esse ritmo. O resultado, segundo especialistas, é um afastamento crescente dos jovens do processo de aprendizagem.
Esse foi um dos principais pontos discutidos no Seminário Internacional de Anos Finais Integrais – Redes que Transformam, realizado em São Paulo. Durante o painel sobre perspectivas internacionais, o professor David Yeager, da Universidade do Texas, trouxe um alerta direto: elevar o nível de exigência sem apoio adequado pode afastar, e não aproximar, os alunos da escola.
Para ele, o problema não está apenas nas metas, mas na forma como os adultos enxergam os adolescentes. Crenças como a de que jovens são “difíceis” ou precisam ser constantemente controlados acabam moldando relações mais rígidas e menos empáticas dentro do ambiente escolar. Isso impacta diretamente o engajamento.
“Se a comunicação ameaça o respeito próprio do estudante, ele simplesmente se desconecta”, destacou o professor, reforçando que o vínculo emocional é parte essencial do aprendizado.
A professora emérita de Stanford, Rachel Lotan, complementou essa visão ao defender um modelo de sala de aula mais colaborativo e inclusivo. Para ela, ambientes de aprendizagem eficazes devem se apoiar em três pilares fundamentais: igualdade, excelência e democracia.
Na prática, isso significa garantir que todos os alunos tenham as mesmas oportunidades de participação, sejam reconhecidos por suas capacidades e tenham espaço para experimentar, errar e construir conhecimento de forma coletiva. Mais do que transmitir conteúdo, a escola precisa criar um ambiente onde o estudante se sinta pertencente.
O cenário brasileiro e os desafios estruturais
No contexto nacional, a diretora-executiva do Instituto Reúna, Katia Smole, trouxe uma reflexão importante: o Brasil ainda conhece pouco seus adolescentes dentro do sistema educacional. Segundo ela, existe um foco maior nas fases iniciais e no ensino médio, enquanto os anos finais acabam ficando em um “meio do caminho” pouco explorado.
Essa lacuna é especialmente crítica, já que é nesse período que os estudantes passam por transformações profundas e começam a tomar decisões que impactam diretamente seu futuro.
Katia também destacou que melhorar a educação exige mais do que boas intenções — é necessário planejamento consistente, políticas públicas bem estruturadas e, principalmente, colaboração entre diferentes setores.
“Não existe implementação genérica. Educação precisa de tempo, estratégia e acompanhamento contínuo”, afirmou.
O debate reforça uma mudança de paradigma cada vez mais urgente: ensinar não é apenas cobrar desempenho, mas construir caminhos para que o estudante consiga aprender. Isso envolve olhar para além das notas e considerar fatores como pertencimento, escuta, respeito e apoio.
No fim das contas, a mensagem é clara — altas expectativas continuam sendo importantes, mas só fazem sentido quando caminham lado a lado com suporte real. Caso contrário, a escola corre o risco de transformar potencial em frustração.




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