Camila Sol
Quando a dor encontra voz: o recomeço emocional de Fernanda Salerno
m “O Amor Que a Dor Pariu”, autora transforma memórias difíceis em um caminho de consciência, empatia e reconstrução afetiva
É estranho — e, ao mesmo tempo, profundamente humano — quando um texto não apenas informa, mas atravessa. Escrever sobre O Amor Que a Dor Pariu foi, para mim, um desses momentos. Em muitos trechos, não era apenas sobre a história de Fernanda Salerno. Era como se, silenciosamente, partes da minha própria história também fossem sendo revisitadas.
E talvez seja exatamente isso que torna essa obra tão potente: ela não fala só de uma experiência individual, mas de dores que se repetem, ainda que com rostos e contextos diferentes. É, ao mesmo tempo, muito bom e muito triste perceber quantas pessoas vivem algo parecido — muitas delas acreditando estar sozinhas.
Professora de matemática há 27 anos, Fernanda encontrou na escrita um espaço de organização interna, um território onde sentimentos antes sufocados puderam, finalmente, ganhar nome. O livro nasce de um processo profundo de reconstrução afetiva e propõe ao leitor um convite delicado e corajoso: revisitar a própria história sem filtros, sem enfeites — mas também sem condenação.
Ao longo da obra, a autora mergulha em memórias atravessadas por silêncios e feridas emocionais, revelando como padrões como a busca incessante por aprovação e o perfeccionismo podem ser, na verdade, respostas a dores antigas. Como ela mesma define: “a transformação começou quando percebi que eu não precisava mudar o passado, mas sim o ângulo pelo qual eu o enxergava”. Ao ampliar essa visão, a consciência também se expande — e, com isso, surgem novas formas de lidar com os gatilhos do presente.
Escrever, no entanto, não foi um processo leve — mas necessário. A autora relata que algumas partes despertaram emoções intensas, sem nunca fazê-la recuar. “Escrever, para mim, sempre foi um gesto de legítima defesa”, afirma. Ao colocar em palavras aquilo que por muito tempo permaneceu calado, ela encontrou uma forma de organizar sentimentos e confrontar memórias. E completa: “falar sobre a dor não a faz crescer; apenas organiza e alivia o que já estava guardado.”
Um dos pontos centrais da obra é a relação com a mãe, retratada com honestidade e complexidade. Ao longo da narrativa, Fernanda rompe com a visão idealizada da figura materna e passa a enxergá-la como um ser humano atravessado por suas próprias dores e limitações. Essa mudança de perspectiva transforma tudo. “O peso da expectativa deu lugar à empatia e à compaixão”, explica. É nesse novo olhar que as defesas se desfazem e a relação encontra espaço para, enfim, florescer.
A autora também aborda temas sensíveis como depressão, luto, câncer, traição e identidade. Sem romantizar a dor, ela revela como foi justamente em um momento de colapso emocional que começou a identificar padrões antes invisíveis. “Entendi que a busca pela perfeição era, na verdade, um medo profundo de ser rejeitada”, diz. Sustentar a imagem de impecável, segundo ela, é exaustivo — e a verdadeira liberdade está em aceitar as próprias imperfeições.
O processo de escrita, longe de seguir uma lógica racional, foi marcado pela entrega. “Eu não sei se equilibrei. Eu só estava sentindo e escrevendo”, admite. E talvez seja exatamente essa honestidade que torna a obra tão potente — porque ela não suaviza a dor, mas a transforma em linguagem.
Sua trajetória como educadora também atravessa a narrativa. Acostumada a lidar com jovens e adolescentes, Fernanda desenvolveu um olhar sensível para aquilo que não é dito. Essa escuta ampliada contribuiu para que ela pudesse não apenas compreender o outro, mas também aprofundar o olhar sobre si mesma.
Mais do que contar uma história, O Amor Que a Dor Pariu propõe um movimento interno. Um convite à coragem de encarar as próprias feridas e reconhecer seus impactos. Para quem vive dores semelhantes, ela orienta: “a reconstrução começa quando a gente para de tentar esconder o que dói”.
E talvez esse seja o ponto mais forte do livro: ele acolhe. Ao ler e escrever sobre essa obra, ficou impossível não pensar em quantas pessoas carregam dores silenciosas, acreditando que são únicas — quando, na verdade, não são.
Ver o livro de Fernanda é, de alguma forma, um abraço. Um lembrete de que existem outras histórias atravessadas pelas mesmas questões, pelas mesmas faltas, pelos mesmos sentimentos difíceis de nomear. E que isso não precisa ser um lugar de solidão.
Não se trata de guardar mágoas ou apontar culpados. Trata-se de compreender. Entender de onde vieram essas dores, como elas se formaram e, principalmente, reconhecer que cada pessoa, cada mãe, cada família carrega sua própria história, suas próprias limitações e vivências.
Porque, no fim, talvez a maior cura esteja justamente aí: não em apagar o passado, mas em aprender a olhar para ele com verdade — e, a partir disso, construir novos sentidos.



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