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Brasil,05/03/2026

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    Camila Sol

    Quem controla sua atenção? O novo campo de batalha entre tecnologia, liberdade e consciência

    Debate em São Paulo com o escritor Peter Schmidt discute como a economia da atenção, operada pelas Big Techs, redefine a forma como pensamos, escolhemos e participamos da vida pública.


     Quem controla sua atenção? O novo campo de batalha entre tecnologia, liberdade e consciência

    Existe uma disputa silenciosa acontecendo todos os dias — e ela acontece dentro da mente de bilhões de pessoas. Não se trata de uma guerra tradicional, mas de uma disputa contínua por algo que se tornou um dos recursos mais valiosos da era digital: a atenção humana.

    É nesse contexto que a organização internacional ARTIGO 19 promove, em São Paulo, um debate público com o escritor e pesquisador Peter Schmidt, coeditor do livro Attensity! A Manifesto of the Attention Liberation Movement, lançado em 2026 nos Estados Unidos. O encontro acontece no dia 5 de março, às 18h30, na Faculdade de Direito da USP, e busca ampliar um debate cada vez mais urgente: quem controla aquilo que pensamos, consumimos e acreditamos no ambiente digital?

    A conversa será mediada pela professora Anna Bentes, pesquisadora da Fundação Getulio Vargas (FGV), que estuda a interseção entre comunicação, psicologia e tecnologia. O evento surge em um momento em que cresce, em diferentes partes do mundo, a preocupação com o poder acumulado por gigantes da tecnologia como Meta, Google, X e TikTok.

    Essas plataformas, embora ofereçam serviços aparentemente gratuitos, operam sob um modelo econômico específico: a chamada economia da atenção.


    Quando a atenção vira mercadoria

    A lógica é simples, mas poderosa. Quanto mais tempo uma pessoa permanece em uma plataforma, maior o volume de dados coletados sobre ela — e maior o valor comercial gerado por anúncios direcionados e conteúdos personalizados.

    Mas o livro organizado por Schmidt propõe uma metáfora ainda mais contundente para explicar esse fenômeno: o “fraturamento humano”.

    O conceito faz referência ao fracking, técnica usada na indústria de petróleo para romper camadas profundas do solo e extrair combustíveis fósseis. De forma semelhante, as plataformas digitais utilizam uma combinação sofisticada de algoritmos, notificações, vídeos curtos e feeds infinitos para romper as barreiras naturais da atenção humana e extrair dela valor econômico.

    Nesse modelo, cada clique, cada pausa no scroll e cada reação se tornam parte de um sistema de monetização global.

    “Não se trata de fraqueza individual”, afirma Peter Schmidt. “Existe uma arquitetura inteira projetada para capturar e manter nossa atenção.”

    Essa perspectiva desloca o debate da esfera do comportamento pessoal para uma discussão estrutural. O problema não é apenas o uso excessivo das redes sociais — é o modelo econômico que depende desse uso constante.


    A ameaça invisível à liberdade de pensamento

    Para Raquel da Cruz Lima, coordenadora do Centro de Referência Legal da ARTIGO 19, o impacto desse sistema vai muito além da saúde mental ou do tempo gasto nas telas.

    Ele toca diretamente um princípio fundamental da democracia: a liberdade de pensamento.

    O Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que todas as pessoas têm o direito de buscar, receber e compartilhar informações e opiniões sem interferência. No entanto, quando algoritmos invisíveis passam a organizar o fluxo de informações que cada indivíduo recebe, esse direito ganha uma nova camada de complexidade.

    Afinal, até que ponto nossas opiniões são realmente nossas?

    Se plataformas acumulam dados sobre hábitos, preferências e emoções, elas também passam a influenciar — de forma muitas vezes imperceptível — as narrativas às quais cada pessoa é exposta.

    Essa dinâmica não apenas intensifica a disseminação de desinformação e discursos extremistas, como também cria bolhas informacionais altamente segmentadas.

    Nunca antes campanhas de influência tiveram tanta precisão.


    A atenção como território político

    O livro Attensity! reúne artistas, pesquisadores e ativistas que defendem o que chamam de “movimento de libertação da atenção”.

    A proposta pode parecer abstrata à primeira vista, mas parte de uma ideia bastante concreta: recuperar espaços de pensamento profundo em uma cultura dominada pela distração constante.

    Esse ativismo da atenção envolve desde mobilização política e discussões sobre regulação tecnológica até a criação de ambientes de convivência e reflexão fora da lógica de captura permanente das plataformas.

    Não se trata apenas de abandonar redes sociais ou reduzir o tempo de tela.

    A proposta é mais profunda: repensar a relação entre tecnologia, economia e autonomia humana.

    Porque, no fundo, a disputa pela atenção é também uma disputa pela forma como percebemos o mundo.


    Para além da regulação

    Embora o debate sobre regulação das Big Techs esteja avançando em vários países, especialistas apontam que a solução não se limita à moderação de conteúdo ou à remoção de postagens problemáticas.

    Segundo a ARTIGO 19, é necessário discutir também a concentração de poder econômico e informacional nas mãos de poucas empresas globais.

    Se plataformas controlam simultaneamente infraestrutura tecnológica, dados comportamentais e sistemas de recomendação, elas passam a exercer um poder sem precedentes sobre o fluxo de informação.

    Nesse cenário, garantir liberdade de expressão significa também garantir condições reais para que as pessoas formem suas próprias opiniões.

    E isso passa, inevitavelmente, por proteger algo que hoje parece cada vez mais escasso: a capacidade de prestar atenção.


    Um convite à reflexão coletiva

    O debate com Peter Schmidt não promete respostas simples. Mas propõe algo igualmente importante: ampliar o olhar sobre um fenômeno que molda silenciosamente a vida contemporânea.

    Afinal, se a economia digital transformou a atenção em mercadoria, talvez o primeiro passo para recuperá-la seja justamente reconhecer seu valor.

    Em um mundo saturado de estímulos, defender a atenção pode ser uma das formas mais profundas de defender a liberdade.



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