Arthur Paek, fenômeno nas redes com vídeos culinários, avalia sucesso: 'Minha independência financeira chegou antes da emocional'
Se existe uma receita do sucesso, Arthur Paek, 24, influenciador digital que se tornou sensação de conteúdos gastronômicos nas redes sociais, sabe bem qual é.
Os seus vídeos são curtos, geralmente não chegam a ter um minuto de duração. Um bordão convida o telespectador a participar do preparo culinário: “Vamos fazer um...”, seguido por uma receita. Da mais simples, como um sanduíche de presunto cru, à mais elaborada, tal qual o bibimbap, prato coreano que leva arroz frito, legumes, carne e pimenta.
Na sequência, uma orquestra de talheres e tigelas jogados para o alto e ingredientes fatiados em tábuas de madeira, despejados em panelas... Efeitos sonoros acompanham os cortes supervelozes da edição e o ritmo da música na trilha — de preferência, uma bombada na internet —, com direito a salpicadas de ASMR, a técnica que provoca prazer sensorial por meio dos sons de objetos manuseados.
No Instagram, Paek acumula 6 milhões de seguidores. No TikTok, suas produções somam quase 100 milhões de curtidas. Nos últimos três anos, o creator paulista passou do anonimato à fama. Estreou, em julho, como apresentador de um quadro on-line de entrevistas do reality show “Chef de Alto Nível”, comandado por Ana Maria Braga, na Globo.
Nesse embalo, tornou-se um chamariz para o mercado publicitário (cada vez mais faminto por criatividade e engajamento) e garoto-propaganda de grandes marcas, do naipe de Sadia, Brastemp e Netflix. Também estampa campanhas de produtos de beleza, carros, roupas...
Um dos principais diferenciais de seu trabalho está na parceria com celebridades. Muitas toparam participar das bem boladas gravações, entre elas Angélica, Eliana, Fabio Porchat, Chay Suede e Ivete Sangalo. Do ramo da alta gastronomia, prestigiaram a bancada de Paek chefs brasileiros estrelados como Alex Atala, Luiz Filipe Souza e Helena Rizzo.
“Muitos repetem a fórmula didática já conhecida de receitas. Queria fazer diferente, trazer mais entretenimento e levar a gastronomia a outro lugar”, explica o influenciador, natural de Cotia, na região metropolitana de São Paulo. “Com isso atingi outras audiências. Entendi que o formato atrai a atenção não só daqueles interessados em comida. Inclusive, muita gente chega até mim dizendo que gosta de ver o prato feito, mas não curte cozinhar.”
Raizes
Arthur Paek
Fotógrafo: Fernando Mendes l Edição de moda: Thiago Biagi l Assistentes foto: Erick Gianezzi e Jesiane Gobbi l Tratamento: Quel Tâmara
Paek faz parte de uma família de classe média alta de imigrantes sul-coreanos que chegou ao Brasil na década de 1970. O contato com a culinária asiática o arrebatou logo na infância. A primeira memória relacionada a esse universo remonta ao período em que morou na Flórida, nos Estados Unidos, dos 6 aos 13 anos. Lá, descobriu um mundo de possibilidades ao frequentar restaurantes coreanos.
“Lembro de ter me apaixonado por naengmyeon”, conta. A sopa gelada com espaguete à base de batata e farinha de trigo-mourisco se tornou seu pedido padrão. Até que um dia, a mãe, Regina, resolveu prepará-la em casa.
“Fiquei fascinado, acompanhando todo o processo. Devia ter uns 8 anos. Na minha cabeça, não sabia que era possível reproduzir o prato de forma caseira. Pensava que precisava esperar o fim de semana para comê-lo fora”, diverte-se.
Esse interesse precoce, no entanto, não se mostrou suficiente para encaminhar o jovem a uma faculdade da área. “Ficava meio perdido por não me adequar bem na escola. O único professor que gostava de mim era o de teatro”, lembra. Aos 18 anos, ele optou por voltar aos Estados Unidos para cursar tecnologia empresarial, mas a experiência foi encurtada por causa da pandemia. Retornou, então, a São Paulo e se formou em administração na Faculdade Getulio Vargas (FGV). O plano: trabalhar em banco, na área de consultoria, de terno e gravata. Os pais, empresários do setor de indústria têxtil e confecção, apoiaram a ideia. Porém, veio uma guinada.
Despretensiosamente, Paek passou a usar as madrugadas, seu único tempo livre, pois estudava em período integral, para pôr a mão na massa e expandir os dotes culinários enquanto se filmava. Com o próprio celular, o rapaz deu o play. “Não consultei ninguém. Não busquei aprovação, só fiz o que queria. Era um espaço no qual podia desligar a cabeça, não me sentia inseguro. É até engraçado pensar, porque hoje me pego com mais vergonha”, afirma.
As primeiras gravações evoluíram tímidas, sem frases de efeito nem edições rebuscadas. “Eu precisava me dirigir enquanto cozinhava. Era corre dali, corre de lá. Depois, ainda levava cerca de dois dias para editar um vídeo de 30 segundos”, relata.
Ao notar a dedicação do herdeiro, a mãe passou a apoiá-lo, dando uma força nos bastidores. “Eu trabalhava durante o dia, mas sabia que à noite ele estaria me esperando para gravarmos. Mesmo cansada, ajudava com prazer, porque era emocionante ver a alegria e a realização dele”, recorda Regina. O filho completa: “Dei sorte porque resolvi fazer conteúdo de gastronomia. Se fosse qualquer outro assunto, acredito que meus pais não apoiariam tanto”.
Inspirações e futuro
Arthur Paek
Fotógrafo: Fernando Mendes l Edição de moda: Thiago Biagi l Assistentes foto: Erick Gianezzi e Jesiane Gobbi l Tratamento: Quel Tâmara
Apesar do forte apelo culinário — é ele quem prepara todas as receitas —, o paulista não se considera cozinheiro. “Sou criador de conteúdo. O pessoal me vê mais como a pessoa que está ali na frente das câmeras, mas a realidade é que adoro ficar atrás delas. Direção criativa, roteiro, edição... Sou completamente apaixonado por esse universo”, atesta.
Nada escapa ao seu “olhar crítico criativo”, como define. “Ele é extremamente perfeccionista e exigente consigo mesmo. Tudo deu muito certo justamente por essa busca pela excelência”, corrobora Regina. Atualmente, ele conta com uma equipe fixa de cinco colaboradores: os pais, como sócios (a mãe à frente do comercial e o pai das finanças), um profissional de captação e edição, um assessor de comunicação e um assistente de produção, responsável pela logística dos ingredientes.
Para um vídeo de até um minuto ir ao ar, a execução leva em torno de 15 a 24 horas. “Depende muito do projeto, mas o tempo médio de filmagem é de sete horas. Não basta chegar e gravar, existe uma complexidade para garantir a qualidade. Depois, vem o pós e a finalização.”
O influenciador espera crescer ainda mais nos próximos anos. Uma de suas fontes de inspiração é o apresentador Rodrigo Hilbert, com quem gravou uma receita de japchae (macarrão coreano frito com legumes, levemente adocicado), encontro que rendeu quase 2 milhões de curtidas. “Ele também é da área de gastronomia, apresenta e transita por outros lugares. Um cara que faz um pouquinho de tudo e com quem me identifico”, diz.
Paek também acena para os planos de investir em outros negócios. “Quero gerar experiências além das telas. A culinária é palatável, sensorial. Poder trazer a gastronomia a um lugar físico, seja com um restaurante, seja com um produto, aparece entre as minhas metas para o futuro”, adianta. Hoje, seus restaurantes prediletos são Kotori, Kyong Mi Jong, Maní e Evvai, todos em São Paulo.
Vida particular
Arthur Paek
Fotógrafo: Fernando Mendes l Edição de moda: Thiago Biagi l Assistentes foto: Erick Gianezzi e Jesiane Gobbi l Tratamento: Quel Tâmara
O jovem já está colhendo os frutos da labuta. Neste ano, comprou uma casa nos Jardins, região nobre de São Paulo, para onde deve se mudar em breve. “Tento ser o mais cuidadoso possível. Eu me sinto grato por conquistar minha independência financeira tão cedo. Às vezes, acho que ela chegou antes da minha independência emocional”, avalia. Para cuidar da saúde mental, terapia. “Comecei há pouco tempo. Tem me ajudado a me entender melhor e a acessar questões que, sozinho, talvez não conseguisse enxergar tão facilmente.”
Quanto aos cuidados pessoais, Paek não abre mão da rotina de skincare (a influência da cultura coreana de beleza se mostrou crucial para o hábito) e investe em treinos de musculação há pelo menos seis anos. “Malho de forma bem consistente, com personal.”
Também costuma pedalar com o pai, correr e jogar golfe. O criador de conteúdo vai morar a três quadras da residência dos pais. “Acho importante estar perto deles. Sou muito apegado à família”, pontua. Sobre construir a sua própria, ele afirma estar longe de concretizar o sonho de se casar e virar pai. “Não encontrei a pessoa certa e estou priorizando o trabalho, mas sei que acontecerá no momento apropriado. Por enquanto, quero viajar mais e conhecer novas culturas.”



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