O custo da mentira digital: como a desinformação impacta a saúde mental da Geração Z
Especialistas alertam para o aumento da ansiedade, insegurança emocional e distorções de percepção causadas por conteúdos manipulados nas redes sociais
Freepik A era digital trouxe avanços incontestáveis na forma como nos comunicamos e acessamos informação. No entanto, junto com esses benefícios, surgiu um fenômeno preocupante: a disseminação de mentiras digitais — desde notícias falsas até conteúdos manipulados por inteligência artificial — que têm afetado diretamente a saúde mental, especialmente entre jovens da Geração Z.
Crescendo em um ambiente hiperconectado, essa geração está constantemente exposta a uma realidade fragmentada, onde o que é verdadeiro nem sempre é evidente. O resultado é um estado contínuo de alerta emocional, marcado por dúvidas, insegurança e ansiedade.
Sob a perspectiva da inteligência emocional, a especialista Nuria Santos destaca que o problema vai além da existência da mentira. O impacto mais profundo está na quebra de confiança — um dos pilares das relações humanas.
“A mentira, ainda que lúdica ou viral, rompe o contrato de vulnerabilidade e confiança que sustenta relações saudáveis e seguras”, explica.
Esse cenário se agrava quando consideramos dados da Organização Mundial da Saúde, que apontam o Brasil como um dos países com maiores índices de ansiedade no mundo. O ambiente digital, longe de ser neutro, atua como um amplificador dessas emoções, reforçando estigmas e criando distorções sobre o que é sentir, reagir e viver.
Entre os jovens, especialmente na faixa dos 18 aos 25 anos, os efeitos são cada vez mais visíveis. A exposição constante a conteúdos manipulados — como deepfakes, simulações de situações extremas e narrativas fabricadas — gera picos de estresse e eleva os níveis de cortisol, o hormônio associado à resposta ao perigo.
Além disso, tendências virais que exploram o sofrimento alheio como forma de entretenimento contribuem para um fenômeno ainda mais preocupante: a banalização das emoções. Quando a dor vira conteúdo, a empatia perde espaço.
“Ao transformarmos a angústia alheia em entretenimento, fragilizamos a conexão humana genuína, alimentando isolamento e desconfiança sistêmica”, alerta Nuria Santos.
Outro impacto relevante está na construção da autoimagem. A convivência com realidades editadas e padrões irreais tem impulsionado o aumento de casos de dismorfia, burnout e autocrítica excessiva. Jovens passam a se comparar com versões idealizadas — muitas vezes falsas — e, nesse processo, perdem a referência do que é real.
A chamada “mentira cotidiana”, frequentemente romantizada em vídeos curtos e conteúdos virais, também tem levado a autodiagnósticos equivocados e à normalização de sofrimento psicológico, dificultando o reconhecimento e o tratamento adequado de transtornos mentais.
Diante desse cenário, cresce a necessidade de uma nova abordagem: o chamado “fact-checking emocional”. Mais do que verificar fatos, trata-se de compreender como determinadas narrativas afetam emocionalmente quem consome esse conteúdo — e de que forma podem reforçar ou minimizar dores reais.
O debate, que já começa a ganhar espaço entre marcas, influenciadores e profissionais da comunicação, vai além da reputação. Ele se consolida como uma questão de saúde pública.
“O objetivo não é cercear o humor, mas promover uma consciência coletiva em que verdade e integridade emocional sejam ativos essenciais para a preservação da saúde mental em tempos de incerteza”, conclui a especialista.
Em um mundo onde a informação circula em alta velocidade, proteger a saúde mental passa também por desenvolver senso crítico, responsabilidade digital e, sobretudo, empatia. Afinal, por trás de cada tela, existem pessoas reais — com emoções reais.




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