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Brasil,02/04/2026

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    Entre séculos e silêncios: finalista do Prêmio Jabuti lança romance que conecta Inquisição e Ditadura em Minas

    Em “A Dança da Serpente”, Paulo Stucchi transforma história real em ficção potente sobre perseguição, espiritualidade e o destino de mulheres que desafiaram seu tempo


    Entre séculos e silêncios: finalista do Prêmio Jabuti lança romance que conecta Inquisição e Ditadura em Minas Divulgação

    A literatura tem o poder de atravessar épocas e revelar, sob novas lentes, as permanências da condição humana. É justamente esse o movimento que o escritor e jornalista Paulo Stucchi propõe em seu novo romance, A Dança da Serpente. Finalista do Prêmio Jabuti 2024 com O Homem da Patagônia, o autor retorna ao cenário literário com uma obra que entrelaça ficção e fatos históricos para iluminar temas urgentes — ainda que ancorados em séculos passados.

    Ambientado em Sabará, o livro constrói duas narrativas paralelas separadas por quase duzentos anos, mas unidas por um mesmo fio condutor: a perseguição a mulheres que carregam dons espirituais e de cura. De um lado, o Brasil colonial do século XVIII; de outro, o país mergulhado nas sombras da Ditadura Militar no Brasil.

    No passado, a trama acompanha a história real de Luzia Pinta, mulher escravizada trazida de Angola, que encontrou nos rituais de calundu — práticas de origem centro-africana — uma forma de cura e resistência. Sua trajetória, marcada pela conquista da alforria, ganha contornos trágicos ao ser interrompida pela repressão da Inquisição Portuguesa, que a condena e a deporta para Lisboa.

    Já na década de 1970, o leitor é apresentado às irmãs gêmeas Cléo e Clarice. Ligadas desde a infância por uma conexão espiritual intensa, elas trilham caminhos opostos após uma tragédia. Enquanto Cléo tenta negar o legado familiar, Clarice assume seu papel como a “Sacerdotisa de Sabará”, reunindo seguidores e despertando o temor de uma sociedade marcada pelo autoritarismo e pela vigilância.

    O reencontro entre as duas, anos depois, funciona como catalisador de memórias, traumas e revelações — uma espécie de espelho entre passado e presente. Ao cruzar essas histórias, Stucchi constrói uma narrativa densa e sensorial, em que o medo do desconhecido se revela como ferramenta recorrente de controle social.

    Mais do que um romance histórico, A Dança da Serpente se insere em uma tradição literária que revisita o passado para compreender o presente. Ao dar voz a mulheres silenciadas pela história, o autor evidencia como estruturas patriarcais persistem ao longo do tempo, seja sob o disfarce da fé, da política ou da moral.

    A força da obra está também em sua linguagem: crua, imagética e profundamente envolvente. Em trechos como o ritual conduzido por Clarice — marcado por tambores, serpentes e transe —, o leitor é conduzido a uma experiência quase sensorial, em que o sagrado e o medo caminham lado a lado.

    Com sólida trajetória no jornalismo e na literatura, Paulo Stucchi demonstra maturidade narrativa ao equilibrar rigor histórico e liberdade ficcional. Seu reconhecimento recorrente no Prêmio Jabuti reforça não apenas a qualidade de sua escrita, mas também sua capacidade de dialogar com temas contemporâneos a partir de contextos históricos.

    Em tempos em que debates sobre misoginia, intolerância religiosa e violência de gênero seguem urgentes, A Dança da Serpente surge como uma obra necessária — daquelas que não apenas contam uma história, mas ecoam perguntas que atravessam gerações.




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