Jeanine Geraldo lança “Retratos de Mulher”
Livro de Jeanine Geraldo une literatura e crítica social em narrativas sobre o feminino
O que significa ser mulher em um mundo marcado por
violências cotidianas, silenciamentos e experiências invisibilizadas? É a
partir dessa inquietação que a escritora e professora Jeanine Geraldo constrói
seu mais novo livro, Retratos de Mulher, uma coletânea de 19 contos
inéditos que mergulham nas múltiplas camadas da experiência feminina.
Publicado pela editora Urutau, o livro reúne narrativas
que transitam entre o horror, o psicológico e o realismo, mostrando que o
verdadeiro terror não está no sobrenatural, mas sim, na própria realidade.
Entre o horror e o cotidiano
A capa de Retratos de Mulher não
apenas remete visualmente ao universo de Tarsila do Amaral, mas estabelece um
verdadeiro diálogo simbólico com sua obra. Assim como nas pinturas da artista
modernista, em que o corpo feminino é reinterpretado por meio de formas
distorcidas, cores expressivas e certa estranheza poética, o livro de Jeanine
Geraldo também propõe uma releitura do feminino, não idealizado, mas
atravessado por tensões, silêncios e rupturas. Se Tarsila reinventou a figura
da mulher dentro de um projeto estético e cultural brasileiro, Jeanine a
reconstrói pela palavra, revelando camadas invisíveis de dor, resistência e
subjetividade.
Nesse encontro entre imagem e literatura, ambas parecem ecoar a mesma
inquietação: a necessidade de olhar para o feminino para além do que é
confortável, trazendo à tona aquilo que por muito tempo permaneceu oculto.
Logo no conto de abertura, “A enforcada”, o leitor é
conduzido por uma narrativa aparentemente simples: uma menina visita o local de
trabalho do pai e se depara com histórias assustadoras.
No entanto, o que se revela vai muito além do suspense;
trata-se de uma abordagem sensível e impactante sobre abuso infantil, narrada
sob a perspectiva da inocência. A autora explica que suas histórias nascem
da própria vivência e da observação social:
“Mesmo quando não são autobiográficas, as narrativas
partem da minha forma de experienciar o mundo.”
Essa conexão com o real atravessa toda a obra. Em
“Lençóis Manchados de Vinho”, por exemplo, Jeanine aborda a maternidade sob um
viés pouco romantizado, explorando a perda de identidade e os conflitos
internos de uma mulher diante da gestação.
Ao longo do livro, a autora percorre temas como; medo, morte,
sexualidade, infância e memória, criando histórias que dialogam com o íntimo do
leitor.Em contos como “Quem tem medo do escuro?”, há também uma dimensão
metalinguística, que convida à reflexão sobre o próprio fazer literário. A proposta, segundo Jeanine, vai além da narrativa:
“Acredito que o verdadeiro objeto da arte seja a emoção
que se acende no peito do leitor.”
O conto que dá nome ao livro encerra a obra com uma
inversão provocadora: a mulher aparece não apenas como vítima de uma sociedade
opressora, mas também como alguém que reproduz violências. Essa dualidade
reforça a complexidade da obra, que se debruça sobre aquilo que a autora chama
de “o irreal mais real que existe”, as dores silenciosas, os traumas invisíveis
e as marcas internas que acompanham muitas mulheres ao longo da vida.
A obra de Jeanine já vem sendo destacada por críticos e escritores. Para o
editor Luiz Antônio Ribeiro, a autora se insere no chamado movimento
contemporâneo de literatura feminina latino-americana voltada ao horror e ao
insólito, ao lado de nomes como Samanta Schweblin e Mariana Enriquez.
Já a escritora Giovana Madalosso destaca a força
imagética da escrita:
“Jeanine sabe criar imagens bonitas e fortes, dessas
que seguem ecoando na memória do leitor.”
Literatura que dialoga com o presente
O lançamento de Retratos de Mulher também
ganha ainda mais relevância quando colocado em diálogo com os recentes
acontecimentos sociais que têm exposto, de forma cada vez mais evidente, as
múltiplas violências enfrentadas por mulheres no Brasil e no mundo.
Casos de feminicídio, violência doméstica, abuso
infantil e silenciamento de vítimas têm ocupado espaço recorrente no debate
público, evidenciando uma realidade que, embora amplamente denunciada, ainda
persiste de maneira estrutural. Nesse contexto, a obra de Jeanine Geraldo não
surge apenas como expressão artística, mas como um espelho inquietante do tempo
presente.
Ao explorar narrativas em que o horror não está no
sobrenatural, mas nas relações humanas e nas estruturas sociais, a autora se
aproxima de uma literatura que denuncia, provoca e convida à reflexão. Seus
contos revelam aquilo que muitas vezes permanece invisível: violências sutis,
traumas internalizados e experiências que atravessam gerações.
Mais do que acompanhar o debate contemporâneo, Retratos
de Mulher se insere nele, ampliando-o. A literatura, nesse caso, não
apenas representa a realidade, mas tensiona seus limites, abrindo espaço para
que o leitor encare o desconforto e reconheça as marcas de uma sociedade ainda
profundamente desigual.
Sobre a autora
Jeanine Geraldo é professora no Instituto Federal do
Partaná e pesquisadora na área de Literatura, com ênfase em crítica literária.
Pós- doutoranda em Letras pela UFPR, concilia a vida acadêmica com a escrita e
os treinos de jiu-jitsu.
É autora de O animal que me tornei (2018),
As folhas vermelhas do outono (2020), Alcateia (2022)
e agora Retratos de Mulher (2025), obra que conquistou o 2º
lugar no I Prêmio Escritoras Brasileiras na categoria narrativas curtas.
Além das páginas de seus livros, Jeanine Geraldo também
transforma as redes sociais em um espaço de continuidade literária. Em seu
perfil, a autora compartilha fragmentos de pensamento, reflexões sobre o
processo criativo e pequenas cenas do cotidiano que dialogam diretamente com os
temas presentes em sua obra.
Longe de uma lógica puramente promocional, sua presença
digital revela uma escrita em movimento; íntima, por vezes melancólica, e
profundamente conectada às experiências subjetivas que atravessam o feminino.
Essa construção reforça uma característica marcante de
sua trajetória: a fusão entre produção acadêmica e criação literária
A atmosfera construída tanto em seus livros quanto em
sua presença digital aponta para uma estética do incômodo, onde o horror não se
manifesta no extraordinário, mas naquilo que é cotidiano, silencioso e muitas
vezes invisível.
Nas redes, Jeanine não apenas divulga sua obra, ela
amplia seu universo literário, transformando o cotidiano em matéria narrativa e
convidando o leitor a habitar, ainda que brevemente, suas inquietações.
Conheça o livro Retratos de Mulher em:
https://editoraurutau.com/titulo/retratos-de-mulher
Livro: Retratos de
Mulher
Autora: Jeanine
Geraldo (@jeanine.geraldo)




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