Glória Barcelos
A Criança que Nunca Cresceu: a força invisível que governa sua vida
A Criança que nunca cresceu
Relacionamento de casal e a sombra criança ferida Escolhiabordar este tema por acreditar que todo adulto, em alguma medida, experimentounegligências na infância. Somos seres em constante construção e, muitas vezes, buscamosproteção motivados por uma criança interna ferida ou frustrada. Paradoxalmente,é essa mesma criança que também nos impulsiona a conquistar o mundo, a buscarsentido mais profundo para a vida e a fazer brilhar a luz que habita em cada umde nós. Quando essa criança é ferida, torna-se essencial cuidar dela.
Nossos pais, avós e toda a nossa ancestralidade, em grande parte, foramformados sob uma educação autoritária, sem preparo emocional para atender àsnecessidades mais sutis de uma criança como: afeto, acolhimento, brincadeira eliberdade de expressão. Ao chegarmos à vida adulta, levamos para osrelacionamentos afetivos as marcas dessas experiências frustradas, além demedos, perdas e dores diversas.
Não raramente, duas pessoas emocionalmentefragilizadas se unem na tentativa de construir uma família. Contudo, sem osrecursos internos necessários, enfrentam dificuldades para sustentar umarelação equilibrada. Assim, o que antes era um sonho pode se transformar em umvínculo marcado por conflitos, dependência emocional ou até relações abusivas.Em muitos casos, um dos parceiros suporta a situação por longos períodos, atéque o desgaste se torne insustentável.
Quandoum casal está envolvido em um emaranhado emocional profundo, os desafiosparecem se suceder sem pausa. Nesse cenário, buscar ajuda torna-seindispensável, pois uma pessoa emocionalmente adoecida dificilmente consegue sereorganizar sozinha. A dor não elaborada conduz a acusações, distanciamento eao predomínio do egoísmo, que obscurece o amor, razão primeira da união entreduas pessoas.
No contexto familiar, o filho necessita do amor dos pais paradesenvolver-se de forma saudável e seguir a vida com mais segurança e paz. Esseamor funciona como fonte vital para o ser humano cumprir sua missão, encontrarpropósito e viver com plenitude. O princípio de honrar pai e mãe, presente emdiversas tradições, aponta para a importância do reconhecimento e da aceitaçãodas nossas origens como caminho de fortalecimento interior. Quando essa conexãoé rejeitada ou negada, podem surgir impactos significativos na saúde emocionale nos relacionamentos futuros.
Cada indivíduo interpreta sua história de maneira única. A forma comovivenciamos a infância não depende apenas dos fatos, mas também da maneira comoos internalizamos. Posso compartilhar, como exemplo, a minha própriatrajetória. Durante muito tempo, ignorei sinais da minha criança interior, atéque lembranças e emoções reprimidas começaram a emergir num período em que euenfrentava a dor de uma perda importante. O luto foi um ativador levando-me aum processo de transformação. Iniciei um caminho de reconexão comigo mesma.Percebi que havia escondido minhas dores atrás de uma rotina intensa detrabalho. Embora não me identificasse claramente com as cinco feridasemocionais mais conhecidas abandono, rejeição, humilhação, traição e injustiça,compreendi que minha história também carregava marcas importantes.Trabalheidesde muito cedo para ajudar minha família, o que me impediu de viverplenamente a infância. Essa realidade, comum em muitos contextos, trouxeaprendizados valiosos, como responsabilidade e proatividade. No entanto, tambémcontribuiu para o desenvolvimento de traços como rigidez, autocobrançaexcessiva e necessidade de controle. Foi através de uma sessão de constelaçãoque identifiquei a raiz das minhas angústias mais profundas. As experiências dainfância ficam registradas em nosso subconsciente e influenciam profundamentenossas escolhas e comportamentos na vida adulta.
Outro exemplo significativo é o de “Sara” (nome fictício). Ela perdeu opai biológico aos dois meses de vida e foi criada por um padrasto afetuoso, queassumiu plenamente a função paterna. Cresceu aparentemente equilibrada, semperceber a ausência do pai biológico. No entanto, ao iniciar seusrelacionamentos amorosos na juventude, enfrentou sucessivas frustrações.
Ao olhar mais profundamente parasua história, emergiu a marca do abandono precoce. Mesmo tendo recebido amor dopadrasto, o vínculo com o pai biológico permanecia, de forma inconsciente, comouma lacuna não reconhecida. Ao tomar consciência dessa ausência e integrar essarealidade com aceitação, sua vida começou a fluir com mais leveza. Elacompreendeu que buscava, nos parceiros, uma figura paterna, algo que nenhumrelacionamento amoroso poderia suprir.
Esse entendimento revela um ponto essencial: não somos nossas feridas.Embora sejamos influenciados por elas, temos a capacidade de ressignificarnossas experiências. A neurociência já demonstrou que o cérebro possuiplasticidade, ou seja, é capaz de se reorganizar e criar novos padrões ao longoda vida.
Isso significa que é possível reprogramar crenças, curar emoções econstruir uma trajetória mais consciente e equilibrada. Cuidar da criançainterior não é apenas revisitar o passado, mas abrir espaço para um presentemais leve e um futuro mais pleno.
Afinal, estamos aqui para evoluir, amar e viver com mais consciência.



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