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Brasil,03/09/2026

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    Espaço Odete

    Uma história de família servida à mesa.


    Espaço Odete Foto Delphotoart

    Algumas histórias de família permanecem vivas não apenas pelas fotografias, pelos relatos ou pelas lembranças compartilhadas ao longo dos anos, mas também pelos sabores que atravessam gerações. No caso do Espaço Odete, essa memória encontra na gastronomia uma de suas formas mais genuínas de existir. O restaurante nasceu inspirado na trajetória de uma mulher que transformou a cozinha em espaço de afeto, tradição e convivência e que, mesmo depois de partir, continua presente nas receitas, nos costumes e nas histórias que a família faz questão de preservar.

    Odete nasceu em Moeda Velha em 31/12/1948 e levou consigo, para Belo Horizonte, as referências de uma vida vivida na roça. Foi nesse ambiente que desenvolveu sua relação com a cozinha, preparando no fogão a lenha os pães, bolos, biscoitos e tantas outras receitas que acabariam se tornando parte da memória afetiva de seus familiares. Mais do que cozinhar, ela tinha o hábito de reunir, cuidar, benzer e contar histórias, fazendo da convivência cotidiana uma parte importante da formação da família.

    As lembranças desse período permanecem especialmente ligadas à maneira como Odete preparava a comida. Seus familiares recordam uma cozinha marcada pelo sabor da roça, pelos temperos intensos e por ingredientes que remetiam diretamente às suas origens. A rapadura fazia parte desse universo, assim como o gosto por uma boa cachacinha, mas talvez o mais importante tenha sido a maneira como ela conseguiu preservar uma cultura alimentar que poderia ter se perdido com o passar das gerações.

    Essa preocupação com a tradição aparece hoje na cozinha do Espaço Odete. Algumas receitas foram modernizadas para acompanhar a proposta do restaurante, mas determinados elementos continuam sendo fundamentais para que o sabor mantenha sua ligação com a história da família. O alho, presente em boa quantidade, e o toque de cominho são exemplos de características que permanecem na preparação dos pratos e ajudam a preservar aquilo que os familiares reconhecem como o verdadeiro tempero de Odete.

    Entre todas as receitas que carregam essa memória, o bolinho de chuva ocupa um lugar especial. Era uma preparação que aparecia principalmente nos dias mais frios, quando Odete fazia os bolinhos para a família e os acompanhava com chá-mate. A receita se tornou tão querida que hoje está sendo incorporada ao café colonial do Espaço Odete, permitindo que uma lembrança essencialmente familiar passe a fazer parte também da experiência de quem visita o restaurante.

    A ligação entre essa memória e o presente do Espaço Odete passa por Clara Luz, bisneta de Odete. Durante a infância, Clara e sua mãe moraram com a matriarca, o que fez com que ela crescesse acompanhando de perto os preparos e os sabores que mais tarde ajudariam a definir sua própria relação com a gastronomia. Mesmo depois de deixar de morar com a bisavó, a convivência continuou, especialmente nos finais de semana, quando os encontros também eram momentos para cozinhar e manter vivo aquele vínculo.

    Foi justamente essa relação com a cozinha que, anos mais tarde, ajudou a transformar uma história familiar em um projeto profissional. Clara decidiu trancar a faculdade de Engenharia para se dedicar à gastronomia. Seu pai, diante da mudança de planos e tendo um terreno disponível, percebeu a possibilidade de unir o novo caminho escolhido pela filha a uma necessidade que também existia na cidade. Dessa união de circunstâncias nasceu a ideia do Espaço Odete, que passou a representar não apenas uma oportunidade de negócio, mas uma maneira de transformar o legado familiar em uma experiência gastronômica.

    A família está presente também na equipe que conduz o espaço. Clara Luz e Maria Beatriz, bisnetas de Odete, fazem parte do projeto, assim como Glenda dos Santos, uma de suas netas, e Patrick Luz, marido de Glenda. Essa participação familiar reforça uma característica essencial do restaurante: a história de Odete não está apenas no nome colocado na fachada ou nas receitas escolhidas para o cardápio, mas nas próprias pessoas que ajudam a construir diariamente a experiência oferecida aos visitantes.

    A proposta gastronômica parte de uma referência afetiva bastante conhecida, a comida caseira, mas procura apresentá-la de uma maneira própria. O objetivo não é simplesmente reproduzir aquilo que poderia ser encontrado em qualquer cozinha de família, e sim desenvolver receitas que mantenham essa sensação de comida afetiva ao mesmo tempo em que apresentam características que tornam a experiência particular do Espaço Odete. A fraldinha é um dos exemplos dessa identidade, reunindo a familiaridade de uma preparação caseira com uma receita própria da casa.

    No cardápio, outros pratos estabelecem uma relação ainda mais direta com a história familiar. O tropeiro, preparado muitas vezes por Odete, aparece como uma das opções que melhor representam essa ligação entre passado e presente. Já o mousse de Romeu e Julieta leva para a sobremesa uma combinação que também conversa com a identidade mineira, valorizando o encontro entre o queijo de Minas e a goiabada.

    É justamente nessa combinação entre tradição e renovação que o Espaço Odete encontra sua identidade. A família não pretende congelar a cozinha de Odete no tempo, mas preservar aquilo que considera essencial em sua maneira de cozinhar. Algumas receitas podem receber novas apresentações e adaptações, mas o sabor, os temperos e, principalmente, a intenção por trás da comida precisam continuar presentes.

    Para a família, cozinhar com memória significa levar a presença de Odete para cada prato e para cada atendimento. É uma forma de fazer com que sua bisneta, sua neta e os demais familiares continuem contando a história daquela mulher não apenas por meio das palavras, mas também por meio daquilo que chega à mesa. A comida passa, então, a funcionar como uma linguagem capaz de aproximar pessoas que sequer conheceram Odete de uma história que pertence originalmente à família.

    E talvez seja essa a maior força do projeto. Ao transformar lembranças particulares em uma experiência aberta ao público, o Espaço Odete permite que outras pessoas também façam parte, ainda que por algumas horas, de uma história construída dentro de uma família. Cada receita carrega uma referência, cada preparo recupera um costume e cada atendimento procura reproduzir um pouco da hospitalidade que marcou a convivência com Odete.

    Quando a família imagina como seria recebê-la hoje no restaurante, a resposta é quase unânime: Odete ficaria orgulhosa. Mais do que isso, provavelmente gostaria de permanecer por ali, acompanhando os preparos e, como sempre fez, colocando a mão na cozinha para ajudar. É justamente essa imagem que melhor traduz a dimensão de sua presença no Espaço Odete, porque ela não é lembrada como uma personagem distante de uma história passada, mas como alguém cuja maneira de viver ainda influencia aquilo que a família faz no presente.

    O Espaço Odete é, portanto, resultado de uma escolha consciente de transformar memória em continuidade. Ao preservar receitas, temperos, costumes e histórias, a família encontra na gastronomia uma maneira de manter viva uma mulher que marcou diferentes gerações. E, ao abrir essa história para o público, faz com que aquilo que nasceu dentro de uma cozinha familiar possa alcançar novas mesas.

    No fim, talvez seja exatamente isso que significa cozinhar com memória: permitir que alguém continue presente mesmo quando já não pode estar fisicamente à mesa. Odete permanece no sabor do bolinho de chuva servido nos dias frios, no tropeiro que remete às antigas receitas, no alho e no cominho que não podem faltar e, sobretudo, na forma como sua família escolheu transformar lembrança em legado.

    No Espaço Odete, cada refeição carrega um pouco dessa história. E é assim, entre panelas, receitas, encontros e lembranças, que uma mulher nascida em Moeda Velha continua encontrando lugar à mesa, geração após geração.

    Belo Vale: entre águas, trilhas e memórias que atravessam o tempo

    foto: Eduardo Viero/Divulgação

    Há lugares que a gente visita e há lugares que nos atravessam, e Belo Vale, em Minas Gerais, tem justamente essa capacidade de reunir em um mesmo território a força da natureza, a aventura e uma história que ainda ecoa entre suas paisagens, convidando quem chega a desacelerar, explorar e olhar para o município para além do caminho de passagem

    Entre os seus atrativos está a Cachoeira do Moinho, na região de Costas, um daqueles lugares em que a água, o verde e o ambiente rural criam o cenário perfeito para quem deseja se afastar por algumas horas da pressa cotidiana, seja para aproveitar a cachoeira e as piscinas naturais, seja para caminhar pelas áreas de natureza e simplesmente deixar o corpo acompanhar o ritmo mais tranquilo que o lugar oferece

    Para quem prefere colocar os pés no caminho, as trilhas de Belo Vale revelam outra maneira de conhecer a região, atravessando paisagens rurais, áreas verdes e diferentes cenários naturais que fazem da caminhada não apenas uma atividade física, mas uma oportunidade de perceber os detalhes que muitas vezes passam despercebidos quando estamos apenas de passagem, e é justamente nessa relação mais próxima com a paisagem que o município revela uma de suas características mais marcantes

    E se as trilhas a pé convidam a contemplar, as trilhas de moto acrescentam ao território uma dose diferente de aventura, levando os amantes do off-road por estradas de terra, caminhos rurais e terrenos que desafiam habilidade e disposição, transformando o próprio percurso em parte da experiência e mostrando que Belo Vale também pode ser descoberto sobre duas rodas

    Mas existe uma outra dimensão do município que não pode ficar de fora desse caminho, porque conhecer Belo Vale também significa entrar em contato com uma história que não deve ser esquecida, e é no Museu do Escravo que essa memória ganha espaço e nos convida a compreender um dos períodos mais violentos da formação do Brasil

    Com um acervo de milhares de peças relacionadas ao período da escravidão, o museu apresenta objetos, ambientes e elementos que ajudam a compreender as condições de vida e as relações sociais daquele período, fazendo da visita uma experiência de reflexão sobre uma história que pertence ao passado, mas cujas marcas continuam presentes na construção da sociedade brasileira

    É essa combinação que torna Belo Vale um destino tão particular, porque entre uma queda d’água, uma estrada de terra, uma caminhada pela natureza e um espaço dedicado à memória existe uma cidade capaz de oferecer experiências muito diferentes sem perder sua identidade, permitindo que cada visitante construa o próprio percurso e encontre, em meio às montanhas e ao cotidiano mineiro, uma razão para permanecer um pouco mais

    Belo Vale não precisa ser apenas um lugar para onde se vai, pode ser um lugar pelo qual se passa com atenção, onde a natureza desperta os sentidos, a aventura movimenta o corpo e a história nos lembra que conhecer um território também é compreender as histórias que ajudaram a construí-lo




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