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Brasil,10/06/2026

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    Algoritmos ampliam discriminação contra população LGBTQIAPN+ nas redes sociais

    Conteúdos relacionados à diversidade sexual e de gênero são removidos das plataformas digitais sob justificativas genéricas de “violação de diretrizes”


    Algoritmos ampliam discriminação contra população LGBTQIAPN+ nas redes sociais Gerada por IA

    A promessa de neutralidade tecnológica vem sendo cada vez mais questionada por pesquisadores, ativistas e especialistas em direitos digitais. Em vez de operarem de forma imparcial, algoritmos e sistemas de inteligência artificial têm reproduzido desigualdades históricas, influenciando quem ganha visibilidade, quais discursos circulam e quais grupos acabam silenciados nas plataformas digitais. Esse é o ponto de partida do livro Violência algorítmica e vidas LGBTQIAPN+: ensaios sobre tecnologia, poder e resistência na era digital, das pesquisadoras Bruna Irineu e Larissa Pelúcio.

    Publicada pela Associação Brasileira de Estudos da Trans-Homocultura (ABETH), a obra analisa como plataformas digitais, mecanismos de recomendação e modelos de inteligência artificial podem reforçar preconceitos estruturais contra pessoas LGBTQIAPN+, especialmente em ambientes controlados por grandes empresas de tecnologia. As autoras argumentam que os sistemas automatizados aprendem a partir de bases de dados historicamente marcadas por discriminação racial, de gênero e sexualidade, reproduzindo esses padrões em escala global.

    Discussões sobre os impactos sociais da tecnologia e da inteligência artificial também aparecem em conteúdos recentes da Revista Salto, como a reportagem sobre o avanço da inteligência artificial e sua influência no cotidiano digital.

    Crescimento da inteligência artificial amplia preocupações

    O debate ocorre em um momento de expansão acelerada da inteligência artificial. Segundo relatório da consultoria McKinsey, mais de 55% das empresas no mundo já utilizam algum tipo de IA em suas operações. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação sobre os impactos sociais dessas ferramentas. Um estudo publicado pela organização internacional GLAAD, em parceria com a UltraViolet, revelou que 66% dos usuários LGBTQ+ afirmam ter sofrido algum tipo de assédio online nas redes sociais. Entre pessoas trans e não binárias, o índice ultrapassa 80%.

    Casos de discriminação algorítmica já foram identificados em diferentes plataformas. Sistemas automáticos de moderação frequentemente removem conteúdos relacionados à diversidade sexual e de gênero sob justificativas genéricas de “violação de diretrizes”, enquanto discursos de ódio permanecem ativos por mais tempo. Em 2021, denúncias envolvendo o TikTok mostraram que usuários LGBTQ+ tiveram conteúdos limitados ou reduzidos no alcance por mecanismos automáticos de recomendação. Situações semelhantes já foram relatadas no Instagram, Facebook e YouTube.

    A transformação das redes sociais e o impacto das plataformas digitais sobre comportamento e comunicação também são discutidos em reportagem da Revista Salto sobre as mudanças na experiência online e nas redes sociais.

    Big techs e os mecanismos de exclusão

    Para as autoras Bruna Irineu e Larissa Pelúcio, o problema não está apenas no código, mas na estrutura econômica das chamadas big techs. As autoras explicam que plataformas digitais operam a partir da lógica da coleta massiva de dados e da maximização do engajamento. Nesse cenário, conteúdos que geram conflito, polarização e reações emocionais tendem a receber maior impulsionamento algorítmico.

    Ao longo do livro, conceitos ligados à crítica tecnopolítica são apresentados em linguagem acessível, aproximando leitores que não possuem formação técnica do funcionamento das plataformas digitais. As pesquisadoras detalham desde a economia de dados até os mecanismos de classificação utilizados por sistemas automatizados para definir relevância, alcance e visibilidade de conteúdos.

    Brasil hiperconectado e disputa por visibilidade

    A discussão ganha relevância especialmente no Brasil, um dos países com maior uso de redes sociais no mundo. Dados da plataforma DataReportal indicam que brasileiros passam, em média, mais de 9 horas por dia conectados à internet. O país também figura entre os líderes globais em consumo de redes sociais, tornando o ambiente digital um espaço central de disputa política, cultural e social.

    Apesar do diagnóstico crítico, o livro também aponta caminhos de enfrentamento. Um dos principais eixos da obra é a compreensão da internet como território político, onde direitos, identidades e formas de existência estão em disputa permanente. As autoras destacam iniciativas que buscam democratizar o uso da tecnologia e criar alternativas mais inclusivas no ambiente digital.

    Resistência digital e novas formas de inclusão

    Entre os exemplos apresentados está o TecnoCuir, iniciativa hacker transfeminista voltada à produção de práticas de resistência tecnológica. O projeto reúne ações de formação, segurança digital e reapropriação crítica das ferramentas online por grupos historicamente marginalizados. Segundo as pesquisadoras, movimentos desse tipo demonstram que a tecnologia também pode ser utilizada como instrumento de emancipação social.

    Especialistas em direitos digitais defendem ainda maior transparência das plataformas sobre os critérios utilizados pelos algoritmos. Organizações internacionais têm pressionado empresas de tecnologia a divulgar informações sobre moderação de conteúdo, impulsionamento de publicações e funcionamento de sistemas automatizados. Na União Europeia, por exemplo, a nova Lei de Serviços Digitais passou a exigir mecanismos mais rigorosos de responsabilização das big techs.

    Ao conectar tecnologia, poder e desigualdade, Violência algorítmica e vidas LGBTQIAPN+ amplia um debate que vem ganhando espaço em universidades, movimentos sociais e organismos internacionais. Mais do que discutir falhas técnicas, a obra propõe uma reflexão sobre quem controla os sistemas digitais que organizam a vida contemporânea — e quais grupos continuam invisibilizados nesse processo.





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