Seja bem-vindo
Brasil,10/05/2026

    • A +
    • A -

    Sobrecarga invisível: quando o cuidado deixa de ser escolha e vira obrigação


    Sobrecarga invisível: quando o cuidado deixa de ser escolha e vira obrigação Gerada por IA


    Enquanto o mês das mães celebra afeto, dedicação e presença, também abre espaço para uma conversa necessária: o peso silencioso que muitas mulheres carregam dentro de casa. Entre filhos, trabalho, tarefas domésticas e a tentativa constante de dar conta de tudo, cresce o alerta para os impactos emocionais da sobrecarga feminina.

    No Brasil, a desigualdade na divisão das responsabilidades domésticas ainda é uma realidade. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua de 2022, do IBGE, mostram que as mulheres dedicam, em média, quase dez horas a mais por semana do que os homens aos cuidados com a casa e com outras pessoas.

    Para Luciane da Luz, essa diferença não nasce de uma habilidade natural feminina, mas de uma construção cultural fortalecida ao longo dos séculos. Segundo a especialista da UNIASSELVI, é preciso transformar a forma como meninos e meninas são educados desde a infância.

    “É preciso desconstruir a ideia de que o cuidado é uma característica natural das mulheres e promover uma educação mais igualitária desde cedo”, afirma. Sob a ótica da antropologia e dos estudos de gênero, Luciane explica que a associação entre maternidade, cuidado e obrigação doméstica foi historicamente construída pela sociedade — e não determinada biologicamente.

    Essa cobrança constante cria uma imagem idealizada da maternidade, onde a mãe precisa estar sempre disponível, forte e preparada. Um modelo que, na prática, se torna impossível de sustentar sem consequências emocionais. “Muitas mulheres sentem que precisam dar conta de tudo sozinhas e acabam enxergando o pedido de ajuda como fraqueza, quando, na verdade, apoio é algo essencial”, ressalta.

    A consequência aparece no corpo e na mente. Ansiedade, estresse, esgotamento físico e sensação permanente de culpa fazem parte da rotina de inúmeras mães que tentam equilibrar carreira, filhos e vida pessoal. Mesmo com a crescente presença feminina no mercado de trabalho, a divisão das tarefas domésticas ainda não acompanhou essa mudança.

    Luciane destaca que a chamada “jornada dupla” impacta não apenas a saúde mental, mas também a trajetória profissional das mulheres. Muitas acabam interrompendo sonhos, reduzindo oportunidades ou deixando o mercado de trabalho por não conseguirem sustentar tantas demandas simultaneamente.

    Uma das reflexões mais sensíveis levantadas pela professora traduz exatamente essa desigualdade invisível: “Em alguns momentos, nós, mulheres, nos perguntamos como seria nossa trajetória profissional se tivéssemos uma ‘mulher’ em nossas vidas, assim como muitos homens têm alguém que assume grande parte das demandas da casa para que eles possam focar apenas na carreira.”

    Diante desse cenário, redes de apoio tornam-se fundamentais. Familiares, amigos, vizinhos, grupos de mães e comunidades digitais ajudam a compartilhar responsabilidades e oferecem acolhimento emocional. Para a especialista, esses espaços representam não apenas ajuda prática, mas também um respiro necessário para mulheres que vivem em constante exaustão.

    Ela observa ainda que algumas empresas começam a reconhecer o cuidado como responsabilidade coletiva, adotando políticas mais flexíveis, auxílio-creche e programas de parentalidade. Apesar dos avanços, Luciane reforça que mudanças profundas dependem também de políticas públicas e de uma transformação social mais ampla.

    “O cuidado com as crianças não deve ser responsabilidade exclusiva das mães. A sociedade inteira precisa compreender seu papel nesse processo”, conclui.






    COMENTÁRIOS

    Buscar

    Alterar Local

    Anuncie Aqui

    Escolha abaixo onde deseja anunciar.

    Efetue o Login

    Recuperar Senha

    Baixe o Nosso Aplicativo!

    Tenha todas as novidades na palma da sua mão.