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Brasil,07/06/2026

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    Aline Costa

    Entre Versões

    Porque crescer é aprender a se reconstruir continuamente.

    Arquivo Pessoal.
    Entre Versões Aline Costa, presidente fundadora da Revista Salto e escritora da coluna Entre Versões.

    Eu nunca consegui enxergar as pessoas da forma tradicional. Talvez porque, quando olho nos olhos de alguém, eu raramente vejo apenas suas atitudes. Eu procuro enxergar a história por trás delas. Procuro enxergar as dores, as experiências, os medos, as feridas, os aprendizados e os caminhos que moldaram aquela pessoa até o momento presente.

    Ao longo da vida, percebi que muitos dos comportamentos humanos que julgamos, criticamos ou até condenamos não surgem do acaso. O ego, a insegurança, a agressividade, a necessidade de aprovação, a dificuldade de amar, de confiar ou de prosperar costumam ser construções profundas, erguidas sobre experiências que muitas vezes começaram ainda na infância.

    Imagem gerada por IA.

    Muitas pessoas vivem em constante estado de sobrevivência, reagem antes de refletir, atacam antes de compreender e desistem antes de tentar. Não porque desejam viver assim, mas porque foram moldadas por rejeições, abandonos, perdas, traumas e dores que influenciaram a forma como enxergam a si mesmas e o mundo.

    Talvez por isso eu tenha aprendido a não levar tudo para o lado pessoal. Com o tempo, entendi que o comportamento das pessoas fala muito mais sobre elas do que sobre mim. Isso não significa aceitar tudo. Significa compreender sem absorver. Observar sem odiar. Estabelecer limites sem perder a humanidade.

    Vivemos em uma época que fala muito sobre dores, injustiças e dificuldades, mas pouco sobre responsabilidade emocional, maturidade, construção de caráter e desenvolvimento da consciência. Somos incentivados a identificar problemas, mas raramente aprendemos a desenvolver as ferramentas necessárias para enfrentá-los.

    Também percebi que existe uma grande ilusão sobre a felicidade. Fomos levados a acreditar que felicidade é um estado permanente, quase uma obrigação, como se uma vida bem-sucedida fosse uma vida livre de conflitos, tristezas ou dificuldades. Mas a vida me mostrou algo diferente.

    A felicidade mora nos pequenos instantes. Ela está no vento tocando o rosto em um dia tranquilo, no abraço de alguém que amamos, no sorriso inesperado, no banho quente depois de um dia cansativo, na sensação de dever cumprido, na paz de saber que, apesar das dificuldades, seguimos caminhando. O curioso é que passamos anos ignorando esses momentos enquanto concentramos nossa atenção apenas naquilo que falta, naquilo que dói ou naquilo que ainda não conquistamos. E assim deixamos de perceber o quanto já evoluímos.

    A versão que somos hoje já superou desafios que a nossa versão de anos atrás sequer imaginava ser capaz de enfrentar. Foi essa percepção que me levou a criar este espaço. Não porque acredito ter respostas definitivas. Muito pelo contrário. Quanto mais aprendo, mais compreendo o quanto ainda existe para aprender. Esta coluna nasce da minha própria jornada de reconstrução. Nasce das crenças que precisei abandonar, dos medos que precisei enfrentar, dos erros que precisei reconhecer e das inúmeras vezes em que a vida me obrigou a reconstruir minha mentalidade, minha forma de enxergar o mundo e até minha própria identidade. Hoje entendo que viver é um processo constante de transformação. Não somos seres prontos, estamos sempre entre quem fomos e quem estamos nos tornando.

    Todos os dias aprendemos algo novo. Todos os dias somos confrontados por novas experiências. Todos os dias existe a oportunidade de evoluir, rever conceitos, amadurecer ideias e construir uma versão mais consciente de nós mesmos. Foi justamente dessa reflexão que nasceu o nome desta coluna: Entre Versões.

    Porque acredito que a vida não acontece quando chegamos a algum destino final. Ela acontece no caminho. Nas mudanças. Nos recomeços. Nas reconstruções silenciosas que acontecem dentro de nós enquanto seguimos vivendo. Este espaço não foi criado para ensinar verdades absolutas, e sim para compartilhar reflexões, experiências, aprendizados e questionamentos que fazem parte da minha própria evolução. Se, de alguma forma, essas reflexões ajudarem outras pessoas a compreender melhor suas próprias jornadas, então cada palavra escrita aqui já terá cumprido seu propósito.

    Sejam bem-vindos à Entre Versões.

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