De resíduo a energia: maionese vira biogás com apoio de inteligência artificial
Projeto inédito da Unilever Alimentos no Brasil reduz toneladas de emissões de CO2 contribuindo com o meio ambiente
Biodigestor na Unilever Alimentos em Pouso Alegre-MG-Unilever Alimentos Em abril de 2024, a Unilever Alimentos celebrou a
conquista de uma certificação internacional pelo comprometimento ambiental em
todos os níveis da cadeia: o selo LEED Platinum — em português, “Liderança em
Energia e Design Ambiental” —, reconhecido em mais de 160 países. Seguindo esse
caminho, a Unilever está dando um passo ousado rumo à sustentabilidade ao
transformar um de seus resíduos mais complexos em energia renovável. Na fábrica
de Pouso Alegre, em Minas Gerais, responsável por toda a produção da maionese
Hellmann’s no Brasil, a empresa implantou um biodigestor inovador que utiliza
inteligência artificial para converter resíduos de maionese em biogás. A
iniciativa marca um avanço inédito nas Américas ao empregar esse tipo de
material em operações industriais de grande escala.
Diferente dos combustíveis não renováveis, como o
petróleo — que demora milhares de anos para ser formado —, o biogás é um
combustível renovável, pois é obtido de forma rápida na natureza. Trata-se de
um gás inflamável utilizado em motores e na geração de energia elétrica. Ele é
produzido por meio da ação de bactérias fermentadoras de matéria orgânica, em
determinadas condições de temperatura, umidade e acidez (pH); por isso, a
implementação de biodigestores é necessária. A ideia de produzir biogás a partir
de resíduos de maionese é desafiadora. Isso porque, para ser um produto
estável, a maionese é rica em óleos e graxas, o que torna sua decomposição um
processo difícil. Vencer essa barreira exigiu precisão: controle rigoroso de
pH, equilíbrio biológico e, sobretudo, inovação. Segundo o responsável técnico
Rodrigo Cano, o grande salto foi criar um sistema capaz de “desestabilizar” o
produto de forma controlada, abrindo caminho para sua transformação.
É justamente na biotecnologia que o projeto se
diferencia, tendo sido desenvolvido em parceria com a Universidade Estadual de
Campinas. No centro da operação está a inteligência artificial chamada Cerebra,
que funciona como um “gêmeo digital” do biodigestor. Em tempo real, ela
acompanha variáveis críticas — como temperatura, pressão e composição dos gases
—, ajustando o processo e antecipando possíveis desvios. O resultado é uma
operação mais estável, eficiente e segura, elevando o desempenho da geração de biogás.
Os ganhos já são expressivos. A solução evita a
emissão de aproximadamente 400 toneladas de CO₂ por ano e ainda torna o
processo autossuficiente em energia térmica, utilizando o próprio biogás
gerado. Para Edmundo Mollo, diretor da unidade, trata-se de uma virada
estratégica: converter um resíduo complexo em uma fonte de energia limpa, com
impactos diretos tanto ambientais quanto operacionais.
Além do impacto ambiental, o projeto também se
mostra economicamente sólido, com retorno previsto em menos de cinco anos. Ele
integra uma jornada iniciada em 2012, que inclui etapas como o uso de biomassa
e a compostagem interna. A próxima fase, prevista para 2026, deve ampliar ainda
mais a autonomia energética da fábrica, reforçando sua eficiência e
competitividade. Como define Cano, trata-se de um “organismo vivo”, que exige
ajustes constantes e cuja estabilidade só se tornou possível graças ao equilíbrio
preciso entre conhecimento científico e inovação tecnológica.




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