Onde a cura encontra o caminho: crianças do SUS conectadas ao maior centro oncológico do mundo
Entre corredores de hospital e histórias de resistência, uma ponte invisível liga a periferia de São Paulo a Nova York e transforma o futuro de crianças com câncer
Parceria inédita na América Latina conecta Santa Marcelina e TUCCA ao Memorial Sloan Kettering Cancer Center, ampliando acesso a diagnóstico avançado e decisões terapêuticas de alta complexidade Crianças e adolescentes com câncer atendidos pelo
Sistema Único de Saúde (SUS) na periferia de São Paulo passam, a partir de
agora, a contar com o suporte de um dos maiores centros oncológicos do mundo. A
parceria entre o Santa Marcelina Saúde e a TUCCA (Associação para Crianças e
Adolescentes com Câncer) foi selecionada como a primeira da América Latina a
integrar o SNF Global Pediatric Cancer Program, iniciativa do Memorial Sloan
Kettering Cancer Center, nos Estados Unidos.
A presidente do Santa Marcelina Saúde, irmã Rosane
Ghedin, destaca o impacto da conquista:
“Ser reconhecido por um centro como o MSK mostra que é
possível entregar excelência internacional enquanto cuidamos, todos os dias, de
quem mais precisa.”
Na prática, a colaboração permite que casos complexos
sejam discutidos diretamente com especialistas internacionais, além de garantir
acesso a exames moleculares de alta precisão ainda indisponíveis no Brasil, um
avanço significativo para pacientes da rede pública.

A diretora-presidente, Rosane Ghedin, foi homenageada
com a Medalha de Honra e Mérito “Walter Leser”, concedida pelo Governo de São
Paulo, em reconhecimento aos serviços prestados ao SUS.
Segundo o oncologista pediátrico Sidnei Epelman, a
parceria tem impacto direto no tratamento:
“Em casos complexos, discutir o paciente com
especialistas do MSK pode mudar completamente a estratégia terapêutica. Não é
uma teleconsulta genérica, é uma troca científica de altíssimo nível.”
Um novo centro, muitas possibilidades
O caminho até o tratamento de um câncer infantil
raramente é simples. Ele passa por filas, incertezas, longas viagens e, muitas
vezes, pelo peso silencioso de um diagnóstico que chega tarde demais. Na Zona
Leste de São Paulo, porém, esse percurso começa a ganhar um novo significado.
Ali, onde famílias atravessam a cidade em busca de
cuidado, nasce agora uma conexão improvável: crianças atendidas pelo SUS passam
a ter seus casos discutidos com especialistas do Memorial Sloan Kettering
Cancer Center, referência mundial em oncologia.
Mais do que uma parceria institucional, trata-se de uma
travessia, da vulnerabilidade à excelência.
Há quase três décadas, a TUCCA constrói, na prática, um
modelo de cuidado que vai além da medicina. Em suas redes sociais, a
organização se define de forma direta: “100% pela cura do câncer
infantojuvenil”. Mais do que um slogan, é um posicionamento que se traduz em
cada etapa do atendimento.
O tratamento não é apenas técnico, é integral,
gratuito e profundamente humano, envolvendo equipes multidisciplinares e apoio
contínuo às famílias.
Essa filosofia ganha agora uma nova dimensão com a
integração ao programa global do MSK, tornando o Santa Marcelina Saúde | TUCCA
o primeiro centro da América Latina a participar da iniciativa.
Quando o mundo cabe dentro de uma decisão
clínica
Para o oncologista pediátrico Sidnei Epelman, o impacto
da parceria é concreto e imediato.
Casos complexos, antes limitados às possibilidades
locais, passam a ser discutidos em nível internacional. Tumores raros, recaídas
ou situações sem resposta aos tratamentos convencionais ganham novos olhares,
novas hipóteses, novas chances.
Não se trata de uma consulta remota, mas de uma troca
entre especialistas que compartilham um mesmo objetivo: salvar vidas.
E, junto com essa troca, chegam ferramentas que mudam o
jogo: exames moleculares avançados capazes de revelar a biologia exata do tumor
e orientar terapias mais precisas.
Histórias que sustentam a ciência
Quem acompanha o cotidiano da TUCCA percebe que os
números, mais de 400 pacientes atendidos por ano, são apenas parte da história.
Nos bastidores, há vídeos que mostram profissionais
pelo nome, crianças em tratamento com sorrisos tímidos, famílias que encontram
acolhimento onde antes havia medo. Há campanhas, eventos, mobilizações; tudo
movido por um mesmo propósito: garantir continuidade de vida, em todas as fases
do tratamento.
Essa dimensão humana é o que sustenta a tecnologia.
Com a integração ao programa internacional, São Paulo
deixa de ser apenas um ponto de atendimento e passa a ocupar um lugar
estratégico: o de hub latino-americano em oncologia pediátrica.
Para Andrew Kung, o avanço está na troca:
“Quando fortalecemos os profissionais locais e
conectamos experiências, criamos resultados duradouros.”
Na prática, isso significa formação contínua, acesso a
discussões clínicas globais e desenvolvimento de pesquisas conjuntas, um ciclo
que transforma não só o presente, mas o futuro da oncologia pediátrica na
região.
O desafio que ainda persiste
Apesar dos avanços, há uma realidade que insiste em
atravessar todas as histórias: o diagnóstico tardio.
No Brasil, milhares de crianças ainda chegam aos
centros especializados em estágios avançados da doença. E, como alerta Epelman,
não basta diagnosticar cedo, é preciso garantir acesso rápido ao lugar certo.
A equação da cura passa, inevitavelmente, pela
equidade.
“A cura já chegou, mas não para todos.”
A frase ecoa como um lembrete e um chamado. Porque,
enquanto a ciência avança, o desafio maior continua sendo fazer com que esse
avanço alcance quem mais precisa.
A parceria com o Memorial Sloan Kettering Cancer Center
não resolve todos os problemas. Mas encurta distâncias, geográficas, sociais e
científicas.
E, para muitas crianças, isso pode significar algo
simples e imenso ao mesmo tempo:
a chance de continuar.


Para apoiar ou saber mais: www.tucca.org.br




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