Quando a violência vira conteúdo: o que estamos deixando de sentir?
Especialista em neurociência explica como a exposição digital está remodelando nossa empatia — e por que isso deve preocupar toda a sociedade.
Gerada por IA A violência nunca esteve tão acessível — e, ao mesmo tempo, tão banalizada. Em um cenário onde vídeos de agressões, humilhações e situações extremas disputam atenção com conteúdos leves nas redes sociais, uma mudança silenciosa está em curso: a forma como reagimos ao sofrimento alheio já não é a mesma.
Para Sheron Mendes, bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento e professora da pós-graduação em Educação na UNINTER, esse fenômeno não surgiu de forma repentina, mas é resultado de um processo gradual — intensificado pela tecnologia e pela lógica de engajamento das plataformas digitais.
“A transição da violência de ‘notícia’ para ‘entretenimento’ não ocorreu em um ponto específico, mas através de um processo gradual de dessensibilização, especialmente agora mediada pela tecnologia”, explica.
Historicamente, a violência sempre despertou interesse humano. A sociobiologia, campo desenvolvido por Edward O. Wilson, já apontava que a agressividade tem raízes evolutivas. O que mudou, segundo Sheron, foi a escala e a frequência dessa exposição.
“Os romanos já lotavam o Coliseu para assistir a combates mortais. O ponto de inflexão crítico ocorreu quando algoritmos passaram a priorizar conteúdos que geram engajamento emocional”, afirma.
Essa lógica, amplamente analisada por Max Fisher em The Chaos Machine, favorece conteúdos que provocam reações intensas — como raiva, medo e indignação — criando um ciclo em que a violência não apenas circula, mas é amplificada e normalizada.
Menos choque, menos empatia
Um dos conceitos centrais para compreender esse fenômeno é a dessensibilização, estudada por Albert Bandura. Trata-se da redução gradual da resposta emocional diante de estímulos repetidos.
“A repetição constante de estímulos violentos reduz a resposta emocional negativa, transformando o que antes causava horror em algo tolerável, depois compartilhável e, por fim, defensável”, destaca Sheron.
Pesquisas reforçam esse cenário. Estudos como o de Krahé et al. (2011) e Mrug et al. (2014) demonstram que a exposição frequente à violência midiática está associada à diminuição da empatia e à redução da reatividade emocional.
Mas o impacto vai além do comportamento imediato.
“A forma como pensamos sobre a violência pode mudar permanentemente. Em alguns casos, ela deixa de provocar rejeição e passa até a ser percebida como inspiradora”, alerta.
Esse efeito, segundo estudos do Mount Sinai (2014), é ainda mais intenso em indivíduos com predisposição à agressividade, que apresentam menor atividade cerebral em áreas ligadas ao autocontrole.
Algoritmos que amplificam o extremo
As redes sociais não são apenas palco — são agentes ativos nesse processo. Seus algoritmos são projetados para maximizar engajamento, e não necessariamente bem-estar.
“As redes sociais funcionam como amplificadores estruturais da violência”, afirma Sheron.
Evidências recentes confirmam essa dinâmica. Pesquisas da University College London (2024) e o relatório Safer Scrolling (ALIGN, 2024) mostram que algoritmos tendem a priorizar conteúdos extremos, incluindo violência simbólica e misoginia, especialmente entre jovens.
A pesquisadora Kaitlyn Regehr, da UCL, aponta que esses sistemas exploram vulnerabilidades emocionais, transformando conteúdos nocivos em experiências quase “gamificadas”.
O resultado é um consumo fragmentado, repetitivo e muitas vezes inconsciente de conteúdos violentos — frequentemente percebidos como entretenimento.
Uma geração em formação sob risco
O impacto é ainda mais profundo quando se trata de crianças e adolescentes. Isso porque o cérebro ainda está em desenvolvimento — especialmente o córtex pré-frontal, responsável por empatia, julgamento moral e controle de impulsos.
“Quando adolescentes são constantemente expostos a conteúdos que desumanizam ou banalizam a violência, seus cérebros aprendem a processar o mundo dessa forma. Não é uma escolha consciente, é aprendizagem neural”, explica Sheron.
A neurocientista Adele Diamond já demonstrou que essa região do cérebro só atinge maturidade completa após os 25 anos. Isso torna os jovens particularmente vulneráveis à influência de conteúdos repetitivos e emocionalmente intensos.
Nesse contexto, ambientes digitais como comunidades misóginas ou extremistas funcionam como câmaras de eco, reforçando narrativas e comportamentos.
Os reflexos são visíveis. Dados do Instituto DataSenado (2025) indicam que 88% das mulheres brasileiras já sofreram violência psicológica — um número que dialoga diretamente com a normalização de discursos e práticas violentas no cotidiano.
A linha invisível da normalização
Mas em que momento deixamos de nos indignar?
Para Sheron, não há um ponto exato — e esse é justamente o perigo.
“O desengajamento moral ocorre em estágios: primeiro justificamos, depois minimizamos, depois desumanizamos. Cada etapa é quase imperceptível”, explica, com base na teoria de Bandura.
Esse processo pode começar cedo, especialmente quando não há mediação ou pensamento crítico.
“Para muitos jovens, um vídeo de humilhação pode ser ‘apenas um vídeo’. Sem questionamento, o conteúdo é absorvido — e, com o tempo, normalizado.”
Um dos sinais de alerta, segundo a especialista, é quando a pessoa deixa de se sensibilizar e passa a defender comportamentos violentos.
O que ainda nos faz parar?
Apesar do cenário preocupante, Sheron aponta que ainda existe um caminho possível — e ele passa pela consciência e pela educação.
“O que ainda nos faz parar e sentir é a nossa própria humanidade. Temos a capacidade de escolher como reagimos.”
Essa capacidade, segundo ela, precisa ser fortalecida.
Educação midiática, pensamento crítico e ambientes que valorizem empatia são fundamentais para interromper o ciclo de normalização da violência.
“Os algoritmos não são neutros, mas também não são inevitáveis. A mudança começa quando questionamos, quando não compartilhamos automaticamente, quando escolhemos não normalizar.”
No fim, a questão não é apenas o que estamos assistindo — mas no que estamos nos tornando ao assistir.




COMENTÁRIOS