Arte, fé e pertencimento: a equação simbólica da exposição “6 + 6=18”
Mostra na Unibes Cultural reúne diferentes gerações de artistas para refletir sobre identidade, memória e espiritualidade a partir da tradição judaica
everup.com Encerrando a efervescência cultural da semana da SP-Arte, a capital paulista recebe uma exposição que propõe mais do que um encontro estético: um exercício de escuta, troca e reflexão. A coletiva “6 + 6=18”, em cartaz na Unibes Cultural, parte da tradição judaica para construir diálogos contemporâneos sobre temas universais como o sagrado, a ancestralidade e a convivência entre diferentes visões de mundo.
Com curadoria da artista Adriana Lerner, a mostra reúne nomes consagrados e emergentes da arte contemporânea, como Anna Bella Geiger, Anna Guerra, Dudu Garcia, Erika Malxoni, Flávia Matalon, Greicy Khafif, Laerte Ramos, Laura M. Mattos, Lucila Sartori, Michelle Rosset e Taly Cohen. O conjunto reflete não apenas diferentes linguagens artísticas, mas também múltiplas origens culturais e espirituais.
Entre tradição e contemporaneidade
A proposta curatorial se apoia em um ponto sensível: como a fé e a herança cultural podem dialogar com o presente sem perder sua potência simbólica. Para os artistas de origem judaica, as obras emergem de experiências ligadas à memória, ao ritual e à continuidade de uma identidade construída ao longo de gerações.
Já os artistas de outras tradições se aproximam do judaísmo por meio da pesquisa e do intercâmbio cultural, estabelecendo uma relação que ultrapassa o olhar externo. Nesse processo, a exposição se transforma em um território de encontro — onde respeito e curiosidade são os principais mediadores.
Como destaca Adriana Lerner no texto curatorial, não se trata de observar uma cultura, mas de participar de uma troca viva, em que diferentes perspectivas ampliam o significado das obras e do próprio ato artístico.
A potência simbólica do número 18
O título da exposição sintetiza sua essência poética. Embora, matematicamente, seis mais seis resulte em 12, a tradição judaica ressignifica essa conta. Na numerologia hebraica, o número 18 corresponde à palavra “chai”, que significa “vida”.
A escolha do nome propõe, portanto, uma equação expandida — em que colaboração, afeto e diálogo transformam o resultado em algo maior do que a lógica racional. É uma metáfora sobre como encontros culturais podem gerar novos sentidos e possibilidades.
Memória, escrita e permanência
Entre os destaques da mostra está o trabalho de Anna Bella Geiger, referência da arte contemporânea brasileira. Inspirada nos Manuscritos do Mar Morto, encontrados na região de Qumran, a artista utiliza elementos históricos para abordar temas como exílio, memória e a escrita como forma de testemunho.
Aos 92 anos, Geiger reafirma a força da arte como instrumento de permanência — capaz de atravessar o tempo e preservar narrativas que moldam identidades coletivas.
Um convite ao diálogo
Mais do que uma exposição temática, “6 + 6=18” se posiciona como um espaço de convivência simbólica. Em tempos marcados por polarizações, a mostra aposta na arte como linguagem universal — capaz de aproximar diferenças e construir pontes entre culturas.
A entrada gratuita amplia ainda mais esse convite, tornando a experiência acessível e reforçando o papel da arte como ferramenta de inclusão e reflexão social.




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