O problema não é a matemática, é a forma como ela chega aos alunos
Baixo desempenho, ansiedade e rejeição à disciplina revelam um desafio pedagógico que vai além dos números e exige novas formas de ensinar e aprender.
Azeitona Comunicação A rejeição à matemática entre muitos estudantes brasileiros não nasce com eles. Segundo Victor Hill, presidente e fundador da Associação Cactus, ela é construída ao longo do tempo, aula após aula, quando a disciplina passa a ser apresentada como um território de fórmulas a decorar, respostas exatas a alcançar e erros a evitar. Nesse processo, muitos alunos deixam de enxergá-la como uma linguagem capaz de explicar o mundo e passam a percebê-la como um obstáculo difícil de superar.
Essa aversão não é inevitável. Para Hill, em grande parte ela resulta de escolhas pedagógicas que privilegiam a memorização em detrimento da compreensão. Quando a matemática deixa de ser explorada como ferramenta de pensamento, criação e autonomia, transforma-se em uma sequência de procedimentos sem significado para quem aprende.
Os dados ajudam a dimensionar o tamanho do desafio. No Pisa 2022, avaliação internacional conduzida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos alcançaram o nível mínimo de proficiência em matemática — patamar em que o aluno consegue aplicar conceitos básicos em situações do cotidiano. Nos países da OCDE, esse percentual chega a aproximadamente 69%.
O Brasil registrou média de 379 pontos em matemática, bem abaixo da média de 472 pontos dos países avaliados. Apenas 1% dos estudantes brasileiros atingiu os níveis mais altos de desempenho, enquanto a média internacional é de cerca de 9%. Mais do que indicar dificuldades técnicas, os números revelam um sistema educacional que ainda encontra obstáculos para tornar o aprendizado matemático significativo.
Esse distanciamento não é apenas cognitivo; ele também aparece no campo emocional. O relatório Pisa 2022 Results – Volume V, da OCDE, aponta que cerca de 65% dos estudantes nos países membros se preocupam em tirar notas baixas em matemática e aproximadamente 40% relatam sentir nervosismo ou ansiedade ao resolver problemas.
No Brasil, os índices são ainda maiores. Levantamentos baseados no mesmo relatório indicam que quase 80% dos estudantes brasileiros sentem ansiedade em relação ao desempenho na disciplina e mais de 60% relatam insegurança ao lidar com exercícios. Quando uma área do conhecimento passa a ser associada a medo e tensão, o afastamento de muitos jovens torna-se quase inevitável.
Romper esse ciclo exige repensar a experiência em sala de aula. A superação desse cenário passa por práticas pedagógicas que ultrapassem o modelo exclusivamente expositivo e a lógica da memorização. Metodologias ativas de aprendizagem — que envolvem os estudantes em desafios, resolução de problemas e atividades colaborativas — estão alinhadas às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que incentiva o desenvolvimento do pensamento crítico, da autonomia intelectual e da capacidade de resolver problemas.
Essas abordagens também dialogam com reflexões internacionais sobre o futuro da educação. Relatórios da UNESCO defendem experiências de aprendizagem mais significativas, centradas no estudante e conectadas a situações reais. Pesquisas educacionais indicam que práticas baseadas em investigação, trabalho em grupo e projetos tendem a aumentar o engajamento e melhorar a relação dos alunos com a matemática.
Nesse contexto, iniciativas como olimpíadas de matemática e desafios de raciocínio lógico cumprem papel relevante. A Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), por exemplo, reúne mais de 57 mil escolas e alcança praticamente todos os municípios do país, envolvendo milhões de estudantes todos os anos.
Ambientes como esse apresentam a matemática como um espaço de descoberta e investigação intelectual, e não apenas como uma lista de exercícios a resolver. Ainda que não sejam solução única para os desafios educacionais do país, ajudam a fortalecer uma cultura em que pensar, explorar e questionar se torna mais importante do que decorar procedimentos.
Para Victor Hill, iniciativas que estimulam o raciocínio lógico e o pensamento investigativo ajudam a reconstruir a relação dos estudantes com a disciplina. “Quando a matemática é apresentada como descoberta e não apenas como resposta pronta, os alunos passam a se envolver de forma muito mais ativa com o aprendizado”, observa.
Diante das desigualdades que marcam o sistema educacional brasileiro, transformar esse cenário pode parecer um desafio distante. No entanto, manter o modelo atual significa aceitar a continuidade de resultados insatisfatórios. Especialistas alertam que os esforços de recomposição de aprendizagem após a pandemia ainda enfrentam dificuldades para produzir avanços consistentes, especialmente em matemática, área sensível a lacunas acumuladas ao longo da trajetória escolar.
Ressignificar a relação dos estudantes com a matemática não significa torná-la mais fácil, mas torná-la mais humana. Significa compreender o erro como parte do processo de aprendizagem, valorizar perguntas tanto quanto respostas e apresentar a disciplina como ferramenta para compreender e transformar a realidade.
Quando essa mudança acontece, a matemática deixa de ser vista como inimiga e passa a ser entendida como linguagem de autonomia. No fim das contas, o problema nunca foram os números — mas a forma como aprendemos a conviver com eles.





COMENTÁRIOS