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Brasil,08/03/2026

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    Escuta, proteção e coragem: o trabalho da Delegacia da Mulher em Juatuba

    À frente de atendimentos que unem investigação, acolhimento e articulação social, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher se torna uma porta de proteção e reconstrução para vítimas de violência.


    Escuta, proteção e coragem: o trabalho da Delegacia da Mulher em Juatuba Delegacia Juatuba-MG

    No cotidiano de uma delegacia especializada, cada relato carrega mais do que um registro policial. Carrega histórias, fragilidades e, muitas vezes, a primeira tentativa de romper um ciclo de violência. Em Juatuba, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) desempenha um papel fundamental nesse processo, atuando não apenas na investigação dos crimes, mas também no acolhimento e na orientação das vítimas.

    Segundo a responsável pela unidade, o trabalho da delegacia funciona como um ponto de convergência entre segurança pública e apoio social. “A delegacia atua como o ‘nervo central’ que une segurança pública e suporte social. Além da instauração dos inquéritos policiais e dos pedidos de medidas protetivas, contamos com uma assistente social que faz os encaminhamentos para a rede do município”, explica.

    Essa atuação integrada é essencial porque, em muitos casos, a violência doméstica está ligada a fatores sociais e psicológicos complexos. Muitas mulheres permanecem em relações abusivas não apenas pelo medo, mas também por dependência financeira, emocional ou pela ausência de uma rede de apoio.

    Acolhimento como parte da proteção

    Embora o trabalho policial envolva investigação e procedimentos legais, a dimensão humana do atendimento é considerada central no funcionamento das delegacias especializadas.

    “As DEAMs foram criadas na década de 1980 justamente com esse viés de acolhimento e representatividade, buscando um atendimento empático e, preferencialmente, feito por mulheres, sem emissão de julgamentos”, destaca.

    Esse cuidado é ainda mais importante porque muitas vítimas chegam à delegacia em momentos de extrema vulnerabilidade emocional. Nesse contexto, o primeiro contato com a polícia pode definir o rumo da busca por proteção.

    “O primeiro atendimento é crucial na vida daquela mulher. Muitas vezes ele se torna o ponto de partida para a saída do ciclo de violência. É nesse momento que são esclarecidos os procedimentos e todos os seus direitos”, afirma. Segundo ela, quando a vítima não se sente acolhida, há risco de que desista de buscar ajuda novamente, permanecendo exposta à violência.

    Avanços na proteção das mulheres

    Nos últimos anos, o enfrentamento à violência doméstica no Brasil passou por mudanças importantes, especialmente com a criação da Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha.

    Para a delegada, a legislação representa um marco na proteção das vítimas. “A Lei Maria da Penha é um mecanismo excelente de proteção das mulheres. Ela não trata apenas do viés criminal, mas também fortalece o trabalho em rede entre diversas instituições”, explica.

    Antes da lei, muitos casos eram tratados com banalização ou invisibilidade. A partir dela, políticas públicas começaram a ganhar espaço e visibilidade, ampliando os mecanismos de proteção e assistência.

    “Precisamos continuar investindo em políticas públicas e em conscientização para que as mulheres conheçam seus direitos e saibam onde podem buscar ajuda”, acrescenta.

    O impacto da presença feminina

    Outro fator considerado importante no atendimento é a presença de mulheres à frente das delegacias especializadas. Segundo a responsável pela DEAM de Juatuba, isso contribui para que as vítimas se sintam mais seguras ao relatar episódios de violência.

    “A vítima, ao ser atendida por uma mulher, muitas vezes se sente mais confiante para falar sobre o que aconteceu. Esse processo de fala também pode ser um passo importante na elaboração do trauma”, afirma.

    Muitas vezes, inclusive, a mulher ainda não reconhece que está vivendo uma situação de violência. O diálogo e a escuta qualificada ajudam a identificar comportamentos abusivos que podem estar naturalizados dentro da relação.

    Desafios da atuação diária

    Apesar da importância do trabalho realizado, as delegacias especializadas ainda enfrentam desafios estruturais. Entre eles, a limitação de efetivo policial e de recursos operacionais.

    “Atualmente contamos com apenas uma viatura caracterizada. Em muitas investigações precisamos utilizar veículos descaracterizados, principalmente em comunidades mais afastadas”, explica.

    Essa estratégia também busca proteger as vítimas. Em determinados contextos, a presença de uma viatura policial pode expor a mulher a represálias ou constrangimentos dentro da própria comunidade.

    Uma rede que protege

    Para ampliar o alcance da proteção, a delegacia trabalha em articulação com outros serviços públicos. Em Juatuba, esse apoio é fortalecido pela atuação da assistente social cedida pela prefeitura.

    “Ela identifica o que aquela vítima precisa naquele momento e faz os encaminhamentos para a rede municipal, como CREAS, CRAS e unidades básicas de saúde”, explica.

    Esse trabalho em rede permite que a mulher receba não apenas apoio jurídico, mas também assistência psicológica, social e, em alguns casos, orientação para reconstruir sua autonomia.

    Um problema que exige compreensão

    Apesar dos avanços, a violência contra a mulher ainda é cercada por preconceitos e interpretações simplistas. Um dos desafios é combater o estigma que muitas vítimas enfrentam ao denunciar.

    “Ainda existe a ideia equivocada de que a mulher ‘gosta de apanhar’. Ninguém gosta de ser agredida, maltratada ou manipulada. A violência doméstica é um problema complexo e muitas vezes envolve fatores emocionais, sociais e psicológicos”, ressalta.

    Por isso, o trabalho das delegacias especializadas vai além da investigação criminal. Ele representa, muitas vezes, o primeiro passo para que uma mulher consiga reconstruir sua vida com segurança e dignidade.

    Em cidades como Juatuba, onde o tema ainda exige atenção e conscientização constantes, a DEAM se consolida como um espaço de escuta, proteção e esperança para quem decide romper o silêncio.





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