Jiba Bruin
Estamos deixando as crianças sonharem?
Será que ficamos adultos e perdemos a capacidade de sonhar? E, pior: será que estamos, pouco a pouco, impedindo que as crianças sonhem também?
Onde estão nossos sonhos? A sociedade tem colhido as consequências de anos de frustrações acumuladas e, muitas vezes, essas frustrações acabam sendo refletidas nas novas gerações. Em meio a tantas cobranças, comparações e expectativas, os sonhos parecem ter perdido espaço. Em alguns contextos, sonhar passou a ser tratado quase como ingenuidade.
Onde estão os astronautas, as bailarinas, os professores, os cientistas, os médicos, os bombeiros, os heróis e as heroínas?
Cada vez mais, aparecer se tornou mais viável do que ser. É mais fácil uma criança sonhar em reproduzir uma dança nas redes sociais, seguir tendências ou buscar reconhecimento imediato com likes e reposts do que se projetar em caminhos que exigem dedicação, esforço e tempo para florescer.
Mas talvez essa mudança diga mais sobre nós, adultos, do que sobre elas.
Muitos pais, educadores e familiares carregam suas próprias frustrações e traumas. E, tentando proteger as crianças de decepções, acabam criando uma espécie de blindagem emocional. Queremos evitar que elas sofram, que errem, que se frustrem e isso é nobre.
O problema é que inteligência emocional não nasce da ausência de emoções, mas da capacidade de atravessá-las. Frustração, dúvida, medo e insegurança fazem parte do processo de crescer e de perseguir sonhos. São essas experiências que ensinam resiliência, persistência e autoconhecimento.
E é justamente nesse ponto que a literatura exerce um papel insubstituível.
A literatura infantojuvenil sempre foi uma grande guardiã dos sonhos. Nos livros, as crianças encontram personagens que erram, aprendem, enfrentam desafios e descobrem quem são. Cada história abre uma janela para novas possibilidades de imaginar o mundo e a si mesmas dentro dele.
Não por acaso, um dos personagens mais emblemáticos da literatura, o Pequeno Príncipe, atravessa gerações lembrando algo essencial: o olhar da infância é capaz de enxergar aquilo que os adultos muitas vezes deixam de perceber, que é o valor das relações, da imaginação, da curiosidade e da sensibilidade.
Quando uma criança lê ou escuta uma história, ela não está apenas acompanhando uma narrativa, está experimentando emoções, fazendo perguntas, criando hipóteses e imaginando futuros.
É nesse território simbólico que os sonhos começam a nascer.
Na Bom Bom Book’s, acreditamos profundamente nesse poder transformador das histórias. Por isso, projetos editoriais como a coleção O que cabe no meu mundo surgem com o propósito de ajudar crianças e famílias a conversarem sobre sentimentos, relações e experiências que fazem parte do crescimento.
Porque, antes de sonhar com o que queremos ser, precisamos aprender a compreender quem somos.
A literatura oferece justamente esse espaço seguro para que as crianças entrem em contato com emoções complexas como medo, insegurança, tristeza e frustração sem que isso aconteça de forma solitária. Os personagens vivem esses processos junto com elas.
E isso é poderoso.
Histórias ajudam a construir repertório emocional. Elas ampliam a imaginação, despertam empatia e fortalecem a capacidade de refletir sobre o mundo.
Mais do que entreter, a literatura infantil ajuda a formar pensamento, identidade e propósito.
Talvez, então, a pergunta não seja apenas se as crianças estão sonhando menos. Talvez devêssemos nos perguntar se estamos oferecendo a elas os estímulos certos para continuar sonhando.
Permitir que crianças sonhem não significa criar expectativas irreais ou pressioná-las a serem extraordinárias. Significa oferecer ferramentas para que elas explorem o mundo com curiosidade, imaginação e coragem.
E poucas ferramentas são tão potentes quanto um livro. Porque toda grande história começa da mesma forma que todo grande sonho, com uma simples pergunta:“E se…?”
*Jessica Bruin é CEO da Bom Bom Book’s, editora brasileira especializada em literatura infantil e infantojuvenil, com sede no Guarujá (SP) e produção internacional na China. Fundada oficialmente em Belo Horizonte (MG) no ano de 2015, a marca nasceu da experiência familiar no mercado editorial desde a década de 1980. Seus livros são vendidos em 72 países, traduzidos para sete idiomas e utilizados em escolas e programas educativos em todo o mundo. A editora é reconhecida por seu catálogo de obras com curadoria especializada e foco em temas como educação emocional, sustentabilidade, diversidade e desenvolvimento cognitivo infantil.



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