Geração fresh: Carol Monteiro, Luíza Perote e Sheila Bawar são capa da Vogue de novembro de 2025

O primeiro chamado de Luíza Perote para o mundo da moda aconteceu durante um passeio por um shopping de Porto Velho, em Rondônia. Convidada para um concurso de modelos, ela não somente conquistou o primeiro lugar como, na sequência, assinou o primeiro contrato com uma agência. Mas a distância entre Humaitá (AM), sua cidade natal, e São Paulo ainda era um desafio. “Foi então que eu tive a ideia de gravar vídeos desfilando”, lembra.
Os registros viralizaram no TikTok e abriram caminho para que Luíza se mudasse para São Paulo aos 17 anos – não sem antes prometer ao pai que voltaria para estudar, caso a carreira não deslanchasse em um ano. “Mas eu sempre acreditei que iria muito longe”, ressalta. E foi: a top abriu o desfile da Fendi em Milão, cruzou a passarela da alta-costura da Chanel, em Paris, e desfilou para Marc Jacobs, em Nova York.
Nascida no Rio de Janeiro e criada em São Paulo por uma imigrante da Guiné-Bissau, Sheila Bawar foi descoberta aos 13 anos na Galeria do Rock, no centro da capital paulista, quando uma stylist propôs um editorial ao lado de suas irmãs, as modelos gêmeas albinas Lara e Mara Bawar. As fotos rapidamente viralizaram e chamaram a atenção da dupla de fotógrafos MAR+VIN. “Mas a pedido da minha mãe, só fiz o primeiro trabalho profissional depois de fazer 18 anos”, recorda. Aos 19, pronta para seguir em frente na carreira, Sheila ganhou sua primeira capa nesta Vogue pelas lentes do duo Marcos Florentino e Kelvin Yule. O trabalho a consolidou como uma das principais tops brasileiras da nova geração e marcou o início de uma nova fase em sua carreira, antecipando campanhas e desfiles para etiquetas consagradas, como Saint Laurent, Valentino e Jacquemus.
Já Carol Monteiro brinca que foi “arrastada” para a moda aos 15 anos, quando sua madrasta a levou para conhecer agências de modelos. “Ela viu alguma coisa em mim”, relembra. Paralelamente, a top fez sua inscrição para estudar na Unifesp com a ideia de se tornar diplomata. A vida, porém, tinha outros planos.
Em 2024, após desistir do curso – a contragosto do pai, “que sempre priorizou os estudos” –, estreou em sua primeira temporada internacional, abrindo o desfile da Moschino e desfilando para a JW Anderson, em Londres. Desde então, com seu olhar marcante, despontou em trabalhos para Prada, Loewe, Louis Vuitton e outras marcas.
Leia também:
Confira a entrevista abaixo com Carol Monteiro, Sheila Baiwar e Luíza Perote:
Vogue: Vi que vocês têm fotos juntas nas redes sociais. Vocês são amigas próximas? Como se conheceram?
Luíza Perote: Eu conheci a Sheila em São Paulo enquanto fazíamos uma campanha, mas nos aproximamos mesmo em fevereiro do ano passado em Paris, depois do desfile da Saint Laurent. Lá, descobrimos uma conexão muito legal.
Sheila Bawar: Eu e a Carol nos conhecemos num casting para a Fendi. Enquanto aguardávamos, ficamos falando sobre a vida uma da outra e acabamos nos identificando. Esperamos umas cinco horas ou mais lá. Achávamos que tinham esquecido de nós (risos).
Carol Monteiro: Já eu conheci a Luíza no backstage de um desfile do João Maraschin no São Paulo Fashion Week. Ela estava na fila atrás de mim, mas não chegamos a nos falar. Só lembrei que estávamos uma na frente da outra um ano depois ao rever uma foto no meu celular.
Luíza: Ali, na hora, pensei que não tínhamos personalidades compatíveis.
Sheila: Corta para as duas indo ao apartamento uma da outra em Londres, jantando juntas todos os dias e participando de cinco grupos no WhatsApp comigo (risos).
Carol: Eu acho que nós três grudamos muito uma na outra porque temos essa sensação de que genuinamente uma está torcendo pela outra.
Vogue: Ser modelo sempre foi um sonho?
Luíza: Eu sofri muito bullying na infância por causa da minha aparência, então eu não tinha essa ousadia de falar “nossa, eu quero ser modelo”. Mas a moda me fez ter perspectivas diferentes sobre mim. Passei a ver que tenho potencial e que, sim, sou bonita.
Sheila: Quando eu era mais nova, já gostava muito de moda. Eu recortava as roupas das revistas e colava nas minhas bonecas, frente e verso.
Carol: Eu não fui descoberta, fui arrastada pela minha madrasta para conhecer algumas agências. Mas quando descobri o processo criativo por trás das roupas, me apaixonei. Na minha primeira temporada, fiquei encantada pelo Daniel Roseberry na Schiaparelli. Ele é um estilista genial.
Vogue: Falando em semana de moda, Luíza, você desfilou na estreia de Matthieu Blazy na Chanel e, ainda neste ano, foi incluída na lista das 50 tops mais importantes do mundo, segundo o Models.com. O que esses marcos representam para você?
Luíza: Foi muito emocionante estar no desfile da Chanel, não teve uma pessoa que saiu do backstage sem chorar. Eu lembro de estar no meio da passarela e me sentir em transe. Fechei a temporada com chave de ouro. Já quando vi a lista do Models.com, lembrei do dia em que vim do Amazonas para São Paulo pela primeira vez aos 17 anos. Meu pai tinha dado o prazo de um ano para a minha carreira deslanchar ou então teria de voltar para cursar uma universidade. Mas eu sempre acreditei que iria muito longe.
Vogue: Carol, desde a sua estreia na temporada de moda internacional no ano passado para a JW Anderson, você abriu o desfile da Moschino e virou queridinha de muitas marcas, como a Louis Vuitton. Inclusive, tem feito todos os desfiles da maison desde então.
Carol: É sempre muito legal ver que você está construindo laços. Além de visibilidade, estar com eles representa um reconhecimento pessoal muito importante. Eu fiz o primeiro casting com muito medo, porque a concorrência era gigantesca, mas hoje já posso dizer que eu e o time da LV somos amigos.
Vogue: Sheila, você já trabalhou com marcas como Dior, Miu Miu, Versace e também com etiquetas nacionais. A partir da sua experiência, como você encara a questão da diversidade no mundo da moda atualmente?
Sheila: Internacionalmente falando, é um vaivém. Há momentos em que a contratação de meninas pretas, asiáticas e pessoas racializadas é muito maior do que em outros. E o Brasil é um espelho do que acontece lá fora. Atualmente, há algo triste acontecendo: as meninas do Sudão do Sul tiveram seus vistos suspensos [após uma decisão do presidente dos EUA Donald Trump que afetou os cidadãos da nação africana]. Na semana de moda de Nova York, muitas modelos pretas não puderam trabalhar, e senti que, na Europa, essa demanda também diminuiu. Mas fiquei feliz ao ver que o Matthieu Blazy decidiu encerrar o desfile da Chanel com uma modelo negra. Isso me trouxe esperança.
Vogue: O Brasil tem um histórico de lançar supermodelos para o mundo, como Gisele, Alessandra, Isabeli e Adriana. Vocês sentem uma pressão para atingir esse nível de sucesso? Como lidam com isso?
Sheila: Eu faço terapia desde que entrei na moda. Acho que uma das partes mais difíceis é a pressão para estar sempre no ápice. Antigamente, as supermodelos faziam até cem temporadas de moda e, agora, as tops duram cinco ou seis, sendo muito otimista. Manter a constância é muito complicado…
Luíza: Faço análise também e acho que isso me fez amadurecer. Claro que queremos ser reconhecidas, mas todas temos altos e baixos. Eu entendi que cada uma tem a sua carreira: a minha é diferente da Sheila, que é diferente da carreira da Carol. Não tem competição.
Carol: Eu tenho a teoria de que nós, modelos, não necessariamente estamos lutando pela fama, mas por humanização. Quando você começa, ninguém quer saber quem é você, de onde veio. Acho que, no final, queremos ser vistas como um ser humano completo e não apenas como alguém que veste uma roupa e sai andando.
Vogue: Sheila, sua mãe tem origem na Guiné-Bissau e deu a você um sobrenome cujo significado é “moça bonita”. Há alguma tradição ou ensinamento de origem guineense que você levou para a vida e também para sua carreira?
Sheila: Várias! A minha mãe, antes de sair, agradece pelo dia e joga água no chão, como sinal de clareamento do caminho. Eu também costumo fazer isso. Tem outras tradições, como colocar arruda na roupa. Isso tem um significado mais afetivo para mim. Quando estou longe, coloco uma arruda na minha roupa para me lembrar da minha mãe e vejo que não estou sozinha.
Vogue: Como fazem para lidar com a saudade da família quando estão muito tempo em viagem?
Luíza: Sou muito vinculada à minha família, então estou sempre querendo dar um pulinho no Brasil – para o terror dos meus agentes (risos). Mas acredito que levamos um pouco daqueles que amamos com a gente sempre. Quando você faz o que ama, tudo ganha um propósito maior. Então, tudo vale a pena.
Carol: A minha mãe sempre pergunta quando vou voltar, mas é difícil dar uma data específica, porque a gente descobre os trabalhos com pouca antecedência. Eu acabei de completar um ano morando fora do Brasil, preciso estar disponível quando me chamam, porque não quero perder nenhuma oportunidade. O que alivia a saudade é o apoio que a gente recebe.
Vogue: Qual é a importância da internet para a carreira de vocês? As redes sociais ajudaram a impulsioná-la?
Carol: Nossa, eu sou péssima. Tirei três dias de “férias” e ainda não postei tudo o que fiz durante a última temporada de moda. Os clientes dão muito valor a isso. Acho que, hoje em dia, consideram muito mais o Instagram do que o book de uma modelo. Dou meus parabéns às meninas que usam muito bem as ferramentas digitais. Aprendo muito sempre que vejo uma publicação delas.
Sheila: As nossas redes sociais são o nosso portfólio. E precisamos mostrar a nossa personalidade por meio delas. Mas confesso que tenho essa mesma dificuldade de ficar postando sempre. Não quero que isso vire mais uma obrigação, sabe? Se é algo que eu “preciso” fazer, deixa de ser espontâneo. E, se deixa de ser espontâneo, não mostra 100% da minha personalidade.
Luíza: Eu fui descoberta aos 13 anos, mas morava em uma cidade muito pequena, onde nada ali acontecia. Então, comecei a gravar vídeos para o TikTok numa tentativa de alcançar meu sonho. Apesar de estar agenciada, não conseguia trabalho porque morava muito longe. Até que viralizei.
Vogue: Carol, durante a pandemia você trabalhou como professora de inglês para crianças com TDAH e deficiência. Como foi essa experiência?
Carol: Eu sempre fui muito independente e, durante a pandemia, aproveitei o fato de ter estudado numa escola bilíngue para ensinar crianças. Então, comecei a dar aulas de reforço para alunos da minha antiga escola. Lá, me deparei com crianças com TDAH e comecei a estudar mais sobre o assunto. Foi assim que descobri que também sou neurodivergente, tenho TDAH e um nível de autismo.
Vogue: Muito se fala sobre as nepobabies do mundo da moda. Acham que, nos últimos anos, se tornou mais difícil chegar ao topo sem ter um sobrenome famoso?
Sheila: De repente, ficou um silêncio aqui… (risos). Quando elas entram para a indústria, encontram um caminho mais fácil se comparado a quem não tem um sobrenome famoso. E acabam querendo escolher o desfile e o cliente com o qual querem trabalhar. Mas, para mim, ser nepobaby é indiferente. O importante é o quão sério alguém leva a sua profissão.
Luíza: É muito complicado tentar falar sobre esse assunto. As pessoas têm uma visão distorcida da vida de modelo, nossa realidade é muito mais complexa. Não estamos ali de brincadeira. Não se trata de viver de glamour e ter um milhão de paparazzi fazendo fotos. Tem muito trabalho até conseguir conquistar os clientes e as marcas. É preciso amar estar ali.
Créditos
FOTO: Mar+Vin
DIREÇÃO DE ARTE: Julia Filgueiras
EDIÇÃO DE MODA: Rita LazzarottiBELEZA: Silvio Giorgio com produtos Chanel Beauty e Keune.
ASSISTENTES DE FOTO: Renato Toso e Marina Toledo.
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Déia Lansky.
PRODUÇÃO DE MODA: Ana Carolina Mariano, Rafael Tatsuo, Paula Santiago, Maria Antônia Miranda e Manuela Padilla.
ASSISTENTES DE BELEZA: João Boeno e Júlia Boeno.
SET DESIGN: Jean Labanca.
ASSISTENTES DE SET DESIGN: Giovanna Lima, Hallan Rubens, Luis Coiradas e Ricardo Crepardi. TRATAMENTO DE IMAGEM: Studio Bruno Rezende.
AGRADECIMENTOS: Estúdio Damas




COMENTÁRIOS