Foto Delphotoart Algumas histórias de família permanecem vivas não apenas pelas fotografias, pelos relatos ou pelas lembranças compartilhadas ao longo dos anos, mas também pelos sabores que atravessam gerações. No caso do Espaço Odet, essa memória encontra na gastronomia uma de suas formas mais genuínas de existir. O restaurante nasceu inspirado na trajetória de uma mulher que transformou a cozinha em espaço de afeto, tradição e convivência e que, mesmo depois de partir, continua presente nas receitas, nos costumes e nas histórias que a família faz questão de preservar.
Odete Candido dos Santos, nasceu em Moeda Velha em 31/12/1948, faleceu em 27 de outubro de 2022, aos 73 anos e levou consigo, para Belo Horizonte, as referências de uma vida vivida na roça. Foi nesse ambiente que desenvolveu sua relação com a cozinha, preparando no fogão a lenha os pães, bolos, biscoitos e tantas outras receitas que acabariam se tornando parte da memória afetiva de seus familiares. Mais do que cozinhar, ela tinha o hábito de reunir, cuidar, benzer e contar histórias, fazendo da convivência cotidiana uma parte importante da formação da família.
As lembranças desse período permanecem especialmente ligadas à maneira como Odete preparava a comida. Seus familiares recordam uma cozinha marcada pelo sabor da roça, pelos temperos intensos e por ingredientes que remetiam diretamente às suas origens. A rapadura fazia parte desse universo, assim como o gosto por uma boa cachacinha, mas talvez o mais importante tenha sido a maneira como ela conseguiu preservar uma cultura alimentar que poderia ter se perdido com o passar das gerações.
Essa preocupação com a tradição aparece hoje na cozinha do Espaço Odet. Algumas receitas foram modernizadas para acompanhar a proposta do restaurante, mas determinados elementos continuam sendo fundamentais para que o sabor mantenha sua ligação com a história da família. O alho, presente em boa quantidade, e o toque de cominho são exemplos de características que permanecem na preparação dos pratos e ajudam a preservar aquilo que os familiares reconhecem como o verdadeiro tempero de Odete.
Entre todas as receitas que carregam essa memória, o bolinho de chuva ocupa um lugar especial. Era uma preparação que aparecia principalmente nos dias mais frios, quando Odete fazia os bolinhos para a família e os acompanhava com chá-mate. A receita se tornou tão querida que hoje está sendo incorporada ao café colonial do Espaço Odet, permitindo que uma lembrança essencialmente familiar passe a fazer parte também da experiência de quem visita o restaurante.
A ligação entre essa memória e o presente do Espaço Odet passa por Clara Luz, bisneta de Odete. Durante a infância, Clara e sua mãe moraram com a matriarca, o que fez com que ela crescesse acompanhando de perto os preparos e os sabores que mais tarde ajudariam a definir sua própria relação com a gastronomia. Mesmo depois de deixar de morar com a bisavó, a convivência continuou, especialmente nos finais de semana, quando os encontros também eram momentos para cozinhar e manter vivo aquele vínculo.
Foi justamente essa relação com a cozinha que, anos mais tarde, ajudou a transformar uma história familiar em um projeto profissional. Clara decidiu trancar a faculdade de Engenharia para se dedicar à gastronomia. Seu pai, diante da mudança de planos e tendo um terreno disponível, percebeu a possibilidade de unir o novo caminho escolhido pela filha a uma necessidade que também existia na cidade. Dessa união de circunstâncias nasceu a ideia do Espaço Odet, que passou a representar não apenas uma oportunidade de negócio, mas uma maneira de transformar o legado familiar em uma experiência gastronômica.
A família está presente também na equipe que conduz o espaço. Clara Luz e Maria Beatriz, bisnetas de Odete, fazem parte do projeto, assim como Glenda dos Santos, uma de suas netas, e Patrick Luz, marido de Glenda. Essa participação familiar reforça uma característica essencial do restaurante: A história de Odete não está apenas no nome colocado na fachada ou nas receitas escolhidas para o cardápio, mas nas próprias pessoas que ajudam a construir diariamente a experiência oferecida aos visitantes.
A proposta gastronômica parte de uma referência afetiva bastante conhecida, a comida caseira, mas procura apresentá-la de uma maneira própria. O objetivo não é simplesmente reproduzir aquilo que poderia ser encontrado em qualquer cozinha de família, e sim desenvolver receitas que mantenham essa sensação de comida afetiva ao mesmo tempo em que apresentam características que tornam a experiência particular do Espaço Odet. A fraldinha é um dos exemplos dessa identidade, reunindo a familiaridade de uma preparação caseira com uma receita própria da casa.
No cardápio, outros pratos estabelecem uma relação ainda mais direta com a história familiar. O tropeiro, preparado muitas vezes por Odete, aparece como uma das opções que melhor representam essa ligação entre passado e presente. Já o mousse de Romeu e Julieta leva para a sobremesa uma combinação que também conversa com a identidade Mineira, valorizando o encontro entre o queijo de Minas e a goiabada.
É justamente nessa combinação entre tradição e renovação que o Espaço Odet encontra sua identidade. A família não pretende congelar a cozinha de Odete no tempo, mas preservar aquilo que considera essencial em sua maneira de cozinhar. Algumas receitas podem receber novas apresentações e adaptações, mas o sabor, os temperos e, principalmente, a intenção por trás da comida precisam continuar presentes.
Para a família, cozinhar com memória significa levar a presença de Odete para cada prato e para cada atendimento. É uma forma de fazer com que sua bisneta, sua neta e os demais familiares continuem contando a história daquela mulher não apenas por meio das palavras, mas também por meio daquilo que chega à mesa. A comida passa, então, a funcionar como uma linguagem capaz de aproximar pessoas que sequer conheceram Odete de uma história que pertence originalmente à família.
E talvez seja essa a maior força do projeto, ao transformar lembranças particulares em uma experiência aberta ao público, o Espaço Odet permite que outras pessoas também façam parte, ainda que por algumas horas, de uma história construída dentro de uma família. Cada receita carrega uma referência, cada preparo recupera um costume e cada atendimento procura reproduzir um pouco da hospitalidade que marcou a convivência com Odete.
Quando a família imagina como seria recebê-la hoje no restaurante, a resposta é quase unânime:
"Odete ficaria orgulhosa. Mais do que isso, provavelmente gostaria de permanecer por ali, acompanhando os preparos e, como sempre fez, colocando a mão na cozinha para ajudar."
É justamente essa imagem que melhor traduz a dimensão de sua presença no Espaço Odet, porque ela não é lembrada como uma personagem distante de uma história passada, mas como alguém cuja maneira de viver ainda influencia aquilo que a família faz no presente.
O Espaço Odet é, portanto, resultado de uma escolha consciente de transformar memória em continuidade. Ao preservar receitas, temperos, costumes e histórias, a família encontra na gastronomia uma maneira de manter viva uma mulher que marcou diferentes gerações. E, ao abrir essa história para o público, faz com que aquilo que nasceu dentro de uma cozinha familiar possa alcançar novas mesas.
No fim, talvez seja exatamente isso que significa cozinhar com memória: permitir que alguém continue presente mesmo quando já não pode estar fisicamente à mesa. Odete permanece no sabor do bolinho de chuva servido nos dias frios, no tropeiro que remete às antigas receitas, no alho e no cominho que não podem faltar e, sobretudo, na forma como sua família escolheu transformar lembrança em legado.
No Espaço Odet, cada refeição carrega um pouco dessa história. E é assim, entre panelas, receitas, encontros e lembranças, que uma mulher nascida em Moeda Velha continua encontrando lugar à mesa, geração após geração.





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