Vinhos de Minas Gerais conquistam a Europa — e não é pelo preço
Rótulos mineiros ganham espaço estratégico na França e reposicionam o Brasil como origem de vinhos de identidade no cenário internacional
Divulgação Minas Gerais acaba de entrar de vez no mapa do vinho europeu — e não por competitividade de preço, mas por algo muito mais valioso: identidade. As vinícolas Bárbara Eliodora, de São Gonçalo do Sapucaí, e Estrada Real, de Caldas, são protagonistas de um movimento que marca uma nova fase da presença brasileira no mercado internacional.
A estreia acontece dentro do projeto Vin du Brésil, uma iniciativa que vai além da exportação. A proposta é sofisticada: apresentar o vinho brasileiro como expressão cultural, conectando gastronomia, território e narrativa — elementos essenciais para conquistar um dos mercados mais exigentes do mundo, a França.
Idealizado por nomes estratégicos como o chef francês Benoit Mathurin, o empresário italiano Giovanni Montoneri, o jornalista Xavier Vankerrebrouck e o brasileiro Guilherme França, o projeto nasce com uma visão clara: construir reputação, não volume.
Mais do que vender garrafas, o objetivo é inserir o Brasil no imaginário europeu como um produtor legítimo de vinhos de alta qualidade. E isso passa por experiência, contexto e história — atributos que dialogam diretamente com a cultura francesa.
“Na França, o vinho é uma linguagem cultural. Quando apresentamos os vinhos brasileiros, falamos de identidade, origem e emoção”, destaca Xavier Vankerrebrouck.
Uma estreia simbólica e estratégica
O lançamento do projeto foi inspirado no histórico Julgamento de Paris, evento que redefiniu o cenário global do vinho na década de 1970. A escolha não é aleatória: assim como naquele momento, a proposta agora é desafiar percepções estabelecidas e abrir espaço para novos protagonistas.
Durante a degustação, seis vinícolas brasileiras apresentaram seus rótulos, sendo duas mineiras e quatro gaúchas. A curadoria destacou práticas como o uso de leveduras indígenas, poda invertida e barricas brasileiras — elementos que reforçam a autenticidade e a singularidade da produção nacional.
Minas como protagonista de uma nova narrativa
A presença das vinícolas mineiras não é apenas simbólica. Ela representa a consolidação de um terroir ainda pouco explorado internacionalmente, mas que vem ganhando reconhecimento pela sua originalidade.
Com altitudes elevadas, clima diferenciado e técnicas inovadoras, Minas Gerais começa a construir uma assinatura própria no mundo do vinho — distante de padrões tradicionais e cada vez mais alinhada à busca global por autenticidade.
Posicionamento premium e estratégia de longo prazo
O primeiro lote de exportação, previsto para março, reúne 12 rótulos com preços entre 15 e 50 euros no varejo francês. A faixa posiciona os vinhos brasileiros em um patamar competitivo dentro do consumo gastronômico e especializado — longe da lógica de baixo custo.
Segundo Guilherme França, a meta é expandir o projeto para 15 vinícolas até o final de 2026, ampliando a diversidade de estilos e regiões representadas.
“Estamos construindo pontes entre produtores brasileiros e consumidores globais. É um trabalho de reputação, não apenas de exportação”, afirma.
Mais do que vinho: experiência e pertencimento
No restaurante Esther Rooftop, em São Paulo, Benoit Mathurin já trabalha exclusivamente com rótulos nacionais — uma escolha que reforça o potencial do Brasil no cenário internacional.
“O Brasil só não ocupa hoje um espaço maior por falta de conhecimento. Quando as pessoas provam, se surpreendem”, diz o chef.
Essa é justamente a aposta do Vin du Brésil: transformar desconhecimento em descoberta, e descoberta em desejo.
Um novo lugar à mesa global
Com dezenas de degustações previstas na Europa ainda neste semestre, o projeto inaugura um novo capítulo para o vinho brasileiro. Um capítulo que não se baseia em volume, mas em valor. Não em preço, mas em percepção.
E Minas Gerais, com seus rótulos autorais e sua identidade em construção, surge como uma das regiões mais promissoras dessa transformação.
O Brasil, definitivamente, começa a ocupar seu lugar — não apenas nas prateleiras, mas nas mesas e na memória dos grandes apreciadores do mundo.




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