Ciência na prática: museu no RS transforma sustentabilidade em laboratório vivo aberto à comunidade
Novo espaço do MEA aposta em educação ambiental baseada em experimentação, com horta, compostagem e atividades científicas acessíveis ao público
Pedro Diana Moraes/ Divulgação MEA No interior do Rio Grande do Sul, uma iniciativa coloca a ciência ambiental no centro da experiência educativa. O MEA – Memorial da Evolução Agrícola, em Horizontina, inaugura no dia 20 de março a Estação Cultivar, um espaço que transforma conceitos científicos em práticas cotidianas, aproximando a comunidade dos processos naturais que sustentam a vida.
Mais do que um ambiente de visitação, o projeto nasce como um laboratório a céu aberto, onde fenômenos como decomposição, ciclagem de nutrientes, biodiversidade e produção de alimentos deixam de ser abstrações teóricas para se tornarem experiências tangíveis. A proposta integra o programa Roda com Ciência, que já impactou mais de 1,2 mil pessoas e amplia sua atuação em 2026 com uma agenda robusta de atividades.
Ciência aplicada ao cotidiano
A Estação Cultivar parte de um princípio essencial da educação científica contemporânea: aprender fazendo. Ao reunir horta pedagógica, sistemas de compostagem, reciclagem e oficinas práticas, o espaço permite que visitantes observem, testem e compreendam processos fundamentais da ecologia.
Na horta, por exemplo, o cultivo de alimentos funciona como ponto de partida para discutir temas como fotossíntese, qualidade do solo, ciclos biogeoquímicos e segurança alimentar. Já a compostagem se apresenta como um verdadeiro experimento contínuo, no qual resíduos orgânicos passam por transformações físico-químicas mediadas por microrganismos, resultando em adubo rico em nutrientes.
Segundo a mediadora socioambiental Stefani Grutka, o objetivo é tornar a ciência acessível e aplicável. “Quando as pessoas acompanham o ciclo completo — do resíduo ao alimento — elas entendem, na prática, como pequenas ações têm impacto ambiental real”, destaca.
Compostagem como laboratório científico
Um dos núcleos mais relevantes do projeto é a área de compostagem, concebida como espaço de investigação e comparação de métodos. Diferentes sistemas estarão disponíveis simultaneamente, permitindo observar variáveis como tempo de decomposição, aeração, umidade e atividade biológica.
Entre os modelos implementados estão:
- leiras estáticas com aeração passiva (método UFSC), que exploram princípios de engenharia ambiental;
- composteiras domésticas em balde, voltadas à replicação em residências;
- minhocários com caixas empilháveis, que evidenciam o papel dos organismos decompositores;
- estruturas em tela metálica e madeira, que permitem variações no controle térmico e na oxigenação.
Esse conjunto transforma o espaço em um ambiente de ciência comparativa, onde visitantes podem analisar diferentes técnicas e compreender como fatores físicos e biológicos influenciam os resultados.
Além disso, a proposta prevê a evolução constante do espaço, com testes de novos métodos ao longo do tempo, reforçando o caráter experimental da iniciativa.
Arquitetura como ferramenta pedagógica
A ciência também está presente na forma como o espaço foi concebido. O projeto arquitetônico privilegia soluções sustentáveis e didáticas, utilizando materiais renováveis, estruturas leves e sistemas de drenagem e captação de água da chuva.
Mais do que abrigar atividades, a arquitetura organiza a experiência científica. Canteiros modulares permitem testar diferentes formas de cultivo, enquanto áreas flexíveis favorecem oficinas e experimentações coletivas.
A lógica é clara: o ambiente não apenas recebe o aprendizado — ele participa dele.
Integração entre ciência, cultura e comunidade
A Estação Cultivar integra uma programação anual com 19 atividades, incluindo oficinas, plantios coletivos, colheitas e experiências com PANCs (plantas alimentícias não convencionais), ampliando o repertório alimentar e científico dos participantes.
Os temas abordados vão desde compostagem e culinária sustentável até polinização com abelhas sem ferrão, conectando diferentes áreas do conhecimento, como biologia, química, agronomia e até antropologia alimentar.
Ao abrir suas atividades para escolas, famílias e instituições, o MEA reforça um modelo de ciência cidadã, no qual o conhecimento é construído de forma colaborativa e acessível.

Um museu que produz conhecimento
Com 64 mil metros quadrados, o MEA se consolida como um polo multidisciplinar que vai além da preservação da memória agrícola. A instituição atua como espaço de produção e difusão de conhecimento, integrando tecnologia, cultura e ciência em experiências imersivas.
A Estação Cultivar representa um avanço nesse sentido ao transformar sustentabilidade em prática científica cotidiana, mostrando que compreender o meio ambiente não depende apenas de teoria — mas de vivência, observação e experimentação.
Em um cenário global marcado por desafios ambientais, iniciativas como essa reforçam o papel da ciência como ferramenta essencial para a transformação social, começando pelo entendimento de algo simples e poderoso: o ciclo da vida.




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