Ilustrar não é hobby: a força profissional da ilustração em um mercado que ainda luta por reconhecimento
Entre Minas Gerais e São Paulo, artistas e especialistas defendem a valorização da profissão em um setor criativo que movimenta bilhões no mundo.
Ilustração do Professor Laqua A ilustração está presente em livros, revistas, campanhas publicitárias, materiais educacionais, jogos digitais, animações e embalagens. É uma linguagem visual que organiza ideias, constrói narrativas e influencia a forma como o público interpreta o mundo. Ainda assim, no Brasil, a profissão de ilustrador frequentemente enfrenta um estigma persistente: o de ser tratada como hobby ou atividade secundária.
Essa percepção contrasta com a realidade de um mercado global em expansão. Dados da UNESCO indicam que as indústrias culturais e criativas representam cerca de 3% do Produto Interno Bruto mundial, empregando mais de 30 milhões de pessoas. A ilustração faz parte desse ecossistema que conecta cultura, comunicação, educação e entretenimento.
Mesmo com esse impacto econômico e cultural, muitos profissionais relatam dificuldades em negociar contratos, estabelecer valores compatíveis com o trabalho e conquistar reconhecimento profissional.
Para o ilustrador e professor Guilherme Bevilaqua, conhecido artisticamente como Laqua, o problema não está na qualidade dos artistas brasileiros, mas na forma como a profissão ainda é percebida socialmente.
Com mais de 27 anos de atuação na área e mais de uma década como professor universitário em São Paulo, ele acompanha de perto a formação de novos ilustradores e as transformações do mercado criativo. Também é responsável pela criação da primeira pós-graduação lato sensu em Ilustração Infantil Autoral do país.
Segundo ele, existe uma confusão recorrente entre desenhar por prazer e exercer a ilustração como profissão.
“Existe uma confusão entre desenhar por prazer e atuar profissionalmente com ilustração. A atividade exige estudo contínuo, técnica apurada e entendimento de mercado. Não se trata de improviso”, afirma.
Para Laqua, o ilustrador não entrega apenas um desenho, mas uma solução visual capaz de comunicar conceitos, fortalecer marcas e construir imaginários.
“O ilustrador participa da identidade de empresas, da formação do imaginário infantil e da comunicação de projetos. É um trabalho que envolve pesquisa, narrativa e responsabilidade.”
Narrativa visual e subjetividade
Se a técnica é fundamental para o exercício da profissão, a construção de narrativa visual também ocupa um papel central no trabalho do ilustrador.
A artista visual, ilustradora e diretora de arte Bianca Marçal, que atua em Minas Gerais, destaca que a ilustração vai além da estética. Para ela, o principal diferencial da linguagem está na capacidade de contar histórias.
“A ilustração é diferente de um desenho que pode ter beleza técnica ou servir como estudo. Ela precisa sempre carregar uma narrativa.”
Em um contexto marcado pela avalanche de imagens digitais, a ilustradora observa que o excesso visual tornou o público mais atento ao que realmente comunica algo.
“Hoje estamos mais do que acostumados com imagens — na verdade, saturados delas. A ilustração tem a possibilidade de trazer a subjetividade do artista, algo que vai além da aparência.”
Essa dimensão autoral ganha ainda mais destaque em um período marcado pela popularização de imagens geradas por inteligência artificial. Embora a tecnologia produza resultados impressionantes do ponto de vista técnico, Bianca acredita que o público começa a perceber a diferença entre uma imagem automática e aquela construída a partir da experiência humana.
“A produção humana tem algo que nenhuma ferramenta consegue reproduzir totalmente: a intenção e até mesmo o erro criativo. Os experimentos e as tentativas fazem parte do processo e carregam valor.”
Muito além do traço
Para Bianca, uma boa ilustração nasce de decisões visuais que orientam a leitura da imagem: composição, cores, iluminação, estilo e ritmo visual.
“Uma ilustração não precisa ser complexa, mas precisa comunicar com clareza. Quando o artista consegue guiar o olhar do público, ele demonstra domínio do processo.”
Ela explica que a diferença entre desenho e ilustração está justamente nessa intenção narrativa.
“O desenho pode ser um estudo de linha, forma ou peso. Já a ilustração inclui contexto, direção de olhar e construção de cena.”
Outro elemento essencial para o trabalho do ilustrador é o repertório. E ele não se constrói apenas a partir de referências artísticas.
“As referências vêm também da própria vida. Observar as pessoas, o bairro, os gestos cotidianos. Esses momentos simples podem se tornar protagonistas de uma ilustração.”
Profissão, mercado e desafios contemporâneos
Apesar da relevância cultural e econômica da área, a desvalorização estrutural da profissão ainda é um desafio recorrente no Brasil.
Parte desse problema tem raízes históricas. Durante décadas, a arte foi associada à vocação pessoal ou ao talento individual, e não a uma atividade econômica estruturada. Com a popularização das redes sociais, a visibilidade dos artistas aumentou, mas também se fortaleceu a ideia de que qualquer pessoa que desenhe poderia atuar profissionalmente.
Nesse cenário, tanto Bianca quanto Laqua defendem que a valorização da ilustração passa por dois caminhos principais: formação e educação de mercado.
Para Laqua, é essencial que novos profissionais compreendam que trabalham com soluções de comunicação visual e não apenas com imagens decorativas.
Ao mesmo tempo, Bianca acredita que o mercado precisa compreender o tempo, o estudo e o processo envolvidos na criação de uma ilustração.
Um campo amplo de atuação
Outro equívoco comum é imaginar que a ilustração possui um único campo de atuação. Na prática, o mercado é vasto e diverso.
Ilustradores podem trabalhar com publicidade, livros infantis, revistas, materiais didáticos, charges, animação, jogos digitais e plataformas de bancos de imagens. As redes sociais também se tornaram um espaço importante para divulgar trabalhos autorais e construir audiência.
Para quem deseja seguir carreira, Bianca destaca que a primeira etapa é justamente compreender essa diversidade de caminhos possíveis.
“A ilustração está presente em muitos mercados diferentes. O importante é identificar qual área dialoga mais com o tipo de trabalho que o artista desenvolve.”
Ela também ressalta a importância das conexões profissionais.
“Nesta carreira, o famoso ‘QI — quem indica’ ainda faz muita diferença. Conhecer pessoas da área, participar de cursos, encontros e eventos pode abrir muitas portas.”
Reconhecimento ainda em construção
Embora o talento brasileiro seja amplamente reconhecido dentro e fora do país, consolidar o reconhecimento da profissão ainda é um desafio coletivo.
Reconhecer o ilustrador como profissional significa compreender que a imagem também educa, comunica e influencia comportamentos.
Em um mundo cada vez mais guiado por linguagens visuais, tratar a ilustração como passatempo é ignorar sua contribuição cultural e econômica.
Entre o traço e a narrativa, entre a técnica e a sensibilidade, o trabalho do ilustrador continua ajudando a construir imaginários — e, cada vez mais, reivindicando o espaço profissional que lhe pertence.





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