Adri Fernandes
Moda: de código de identidade a mero item de consumo
Uma brevíssima história do vestir
Moda é tendência. Tendência de comportamento de um grupo de pessoas em relação à vestimenta, acessórios, maquiagem, estilo de vida, entre outros. Especificamente em relação à vestimenta, é o jeito de se vestir em um determinado momento ou lugar, que cai no gosto popular. É código de vestimenta, o dress code, de uma época, um lugar, uma classe social.
O uso de roupas em tecido remonta há nove mil anos e elas prestavam-se, à identificação de grupos, evoluindo lentamente no decorrer da história. Assim, desde a Antiguidade, o vestuário, os calçados e a maquiagem determinam quem é a pessoa na comunidade, qual sua classe social e profissão, por exemplo. O que se usava determinava quem era nobre, quem era trabalhador, quem era político ou clérigo, quem era homem ou mulher, quem era “educada” e quem era prostituta, quem era escravo e quem era livre, etc. Falei um pouco sobre isso no texto sobre o vestir-se na Grécia Antiga.
Com o surgimento da burguesia, a partir do sec. XI, e seu rápido enriquecimento (em 300 anos possuíam mais riqueza que muitos nobres), as pessoas fora do âmbito da nobreza adquiriram capacidade de aquisição de produtos até então exclusivos da Corte. É quando o populacho sai da bolha e começa usar o que a nobreza consumia, gerando insatisfação nas classes sociais mais altas e burlando o código visual de distinção de classes. Isso era tão grave, foi necessária a edição de leis (leis suntuárias) que impunham limite ao consumo do luxo em geral (móveis e alimentos, inclusive), determinando também quem podia usar alguns tipos de tecido, evitando confusão entre os grupos sociais. Artesão não podia usar seda, camponês, apenas algodão rústico, e por aí afora.
A fim de deixar cada vez mais claro as barreiras sociais, a nobreza abandona o estilo tradicional de se vestir e passa a diversificar a vestimenta e os acessórios, para dificultar o acesso da burguesia. Mas alguns burgueses muito ricos, acabavam conseguindo imita-los e eles então inovavam mais uma vez. Os burgueses seguiam em seus calcanhares e nova tendência surgia. Esse movimento nos permite compreender porque, a partir do séc. XV, o estilo de vestuário dos mais ricos muda cada vez mais rápido. E para se firmar como um nobre na sociedade, para ser aceito pelo seu grupo social, era necessário seguir com rigor tais tendências.
Tudo isso ocorria na Europa e somente se espalhou pelo mundo a partir da colonização. Lembra das leis suntuárias que mencionei? No Brasil tivemos algo parecido. No séc. XVIII, a Coroa Portuguesa promulgou diversas leis para impedir que mulheres escravizadas utilizassem certos tecidos de luxo, após autoridades brasileiras reclamarem das escravas que se vestiam “como se brancas fossem”. É o que nos conta a Modista do Desterro, em vídeo que desmistifica a falsa ideia de que escravizados viviam aos farrapos (As piores fake news da história da moda).
Com o surgimento dos teares a vapor, no séc. XIX, os tecidos baratearam, tornando-se acessíveis às classes trabalhadoras. As máquinas de costuras são inventadas, o que populariza ainda mais o vestir. Foi quando a classe dominante desenvolve a alta costura (1860), peças artesanais e personalizadas, inacessíveis aos demais.
Nesse período, figuras de destaque da sociedade, a nova elite, como atrizes, cantoras e alguns indivíduos da já decadente nobreza passaram o ditar o bom gosto utilizando as “redes sociais” da época: posters, revistas, jornais e o cinema. As classes mais baixas tratavam de copiar seus ídolos, com a falsa ideia de pertencimento, gerando o consumismo e fazendo com que a moda deixe de ser signo de identidade e passe a ser símbolo de ostentação. O sucesso foi tanto que, ainda hoje, a indústria da moda utiliza influenciadores para vender para a classe média e trabalhadora o alcance a um glamour acessível, ainda que isso custe um endividamento absurdo.
De acordo com Pauline Kisner (A Modista do Desterro), moda não se resume a etiqueta e tendência de TikTok. Segundo ela, roupa é uma forma de comunicação que conta para o mundo quem você, no que você acredita e de que lugar você veio para dizer o que você diz.
Ao menos, deveria ser.



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