Adri Fernandes
Cada um vê o mundo (e o Carnaval) com os olhos que tem
Quem carnavalizou, carnavalizou, quem não carnavalizou, agora só em 2027
Carnaval 2026Moro em um dos principais corredores do Carnaval de Belo Horizonte. Quatro quarteirões em todo o entorno da minha casa são fechados para o cortejo dos blocos de rua. E eu, da janela, assistindo de camarote. Ano passado ainda desci e brinquei, mas esse ano, com a coluna mais ferrada que nunca, me preservei para o desfile na avenida.
Em todos esses anos, de camarote ou no chão, eu só vejo alegria, brincadeiras, gente só, gente em duplas, em grupos, confraternizando entre si e com estranhos. Tem beijo na boca? Tem. Tem pegação? Tem. Tem bebedeira? Oh, se tem. Também deve ter put@ria, mas aí eu já não vejo. Talvez porque esteja mais preocupada em observar aquilo que me agrada (mas fiquei sabendo de orgia babadeira no Floresta rs). E eu amo ver as pessoas fantasiadas, cantando, brincando, tanto adulto quanto crianças. Alguns bloquinhos infantis fazem a festa com a meninada e os pais, mas o que arrepia mesmo são os outros blocos que juntam multidões com todo tipo de música. Quer brega? Funk? Marchinhas? Rock? Axé? Pagode? Sertanejo? Tem, sim, senhor!
As escolas de samba e blocos caricatos são outro espetáculo! Pura história, aprendizado e memória. Desfilo pela Acadêmicos de Venda Nova, escola do grupo especial cujos sambas enredos são monumentos em homenagem à nossa Capital. É lindo!
Minha madrinha, Tequinha, morava no Rio e de seu apartamento víamos as luzes e o burburinho da Sapucaí. Isso há mais de 40 anos! Assistíamos ao desfile pela TV e, nos momentos mais emocionantes de cada escola, ela e minha mãe, dona Magali, iam pra janela e berravam o samba da agremiação que desfilava.Mesmo depois que Tequinha saiu do Rio, os desfiles da Sapucaí ainda fizeram a festa em nossa casa. Ainda hoje, do alto de seus 81 anos e sem a Tê, que já se foi, dona Maga vai pra frente da televisão cantar, dançar e assistir ao cortejo do grupo especial carioca.
Esse é o resumo do Carnaval que sempre vivi e vi.
Mas uma parcela da sociedade só vê idolatria, libertinagem e o Diabo. Ahhhh, o Diabo! Não adianta esclarecer, falar de cultura, de manifestações intelectuais, metem-lhe o hate. É o Diabo e ponto final.
Demônios, e o Satanás ou Diabo como seu Senhor, é uma invenção do Cristianismo. No Velho Testamento, não há a ideia de demônio como um ser maléfico, mas apenas de um opositor que inclusive atua sob ordens de Deus para testar os humanos. Foi no Novo Testamento que Satanás ganhou força e poder como um ser não humano, o inimigo de Deus, ou seja, ele não existe fora do contexto cristão. E o cristianismo foi descrito em grego.
O vocábulo diabo, diábolus em latim, deriva de diábolos (ou diávolos) do grego antigo, língua em que foi escrito todo o Novo Testamento. O diábolos grego não é um ser divino, é meramente um caluniador, um difamador, desagregador, aquele que dissemina maledicência. Por questões de manipulação e controle foi que, séculos mais tarde, ele ganhou a roupagem não humana de antagonista ao ser supremo, Deus. É notório que o controle se alimenta do medo (na vida e na religião).
Estou errada em concluir que o humano que vê libertinagem onde eu só vejo alegria, que vê idolatria onde eu vejo cultura e que impõe regras que afastam as pessoas ao invés de uni-las, é o próprio Diabo? Toda pessoa que vive de maldizer o que o outro faz é um Diabo. E tá tudo bem, porque nada nesse mundo se constitui de uma só faceta, somos o bem e o mal e tudo que existe entre um e outro, somos diversidade, multiplicidade.
Então, povo lindo, o diabo que habita em mim saúda o diabo que habita em vós! Quem carnavalizou, carnavalizou, quem não carnavalizou, agora só em 2027!




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