Dra. Michelle Coutinho
Direito de não gestar: até quando vão interferir em nossas escolhas?
Sobre o dirieto de fazer escolhas
A conquista dos direitos das mulheres é resultado de uma longa trajetória de lutas, resistências e transformações sociais. Durante séculos, as mulheres foram excluídas da vida política, econômica e educacional, sendo frequentemente limitadas ao espaço doméstico e privadas de autonomia sobre suas próprias vidas.
Apesar dos avanços, a efetivação das conquistas ainda não é plenamente exercida. As mulheres continuam enfrentando desigualdade salarial, sub-representação em cargos de poder, altos índices de violência física e psicológica e represália quando optam pela não geração de filhos.
Um exemplo muito presente atualmente e que ainda não é respeitado é o direito de não gestar.
Devido ao foco na carreira profissional, a liberdade de tempo e as dificuldades do mundo moderno, muitas mulheres estão dizendo não à maternidade. Contudo, como ainda estão associadas ao papel de mãe, as que descartam essa função, enfrentam críticas das mais absurdas.
Não é necessário recorrermos às pesquisas oficiais para concluirmos que o número de mulheres que não querem ter filhos tem aumentado. Basta conversar com uma amiga, prima ou vizinha, para que a resposta seja “não pretendo ter filhos”.
Embora o número de mulheres que abraçam a missão de dar à luz a outro ser tenha diminuído, a pressão para a geração de filhos e as duras críticas para quem opta por agir diferente, tem só aumentado.
Não é incomum ouvir ou ler que “toda mulher tem que ser mãe”, “que filho é o maior amor do mundo”, “que para se tornar alguém melhor é preciso ter filhos”, “que quem não quer ter filhos é uma mulher ruim e que não gosta de criança” e “quem vai cuidar de você quando envelhecer?”.
O pior é que muitas vezes as críticas vêm de outras mulheres. A cobrança às mulheres que decidem não engravidar é frequente e, por vezes, a decisão é interpretada como egoísmo.
Não escolher a maternidade não é egoísmo, mas é egoísta achar que toda mulher deve escolher o mesmo que você.
Já não somos tão provadas no exercício de nossas conquistas e direitos? Não seria hora de unir as mulheres com a missão de mãe com as que não têm o menor dom? Não somos todas mulheres? Não somos todas iguais?
Ser mãe não faz uma mulher melhor, nem mais capaz e nem mais privilegiada que a outra que preferiu não ser. São apenas escolhas e propósitos de vida diferentes.
Um “eu não quero ter filhos” é uma resposta que deveria bastar, não precisando de argumentos ou perguntas indesejadas para justificar a escolha.
Quantas mulheres conhecemos que têm filhos e são infelizes com a maternidade, ao passo que muitas mulheres sem filhos estão extremante felizes vivendo outro propósito de vida?
Nesse encerramento do mês da mulher, aplaudo de pé as nossas conquistas que, mesmo tímidas, se fazem presentes e clamo para que “o lugar da mulher seja onde ela quiser”, inclusive no lugar de não ser mãe.



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