Mayara Andrade: Do diagnóstico à remissão, uma voz pelo Outubro Rosa.
O câncer mudou sua rotina, seus planos e a maneira como enxergava o tempo, mas foi depois dos dias mais difíceis que Mayara descobriu algo que nenhuma previsão poderia revelar, a mulher que sairia do outro lado dessa história
Fotos: Esmirna e Eduardo da Triangle Produções Em remissão do linfoma de Hodgkin, Mayara Andrade revisita os dias em que teve medo de perder tudo e fala sobre fé, família, força e a nova mulher que nasceu depois do diagnóstico Existem momentos em que a vida parece seguir exatamente como planejamos, os dias passam, os projetos começam a ganhar forma, os sonhos encontram espaço na rotina e, de repente, uma notícia é capaz de mudar completamente a maneira como enxergamos o tempo. Foi assim para Mayara Andrade, que estava vivendo uma fase de mudanças profissionais, retomando planos que haviam ficado pelo caminho e construindo novos projetos quando o diagnóstico de um linfoma de Hodgkin fez com que o futuro, que antes parecia tão naturalmente disponível, passasse a ser visto de outra maneira.
Mayara sempre se enxergou como uma pessoa espontânea, prática e acostumada a lidar com os problemas da vida sem permitir que eles a definissem. Sua felicidade estava muito ligada às coisas que considerava essenciais, a família em primeiro lugar, os amigos, os momentos compartilhados e também as obras que realiza na igreja, espaço onde sua fé ocupa um lugar profundo, porque, para ela, Jesus sempre foi o maior amor de sua vida.
“A vida pra mim sempre foi muito simples e prática, claro que tinham os problemas, mas eu nunca deixei me abalar por nada”, conta.

Até então, havia planos, mudanças e caminhos que ainda seriam percorridos, mas o diagnóstico trouxe para perto uma possibilidade que ninguém gosta de encarar, a possibilidade de que talvez não houvesse tempo suficiente para viver tudo aquilo que ainda estava sendo sonhado.
Foi nesse momento que o pensamento da morte deixou de ser uma ideia distante e passou a ter uma presença concreta. Mayara conta que saber que estava doente foi muito difícil justamente porque, de uma hora para outra, seus planos pareciam poder desaparecer.
“A primeira coisa que passa pela nossa cabeça é o pensamento de morte”, revela, reconhecendo que saber que podemos ir embora deste mundo a qualquer momento ganha outro peso quando a doença deixa de ser uma possibilidade abstrata e passa a fazer parte da própria realidade.
E talvez uma das partes mais dolorosas daquela experiência tenha sido perceber que o tratamento não afetaria apenas sua saúde, mas também a relação que ela tinha consigo mesma, com seu corpo, sua rotina e a própria sensação de identidade. Durante o tratamento, ela deixou de ter as mesmas forças, precisou desacelerar e viu sua vida assumir um ritmo completamente diferente daquele ao qual estava acostumada. Era como se tivesse ficado parada enquanto tudo ao redor continuava acontecendo, e essa sensação de não conseguir ser exatamente quem era antes acabou se tornando uma das marcas mais profundas daquele período.
“A parte mais dolorosa pra mim foi não ter a sensação de ser eu mesma”, conta Mayara.
Mayara procurava permanecer firme diante das pessoas que amava, tentava seguir em frente e, emocionalmente, acredita que conseguiu atravessar muita coisa com uma força que talvez nem soubesse que possuía, embora soubesse que existiam sentimentos que somente ela e Deus conheciam. Foi especialmente durante a radioterapia que essa força foi colocada à prova. Houve dias em que o cansaço e o sofrimento chegaram a um ponto em que Mayara precisou implorar a Deus por forças, dias em que pensou que talvez não conseguisse continuar caso precisasse enfrentar novamente aquilo que estava vivendo.
“Houveram dias de eu implorar a Deus para ter forças porque não aguentava mais”, lembra.

A vontade de desistir apareceu, e admitir isso também faz parte da honestidade de sua história, porque falar sobre força depois de uma doença não significa apagar os momentos em que ela faltou, significa reconhecer que, mesmo quando parecia não existir mais nada para oferecer, alguma coisa dentro dela encontrava um pouco mais para seguir. O que a manteve de pé, segundo Mayara, foi primeiro a fé em Deus e, depois, a força e a companhia da família e dos amigos.
E foi assim, entre dias difíceis e pequenos avanços, entre medo e esperança, que Mayara atravessou uma etapa que hoje consegue olhar de outra perspectiva, a perspectiva de quem chegou à remissão e descobriu que voltar a viver também significa reaprender a olhar para a própria vida.
Ela mesma reconhece que não é mais a mulher de um ano atrás, e talvez seja impossível passar por uma experiência tão profunda sem que alguma coisa dentro de nós se transforme. “Com certeza não sou a mesma pessoa de um ano atrás”, afirma. Mayara não acredita que alguém precise passar por uma doença para aprender uma lição, porque ninguém deveria precisar conhecer a dor de um câncer para perceber o valor da própria existência, mas reconhece que aquilo que viveu fortaleceu sua fé e revelou uma força que antes talvez estivesse escondida em algum lugar que ela ainda não conhecia.
Depois do diagnóstico, o tempo também ganhou outro significado. A rotina corrida, os compromissos, os projetos e tantas preocupações que pareciam importantes passaram a dividir espaço com uma percepção muito mais simples sobre o que realmente merece atenção. Mayara passou a perceber com mais intensidade como podemos passar grande parte da vida correndo atrás de coisas superficiais enquanto as pessoas que amamos estão ao nosso lado, esperando apenas um pouco da nossa presença, do nosso tempo e do nosso olhar. Para ela, a experiência trouxe uma nova percepção sobre a importância de parar, olhar ao redor e valorizar as pessoas que fazem parte da nossa vida.
“Passei a entender que a vida realmente é muito passageira”, diz Mayara, refletindo sobre tudo o que mudou depois da doença.
Essa mudança talvez seja uma das heranças mais profundas que o tratamento deixou, a capacidade de reconhecer valor onde antes a pressa não permitia enxergar. Estar com a família ganhou ainda mais significado, os amigos passaram a ser percebidos também pela presença nos dias difíceis e cada possibilidade de fazer planos voltou a ter um sabor diferente, porque quando o amanhã deixa de parecer garantido, o hoje passa a ocupar um espaço muito maior.
Estar em remissão também trouxe perguntas para as quais Mayara não encontra respostas definitivas. Ela se pergunta o que existe de especial em sua história para que hoje possa estar aqui, bem e feliz, enquanto tantas outras pessoas tiveram caminhos diferentes diante da mesma doença.
“O que será que eu tenho de especial para conseguir vencer e estar aqui hoje da maneira que estou, bem e feliz?”, questiona.

Sua resposta está na fé, na compreensão de que existem planos que não conseguimos entender e talvez nunca conseguiremos, e na escolha de não transformar essa ausência de respostas em culpa ou comparação.
“Nós não entendemos os planos de Deus e nunca iremos entender”, afirma.
Ao falar sobre as pessoas que partiram durante essa luta, Mayara faz questão de enxergá-las com o mesmo carinho com que fala sobre a própria trajetória. Para ela, quem não conseguiu chegar à remissão não foi mais fraco, tampouco diferente dela, cada pessoa viveu sua própria história e, dentro daquilo em que acredita, aqueles que partiram também cumpriram seus propósitos e hoje estão nos braços de Jesus.
Mayara entende que ainda tem muito a aprender, muitas experiências para viver e muitas histórias para trocar com quem continua enfrentando essa batalha, e talvez seja justamente por isso que escolheu transformar a própria experiência em uma mensagem para outras pessoas.
Falar sobre o que viveu passou a ser também uma forma de alcançar quem está no meio do tratamento, principalmente aquelas pessoas que, em algum momento, acreditam que já não têm força suficiente para continuar. Mayara sabe que não existe uma frase capaz de tornar um processo como esse mais fácil, mas existe algo que ela gostaria que cada pessoa pudesse lembrar nos dias em que tudo parecer pesado demais, a força pode aparecer justamente quando acreditamos que ela acabou, e às vezes o que parece ser o último pedaço de coragem ainda é suficiente para atravessar mais um dia.
Por isso, ela fala sobre não ter pressa de terminar o processo, sobre viver um dia de cada vez e permitir que cada etapa seja atravessada no seu próprio tempo, carregando a esperança de que existe vida para além do momento mais difícil.
“Viva um dia após o outro, não tenha pressa de passar pelo processo, o processo precisa ser passado e vencido”, aconselha.

Sua mensagem nasce de quem esteve ali, de quem conheceu o medo, sentiu o corpo mudar, perdeu as próprias forças em alguns momentos e ainda assim encontrou motivos para continuar.
Hoje, Mayara olha para sua história com gratidão, mas também com consciência de tudo o que ela significou. A remissão não apaga os dias difíceis, as noites de medo, os momentos em que parecia impossível suportar mais um pouco, tampouco transforma o câncer em uma experiência bonita, mas permite que ela enxergue o quanto a vida pode ser preciosa quando finalmente percebemos que não temos controle sobre a duração dos nossos dias, apenas sobre a maneira como escolhemos vivê-los.
E talvez seja por isso que sua história encontre tanto sentido em uma edição que fala sobre mulheres, cuidado, saúde e vida. Mayara não representa apenas alguém que recebeu um diagnóstico e chegou à remissão, ela representa todas as mulheres que, em algum momento, precisaram se reconhecer novamente depois de uma experiência que mudou seus corpos, suas rotinas, seus planos e a maneira como enxergavam o futuro.
Existe uma Mayara antes do câncer e existe outra depois dele, mas entre as duas não existe apenas uma doença, existe uma mulher que precisou descobrir novas formas de permanecer inteira enquanto tudo parecia desmoronar ao redor. Uma mulher que teve medo, que chorou, que pediu forças, que pensou em desistir e que encontrou, na fé e no amor das pessoas que estavam ao seu lado, motivos para continuar caminhando.
Agora, em remissão, ela pode voltar a fazer planos, imaginar novos caminhos e olhar para o futuro com uma liberdade que durante algum tempo pareceu distante. E talvez essa seja a parte mais bonita de sua história, depois de passar tanto tempo tentando encontrar forças para sobreviver a cada dia, Mayara voltou a ter a possibilidade de pensar nos dias que ainda virão.
Para quem está vivendo essa luta agora, ela deixa uma mensagem que não vem de alguém que observa de fora, mas de quem conhece a dor por dentro.
“Não desista, junte todas as suas forças e mesmo quando você achar que não tiver mais, você vai encontrar mais um pouquinho”, diz Mayara.
Chegarão dias em que talvez pareça impossível continuar, mas, para ela, é justamente nesses momentos que é preciso se manter firme e seguir, mesmo que seja apenas mais um passo.
“Continue, porque vai valer a pena”, afirma, levando para outras pessoas a esperança que um dia também precisou encontrar para si mesma.

Mayara Andrade chegou à remissão, mas sua história não termina aqui. Depois do medo, existe a vida, depois da pausa, existem novos planos, depois dos dias em que parecia impossível continuar, existe a possibilidade de recomeçar. E, agora, cada novo dia carrega para ela um significado que talvez só quem esteve tão perto de perder tudo consiga compreender, estar viva também é uma forma de agradecer.





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