Da crise à criação: a história de Nathalia Souza e da NUR
O que começou como uma forma de atravessar um período difícil se transformou em um negócio estruturado, construído com aprendizado, estratégia e o desejo de criar momentos de pausa em uma rotina cada vez mais acelerada
Gerada por IA A história da NUR Velas Artesanais começa antes das velas. Em 2017, Nathália Souza deu os primeiros passos no empreendedorismo com uma loja de produtos místicos. A proposta, naquele momento, não era necessariamente construir uma empresa, mas compartilhar conhecimentos que faziam parte de sua vida.
Ela trabalhava com ervas voltadas para diferentes finalidades e encontrou naquele espaço uma maneira de transmitir conhecimento para uma comunidade que se formava ao seu redor. “Eu queria transmitir esse conhecimento para que as pessoas usassem no dia a dia”, conta.
As vendas começaram a acontecer e alcançaram clientes de diferentes partes do Brasil. Nathália tinha presença nas redes sociais e chegou a vender produtos do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Mas, apesar dos resultados, ainda não havia uma estrutura empresarial por trás da atividade.
A mudança veio com a pandemia.
Quando os planos desmoronaram
Nathália havia feito um investimento significativo em estoque para participar de uma grande feira. O evento acabou cancelado com a chegada da pandemia, e parte do valor investido não foi recuperada.
De repente, ela se viu com produtos armazenados em casa, muitos deles sujeitos a vencimento, enquanto o país entrava em lockdown.
“Eu me vi quebrada, eu me vi com um estoque de coisas que vencem na minha casa, vi todo mundo de lockdown”, relembra.
O impacto financeiro foi acompanhado por um período pessoal extremamente delicado. Foi nesse contexto que Nathália começou a fazer terapia e, durante pesquisas no Pinterest, encontrou nas velas artesanais algo que despertou sua atenção.
As primeiras ideias ficaram apenas no campo da vontade. Mais tarde, conversando com uma conhecida que já produzia velas, conseguiu indicação de um curso e começou a estudar.
O curso serviu como ponto de partida, mas boa parte do conhecimento foi construída na prática.
Um ano para aprender antes de vender
Diferentemente da primeira experiência empreendedora, Nathália decidiu que não começaria imediatamente a comercializar as velas. Durante aproximadamente um ano, dedicou-se a testar, estudar e aperfeiçoar a produção.
O caminho foi marcado por erros e descobertas. Começou utilizando parafina, mas percebeu que o material não estava alinhado aos seus princípios ambientais. Depois, experimentou cera de soja e identificou outros problemas relacionados às características do produto e às velas coloridas.
Até chegar à cera de coco, matéria-prima que utiliza atualmente.
“Foi um período de muito aprendizado”, resume.
A experiência também despertou nela o desejo de compartilhar conhecimento. Nathália passou a participar de grupos de WhatsApp voltados à produção artesanal, ajudando outras pessoas com dúvidas e compartilhando informações sobre fornecedores.
Antes de transformar a produção em negócio, porém, as velas permaneceram dentro de um espaço pessoal: eram feitas para sua própria casa e para amigos.
Foi também uma fase de testes literalmente intensos. Em meio ao aprendizado, ela conta que chegou a colocar fogo na casa duas vezes. Felizmente, sem consequências graves.
A terapia que ganhou forma
A produção artesanal acabou assumindo um papel importante durante o processo de recuperação emocional de Nathália.
O trabalho manual proporcionava concentração e tranquilidade, tornando-se uma espécie de terapia ocupacional. Mesmo depois que as velas se transformaram em negócio, essa característica permaneceu.
Mas a transição entre hobby terapêutico e empresa não aconteceu de uma hora para outra.
O incentivo para começar a vender de maneira mais estruturada veio também de seu psiquiatra, que percebeu que um modelo de trabalho mais flexível poderia fazer sentido para sua realidade.
Em experiências profissionais anteriores, Nathália chegou a precisar apresentar atestados médicos de longos períodos. O empreendedorismo oferecia algo que o modelo tradicional de trabalho não conseguia proporcionar: a possibilidade de organizar a rotina de acordo com seus momentos de energia e necessidade de descanso.
“Num dia que eu estivesse mal ou em crise, eu poderia parar e falar: não, hoje eu vou descansar. Nos dias que eu tenho energia, são os dias que eu produzo muito”, explica.
Foi a partir desse incentivo que as velas deixaram de ser apenas uma atividade terapêutica e passaram a ser encaradas como possibilidade de negócio.
De artesanato a empresa
A experiência anterior ensinou Nathália que vender um produto não era suficiente. Dessa vez, ela queria construir uma empresa.
Formada em Design e já familiarizada com conceitos de marketing e empreendedorismo, decidiu buscar conhecimento adicional. Procurou o Sebrae e também passou a participar de cursos e consultorias do Instituto de Empreendedorismo para a Maturidade (IPPE).
Nesse processo, vieram conhecimentos sobre tráfego pago, planejamento, organização e estratégias de marketing. Até mesmo a inteligência artificial passou a fazer parte da rotina, principalmente como ferramenta de organização e planejamento de campanhas.
A profissionalização também chegou à formalização. Depois de um período inicial de funcionamento informal, Nathália decidiu abrir o CNPJ e estruturar a NUR como uma empresa.
A mudança de mentalidade foi fundamental.
“Tudo que eu faço na NUR, eu penso com um olhar muito diferente. Eu penso com um olhar mais estratégico. A NUR é um negócio”, afirma.
Das feiras para uma marca
As feiras tiveram papel importante nessa construção. Embora algumas experiências tenham sido difíceis — inclusive com eventos em que não conseguiu vender praticamente nada —, foi nesses encontros presenciais que Nathália percebeu algo fundamental: os clientes voltavam.
A repetição das compras mostrou que havia valor real no produto.
Ela passou a observar que pessoas que conheciam a NUR em uma feira retornavam meses depois para comprar novamente. Para Nathália, esse comportamento foi uma confirmação da qualidade das velas e também uma oportunidade de entender melhor o consumidor.
“Eu fui entendendo o tanto de valor que tem ali, o tanto de qualidade”, conta.
A escolha das matérias-primas passou a ser parte essencial desse cuidado. Essências, ceras, embalagens e acabamento são pensados para oferecer uma experiência que vá além do simples ato de acender uma vela.
O desejo de desacelerar
Foi também através das feiras que Nathália percebeu uma necessidade presente na vida de muitas pessoas: a busca por momentos de descanso.
Ela começou a enxergar a vela como parte de pequenos rituais cotidianos. Acender uma vela para assistir a uma série, ler um livro ou simplesmente desacelerar tornou-se, para ela, uma representação daquilo que o produto pode proporcionar.
“As pessoas querem esse momento de conexão, de relaxamento. Elas precisam disso. Está todo mundo muito cansado.”
Essa percepção ajuda a explicar a proposta da NUR: criar produtos que estejam presentes nesses momentos de pausa e bem-estar.
Quando o produto passa a carregar responsabilidade
Transformar uma atividade terapêutica em empresa também mudou a relação de Nathália com as velas.
Hoje, existe uma responsabilidade que antes não estava presente. Não basta que a vela seja bonita e tenha um aroma agradável. Ela precisa ser produzida com qualidade, ter uma boa apresentação e chegar ao consumidor acompanhada das orientações necessárias para uma utilização segura.
As instruções de segurança, segundo Nathália, estão entre as partes mais importantes da experiência que entrega ao cliente.
Também existe a preocupação com o impacto ambiental e com a escolha das matérias-primas.
Ao mesmo tempo, o processo manual continua proporcionando uma sensação de tranquilidade. A produção permanece como um espaço de concentração e terapia ocupacional, ainda que agora esteja inserida dentro de uma rotina empresarial.
A diferença é que hoje Nathália precisa equilibrar o prazer de produzir com as responsabilidades de uma empreendedora.
A coragem construída no caminho
Olhar para a Nathália de 2017 é olhar para uma pessoa que ainda não sabia exatamente onde aquela primeira experiência empreendedora iria levá-la.
Hoje, a trajetória é marcada por uma série de aprendizados: o prejuízo de um negócio sem planejamento, o impacto de uma pandemia, o processo de reconstrução pessoal, um ano dedicado ao aprendizado das velas, a profissionalização, a formalização da empresa e a descoberta de um público que reconhece valor no trabalho artesanal.
Se pudesse conversar com a Nathália daquele início, ela diz que contaria sobre a coragem que adquiriu ao longo do caminho.
A NUR nasceu de uma fase difícil, mas não ficou definida por ela. Transformou aprendizado em produto, conhecimento em estratégia e um processo pessoal de reconstrução em uma marca.
Hoje, cada vela carrega não apenas cera, aroma e acabamento. Carrega também uma história sobre recomeço — e sobre a possibilidade de transformar uma pausa em um novo caminho.





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