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Brasil,17/09/2026

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    Aline Costa

    16 - A vida não precisa dar certo.

    Em algum momento, confundimos amadurecer com aprender a fazer a vida funcionar, quando talvez amadurecer seja também descobrir que algumas coisas simplesmente não precisam funcionar o tempo inteiro.

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    16 - A vida não precisa dar certo. Imagem gerada por IA

    Existe uma imagem de vida que fomos aprendendo a construir quase sem perceber, uma espécie de promessa silenciosa de que, se fizermos as escolhas certas, compreendermos nossas feridas, encontrarmos nosso propósito, aprendermos a estabelecer limites e desenvolvermos uma relação mais consciente conosco, chegará finalmente um momento em que alguma coisa dentro de nós irá se acomodar e a vida passará a fazer sentido. Talvez seja essa expectativa que torne algumas jornadas tão cansativas, porque começamos a observar a nós mesmos como uma obra em permanente reforma, sempre procurando aquilo que ainda precisa ser corrigido, compreendido ou transformado, como se cada insegurança fosse um sinal de que ainda não chegamos a algum lugar e cada momento de fragilidade revelasse que existe uma versão melhor de nós esperando para aparecer.

    Foi olhando para a natureza que comecei a desconfiar dessa lógica, porque existe algo profundamente diferente na maneira como ela atravessa seus próprios ciclos. Uma árvore não passa o ano inteiro tentando permanecer florida para provar que está saudável, não interpreta o inverno como uma falha de percurso e não precisa encontrar uma justificativa para o momento em que suas folhas começam a cair. Ela simplesmente atravessa suas estações, floresce quando é tempo de florescer, oferece seus frutos quando chega a hora, perde aquilo que precisa perder e permanece durante os períodos em que aparentemente nada está acontecendo, enquanto nós, seres humanos, tantas vezes olhamos para nossas próprias fases como se precisássemos apresentar um resultado para cada uma delas.

    Talvez seja por isso que tenhamos tanta dificuldade com aquilo que não conseguimos transformar rapidamente em alguma coisa bonita. Quando estamos confiantes, produtivos, inspirados e emocionalmente disponíveis, reconhecemos com facilidade aquela versão de nós mesmos como uma boa fase, mas quando chegam o cansaço, a insegurança, a dúvida ou aqueles períodos em que não sabemos exatamente o que estamos fazendo, surge quase imediatamente a necessidade de entender o que está errado, encontrar uma causa, buscar uma solução e, se possível, sair dali melhores do que entramos. Fomos aprendendo a considerar aceitável aquilo que se aproxima da ideia de equilíbrio e perfeição, enquanto tudo aquilo que revela nossa desordem interna parece precisar ser explicado, corrigido ou ressignificado.

    Talvez uma parte dessa cobrança tenha vindo justamente da maneira como aprendemos a falar sobre autoconhecimento. Existe algo muito bonito na possibilidade de olhar para dentro, compreender a própria história e construir uma relação mais consciente com aquilo que sentimos, mas essa busca pode se tornar outra forma de exigência quando começa a ser apresentada como um caminho que necessariamente nos levará a uma versão definitiva de nós mesmos, aquela pessoa que finalmente conhece o próprio valor, não se deixa abalar, sabe exatamente o que quer, não volta aos mesmos medos e consegue permanecer segura de si independentemente das circunstâncias. É uma imagem sedutora porque oferece a sensação de chegada, como se depois de determinadas descobertas finalmente pudéssemos descansar, mas talvez seja justamente aí que nasça uma das maiores frustrações, porque continuamos humanos mesmo depois de compreender muitas coisas sobre nós.

    Eu mesma demorei para perceber o quanto essa expectativa poderia ser dolorosa. Durante muito tempo, pensei que, se realmente me conhecesse, algumas inseguranças deixariam de existir, que se tivesse aprendido a me amar determinados medos não voltariam e que, depois de encontrar dentro de mim um lugar de segurança, eu finalmente deixaria de experimentar aquela sensação de dúvida que tantas vezes me acompanhou. Só que a vida continuou acontecendo, trouxe novas situações, novas responsabilidades, mudanças, perdas, descobertas e também dias em que voltei a me sentir insegura, e foi justamente nessa repetição aparentemente contraditória que comecei a compreender que talvez amadurecer não tenha relação com eliminar aquilo que nos fragiliza, mas com desenvolver uma relação menos hostil com a nossa própria humanidade.

    Uma insegurança pode continuar existindo sem significar que todo o trabalho anterior foi perdido, assim como um período de cansaço não apaga tudo aquilo que construímos enquanto estávamos fortes. Podemos conhecer nossos valores e ainda ter dúvidas, podemos amar profundamente uma vida e atravessar momentos em que não sabemos exatamente como continuar, podemos nos sentir inteiros em determinado período e, algum tempo depois, perceber que estamos novamente tentando compreender quem estamos nos tornando. Talvez a maturidade esteja justamente em não transformar cada oscilação em uma sentença sobre quem somos, permitindo que determinadas experiências permaneçam abertas pelo tempo necessário para que possam ser compreendidas, em vez de exigir que tudo tenha imediatamente um significado, uma resposta ou uma lição.

    A natureza parece compreender isso com uma naturalidade que nós perdemos em algum momento. Para os outros seres vivos, a sobrevivência não precisa ser transformada em uma narrativa de superação, a escassez não precisa produzir uma frase bonita, o medo não precisa ser vencido para que a vida continue e a mudança não precisa ser entendida antes de acontecer. Há períodos de abundância e períodos de falta, crescimento e recolhimento, ameaça e descanso, nascimento e morte, e tudo isso pertence ao mesmo movimento. Uma árvore não precisa florescer durante o inverno para continuar sendo uma árvore, assim como nós talvez não precisemos estar emocionalmente bem o tempo inteiro para continuarmos sendo quem somos.

    Talvez o que nos dificulte seja justamente a necessidade de escolher quais estações queremos permitir dentro de nós. Gostamos da primavera porque ela combina com a imagem de crescimento que aprendemos a admirar, mas temos dificuldade em aceitar o outono, quando algumas coisas começam a cair, e ainda mais dificuldade com o inverno, quando não conseguimos enxergar aquilo que está acontecendo por baixo da superfície. Queremos a transformação, desde que ela seja bonita, queremos amadurecer, desde que o processo não nos confronte novamente com aquilo que julgávamos já ter superado, queremos nos aceitar, desde que aquilo que encontremos em nós seja suficientemente confortável para ser acolhido, e talvez seja justamente essa condição que nos afaste de uma aceitação mais verdadeira.

    Porque talvez aceitar a própria humanidade também signifique admitir que existem dias em que não teremos a resposta certa, fases em que estaremos cansados, momentos em que uma antiga insegurança poderá reaparecer e situações em que precisaremos simplesmente atravessar aquilo que está acontecendo sem saber ainda o que essa experiência irá produzir em nós. Nem toda dor precisa imediatamente se transformar em aprendizado, nem toda perda precisa revelar um propósito oculto e nem todo período difícil precisa terminar com uma versão mais forte, mais consciente ou mais evoluída de quem somos. Algumas coisas simplesmente acontecem, deixam marcas, modificam nossa percepção e seguem conosco de alguma maneira, enquanto outras desaparecem lentamente, e talvez exista uma sabedoria silenciosa em não tentar transformar tudo em uma conclusão.

    É estranho perceber o quanto fomos ensinados a desejar uma vida sem contradições, como se estar bem significasse finalmente conseguir organizar todas as partes de nós mesmos em uma narrativa coerente, quando talvez uma existência verdadeiramente humana seja justamente aquela que comporta simultaneamente coisas que parecem incompatíveis. Podemos estar agradecidos e cansados, confiantes e inseguros, felizes e preocupados, certos de uma escolha e ainda assim sentir medo das consequências, amar profundamente quem somos e continuar desejando mudar algumas coisas, e nenhuma dessas experiências precisa necessariamente cancelar a outra.

    Talvez seja por isso que eu já não queira encontrar uma versão definitiva de mim mesma. Existe alguma liberdade em compreender que continuarei mudando, que determinadas inseguranças podem voltar em outras circunstâncias, que alguns sonhos podem perder o sentido enquanto outros surgem onde eu não esperava, e que talvez eu nunca consiga me sentir completamente pronta para todas as coisas que a vida ainda irá colocar diante de mim. Isso não significa abandonar o desejo de crescer, cuidar de mim ou compreender minhas escolhas, significa apenas deixar de transformar cada fase da minha vida em uma prova de que estou avançando ou retrocedendo.

    Afinal, uma pessoa não é uma fotografia tirada no momento em que finalmente se sente bem consigo mesma, somos mais parecidos com uma paisagem atravessada pelo tempo, pelas mudanças, pelas relações, pelas perdas, pelos encontros e por tudo aquilo que acontece enquanto ainda estamos tentando compreender o que estamos vivendo. Algumas coisas permanecem, outras desaparecem, algumas retornam de maneiras diferentes e outras só conseguem ser compreendidas muitos anos depois, quando já estamos longe o suficiente para perceber que também fomos transformados por elas.

    Talvez seja aí que exista uma forma mais tranquila de amadurecer, não na tentativa de construir uma vida em que tudo esteja permanentemente no lugar, mas na possibilidade de atravessar aquilo que sai do lugar sem concluir imediatamente que perdemos a nós mesmos. Talvez possamos aprender com a natureza justamente essa confiança no movimento, entendendo que existem períodos em que crescer significa expandir e outros em que crescer significa recolher, que há momentos para agir e outros para esperar, que algumas coisas precisam florescer enquanto outras precisam cair, e que nenhuma dessas fases precisa carregar sozinha a responsabilidade de definir quem somos.

    Hoje, quando penso em tudo aquilo que durante tanto tempo tentei organizar dentro de mim, percebo que talvez eu estivesse procurando uma espécie de garantia contra a própria vida, como se compreender suficientemente a mim mesma pudesse impedir que eu voltasse a sentir medo, dúvida ou insegurança. Só que nenhuma compreensão nos coloca fora da experiência humana, e talvez o verdadeiro amadurecimento esteja justamente em perceber que não precisamos sair dela, precisamos apenas aprender a habitá-la com um pouco mais de gentileza.

    A vida continuará tendo dias que fazem sentido e outros que parecerão completamente fora de ordem, haverá momentos em que estaremos cheios de coragem e outros em que precisaremos reunir forças para fazer aquilo que antes parecia simples, e talvez tudo isso possa existir sem que precisemos transformar cada oscilação em um problema a ser resolvido. Afinal, uma vida não precisa ser perfeitamente organizada para ser uma vida inteira, assim como uma árvore não deixa de ser árvore quando perde suas folhas.

    Talvez a questão nunca tenha sido fazer a vida dar certo o tempo inteiro, mas descobrir se conseguimos continuar presentes enquanto ela acontece, com suas mudanças, suas perdas, seus intervalos, suas belezas inesperadas e também tudo aquilo que não se parece com a imagem que um dia aprendemos a chamar de vida ideal.



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