O problema não é a inteligência artificial, é a falta de maturidade para usá-la
Entre discursos de inovação e uso superficial, empresas ainda falham em transformar IA em estratégia real — e especialistas como Larissa Mota alertam para a ausência de preparo estrutural
Canva A inteligência artificial deixou de ser uma tendência distante para se tornar presença constante no ambiente corporativo. Hoje, ela aparece em reuniões estratégicas, campanhas de marketing, apresentações institucionais e debates sobre o futuro do trabalho. Ferramentas generativas e soluções automatizadas passaram a simbolizar modernidade, eficiência e competitividade. Mas, apesar do entusiasmo crescente, existe uma diferença significativa entre falar sobre IA e realmente incorporá-la de forma madura às operações das empresas.
É justamente sobre essa contradição que a advogada e empresária Larissa Mota chama atenção. Especialista em Relações Trabalhistas e Sindicais e fundadora da Exímia, empresa voltada para terceirização de folha de pagamento e gestão de benefícios, Larissa defende que o maior obstáculo da inteligência artificial não está na tecnologia em si, mas na incapacidade das organizações de utilizá-la de forma estratégica, integrada e responsável.
Segundo ela, muitas empresas vivem uma espécie de “encenação da inovação”. Testam ferramentas, implementam chatbots ou automatizam tarefas isoladas, mas sem preparo estrutural suficiente para transformar essas iniciativas em ganho real de produtividade ou inteligência operacional.
O cenário global reforça essa percepção. Embora a inteligência artificial esteja cada vez mais presente nos discursos corporativos, o uso contínuo ainda é limitado dentro das empresas. Em muitos casos, o acesso à tecnologia chegou antes da compreensão sobre como utilizá-la com profundidade. O resultado é uma adoção superficial, marcada mais pela necessidade de parecer atualizada do que por uma transformação efetiva.
Larissa aponta que essa desconexão acontece por três fatores principais: baixa maturidade digital, falta de capacitação e ausência de integração entre sistemas. Sem processos organizados, dados estruturados e equipes preparadas, qualquer iniciativa baseada em IA tende a permanecer isolada, funcionando apenas como ferramenta acessória.
“No ambiente corporativo, existe uma ansiedade muito grande em demonstrar inovação. Mas inovação sem estrutura vira apenas discurso”, analisa.
No Brasil, essa realidade se torna ainda mais evidente. Muitas organizações começaram a explorar recursos de inteligência artificial recentemente, mas ainda de maneira fragmentada. Em vez de integrar a tecnologia ao centro da operação, acabam utilizando soluções pontuais que não dialogam entre si nem produzem impacto sustentável no negócio.
Para Larissa, o problema não está na capacidade da IA, mas na dificuldade das empresas em enfrentar seus próprios gargalos internos. “A inteligência artificial exige organização, clareza de processos e maturidade de gestão. Sem isso, ela apenas acelera problemas que já existiam”, afirma.
A facilidade de acesso às ferramentas também contribui para uma falsa sensação de evolução. Hoje, qualquer profissional consegue utilizar plataformas generativas em poucos minutos, o que cria a impressão de que a empresa já está inserida em uma nova era tecnológica. Porém, incorporar inteligência artificial de forma séria exige mais do que experimentação: requer governança, treinamento, integração e visão de longo prazo.
Nesse contexto, Larissa Mota surge como uma das vozes que defendem uma discussão mais racional sobre o tema. Em vez de tratar a IA como fórmula mágica, ela propõe uma reflexão sobre preparo organizacional, responsabilidade e capacidade de adaptação. Para ela, a pergunta mais importante deixou de ser “o que a inteligência artificial pode fazer?” e passou a ser “o que as empresas realmente conseguem fazer com ela?”.
A resposta, segundo a especialista, ainda revela um mercado em construção. Enquanto muitas organizações continuam investindo mais em narrativas de inovação do que em transformação concreta, a inteligência artificial seguirá limitada ao discurso — distante do potencial revolucionário que tanto promete entregar.




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