Aline Costa
O que eu precisei curar para conseguir liderar.
Empreender me mostrou que nenhuma estratégia é capaz de sustentar aquilo que ainda não encontramos equilíbrio dentro de nós.
Durante muito tempo eu acreditei que empreender era sobre aprender técnicas. Fazia sentido pensar assim. Afinal, passamos anos ouvindo sobre estratégias, liderança, gestão, marketing, vendas, planejamento e produtividade. Tudo isso é importante. Mas, olhando para trás, percebo que a maior parte dos meus desafios nunca esteve nas ferramentas. Estava em mim.
Com o passar dos anos, entendi que nenhum negócio cresce além da maturidade de quem o conduz, e essa foi uma das lições mais difíceis que precisei aprender. Quando comecei minha jornada empreendedora, acreditava que bastava me dedicar, estudar e trabalhar duro. Mas a vida foi me mostrando que liderar pessoas exige muito mais do que conhecimento técnico. Exige autoconhecimento.
Porque, por mais que tentemos separar a vida pessoal da profissional, a verdade é que carregamos quem somos para todos os lugares. Nossos medos aparecem nas decisões que tomamos, nossas inseguranças aparecem na forma como nos comunicamos, nossas feridas aparecem nos conflitos que enfrentamos e nossos valores aparecem na forma como escolhemos liderar.
Ao longo da construção da Revista Salto, percebi que meu trabalho nunca foi apenas administrar um projeto. Eu precisei aprender sobre pessoas. Precisei compreender sonhos, expectativas, frustrações, inseguranças e diferentes formas de enxergar o mundo. Precisei desenvolver diplomacia quando surgiam divergências, ter firmeza sem perder a sensibilidade, ouvir quando a vontade era responder e acolher quando a situação exigia compreensão. Muitas vezes, também precisei encontrar equilíbrio entre aquilo que era melhor para o projeto e aquilo que era melhor para as pessoas.
Talvez tenha sido nesse processo que compreendi que liderar não é controlar, mas inspirar. Não é ocupar o centro das atenções, mas criar espaço para que outras pessoas também possam brilhar.
Ao longo dessa caminhada, tive a oportunidade de acompanhar profissionais que chegaram à revista buscando experiência e descobriram talentos que ainda não conheciam em si mesmos. Vi pessoas desenvolverem a escrita, a comunicação, a fotografia, o audiovisual, a liderança e até mesmo a confiança para ocuparem lugares que antes pareciam distantes. E, curiosamente, enquanto elas cresciam, eu também crescia, porque toda vez que ajudamos alguém a evoluir, somos transformados no processo.
Mas nem tudo foram acertos. Cometi erros, muitos deles. Já tomei decisões precipitadas, já confiei em pessoas que não compartilhavam dos mesmos valores, já investi energia em situações que não deveriam ter recebido minha atenção e já tentei resolver tudo sozinha. Talvez uma das maiores armadilhas tenha sido acreditar, em alguns momentos, que eu precisava carregar o peso de tudo.
Hoje entendo que crescimento saudável acontece quando existe confiança. Quando aprendemos a delegar, quando oferecemos autonomia e quando deixamos que cada pessoa assuma seu protagonismo. Nenhuma construção relevante acontece sozinha.
A Revista Salto existe porque muitas pessoas decidiram acreditar em um propósito comum, e propósito tem uma força que aprendi a respeitar profundamente. As pessoas podem até se aproximar por uma oportunidade, mas permanecem quando encontram significado.
Por isso, ao longo dos anos, passei a olhar para além dos currículos, das habilidades técnicas e das experiências profissionais. Passei a observar valores, caráter e a forma como cada pessoa trata as outras quando ninguém está olhando. E isso mudou completamente a maneira como construo relacionamentos e parcerias.
Outra lição importante foi entender que o empreendedorismo não acontece apenas no plano material. Existe um lado humano que muitas vezes não aparece nas planilhas. Existe um lado emocional. Existe aquilo que sentimos quando entramos em determinados ambientes ou nos conectamos com determinadas pessoas.
Aprendi a respeitar minha intuição. Aprendi a observar sinais. Aprendi que nem toda oportunidade precisa ser aceita e que nem toda parceria precisa ser mantida.
Nem sempre foi fácil compreender isso. Mas a experiência foi me mostrando que, quando estamos desalinhados internamente, o reflexo aparece em tudo ao nosso redor.
Hoje continuo aprendendo, continuo errando, continuo ajustando rotas e continuo descobrindo novas versões de mim mesma.
Mas existe uma certeza que a vida me deu.
Empreender nunca foi apenas sobre negócios. É sobre pessoas, propósito e crescimento. E, principalmente, sobre quem nos tornamos enquanto construímos aquilo que sonhamos.
Talvez, no fim das contas, o verdadeiro sucesso não esteja apenas nos resultados que alcançamos. Talvez ele esteja na capacidade de crescer sem perder a essência, de liderar sem perder a humanidade e de abrir caminhos para que outras pessoas também possam dar os seus próprios saltos.
E essa continua sendo uma das construções mais bonitas que a vida me permitiu viver.




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