Dani Lobato
A mulher multitarefa
Mulher sustentando mais do que dá contaMultitarefa ou excesso de funções?
Durante muito tempo, a ideia de que a mulher é naturalmente multitarefa foi tratada quase como uma qualidade. Como se conseguir responder uma mensagem enquanto prepara o jantar, pensar no trabalho enquanto acompanha a tarefa do filho e lembrar do aniversário da mãe no meio de uma reunião fosse uma habilidade especial. Eu mesma já acreditei muito nisso.
Hoje, gosto de olhar para essa ideia de outro lugar. Não sei se somos mulheres que nasceram capazes de fazer muitas coisas ao mesmo tempo ou se aprendemos a administrar funções demais dentro de um dia que continua tendo as mesmas 24 horas.
Casa, trabalho, filhos, relacionamento, pais, compromissos, atividade física, vida social. E ainda existe tudo aquilo que nem sempre aparece na agenda: lembrar, organizar, antecipar, acompanhar, resolver. Muitas vezes, não estamos apenas fazendo uma coisa enquanto pensamos em outra. Estamos tentando manter uma série de coisas funcionando ao mesmo tempo.
O chamado multitarefismo tem um custo. O cérebro precisa de atenção para realizar uma tarefa e, quando passamos rapidamente de uma atividade para outra, essa atenção também precisa ser reorganizada. Essa alternância constante aumenta o esforço mental, dificulta a concentração e pode contribuir para aquela sensação tão conhecida de chegar ao fim do dia tendo feito muita coisa e, ainda assim, sentir que não foi suficiente.
E existe uma parte dessa história que não cabe facilmente em uma lista de tarefas: a carga mental.
Não é apenas preparar o jantar depois de um longo dia, que muitas vezes começou bem antes de o trabalho começar. Tem a louça, a organização da casa para o dia seguinte, os filhos, o marido, as mensagens que ficaram sem resposta, o que precisa ser comprado, o compromisso marcado para amanhã, a preocupação com os pais e uma série de pequenas decisões que continuam ocupando espaço na cabeça enquanto o corpo tenta simplesmente terminar o dia.
Esse trabalho quase invisível também consome energia. E, quando ele passa despercebido até pela própria mulher, aparece uma pergunta que parece simples, mas nem sempre é: “Mas você está cansada de quê?”
A resposta dificilmente está em uma única tarefa.
Existe o esforço de lembrar, prever, organizar, decidir, alternar, resolver e continuar. Existe também a cobrança pelo que ficou para depois, pelo que não saiu como planejado e pelo que poderia ter sido feito melhor. Assim, até um dia cheio de realizações pode terminar acompanhado daquela sensação incômoda de que ainda faltou alguma coisa.
Nem sempre é possível retirar responsabilidades da rotina. Há mulheres que realmente precisam cuidar da casa, dos filhos, dos pais, do trabalho e de tantas outras pessoas. Mas observar a maneira como estamos tentando sustentar tudo isso pode revelar muito sobre o preço desse funcionamento.
Quanto do nosso dia é ocupado por urgências? Quantas vezes passamos de uma tarefa para outra sem realmente concluir nenhuma delas? O que acontece quando fazemos uma coisa já pensando na seguinte? E o que fica de fora quando passamos tanto tempo resolvendo aquilo que não pode esperar?
Talvez algumas respostas estejam em coisas bem menos grandiosas do que imaginamos. Parar de transformar uma tarefa incompleta em prova de incompetência, por exemplo, já muda a relação com o próprio dia. Nem tudo precisa sair perfeito para ter sido bem feito, assim como deixar alguma coisa para amanhã não significa que hoje tenha sido insuficiente.
Reconhecer esse limite não elimina as responsabilidades nem faz a rotina ficar magicamente mais leve. Mas pode abrir espaço para uma percepção diferente: existe uma distância entre dar conta do que a vida exige e viver permanentemente tentando dar conta de tudo.
No fim do dia, a pergunta pode deixar de ser apenas quantas coisas conseguimos fazer e incluir também quanto esforço foi necessário para manter tudo funcionando, o que esse esforço tem produzido no corpo e na atenção e se ainda existe espaço para nós dentro de uma rotina tão ocupada em cuidar de tudo. Será que aprendemos a chamar de habilidade aquilo que, na verdade, é excesso de funções?



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