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Brasil,18/06/2026

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    Aline Costa

    Talvez eu nunca tenha procurado respostas.

    Durante anos pensei que minha busca era por explicações. Hoje suspeito que ela sempre foi por compreensão.

    Imagem por IA
    Talvez eu nunca tenha procurado respostas.

    Durante muito tempo, as pessoas me descreveram como alguém distraída. Eu mesma acreditei nisso. Era comum ouvirem meu nome mais de uma vez antes que eu percebesse que estavam falando comigo. Frequentemente me perdia em pensamentos no meio de conversas, esquecia detalhes do cotidiano e tinha dificuldade em manter a atenção em assuntos que não despertavam meu interesse. Em alguns momentos, isso afetava minha concentração, meu aprendizado e minha capacidade de absorver o mundo da forma como pareciam esperar de mim.

    Por muitos anos imaginei que o problema fosse falta de atenção. Hoje penso diferente, eu não estava prestando pouca atenção, estava prestando atenção em coisas diferentes. Desde muito nova, carregava uma sensação difícil de explicar, não era tristeza, não era medo, também não era exatamente solidão, era algo mais profundo e silencioso, uma espécie de desconforto diante da própria existência, como se eu estivesse vivendo uma experiência para a qual nunca havia recebido um manual de instruções. Enquanto outras pessoas pareciam simplesmente habitar a vida, eu passava boa parte do tempo tentando compreendê-la. Talvez tenha sido aí que tudo começou.

    Enquanto o mundo seguia seu ritmo natural, minha mente vagava por perguntas que eu sequer sabia formular completamente. Eu me perguntava sobre as pessoas, sobre o tempo, sobre a consciência, sobre o que significava existir e sobre essa sensação persistente de estranhamento que me acompanhava desde muito cedo. Era como se existisse uma pergunta silenciosa vivendo dentro de mim antes mesmo de eu ter idade para entendê-la, Por isso eu parecia distraída, mas a verdade é que eu estava profundamente absorvida por pensamentos, reflexões e por uma inquietação que, durante muitos anos, não soube nomear. Enquanto a realidade acontecia ao meu redor, uma parte de mim permanecia mergulhada em um universo interno intenso, tentando compreender algo que parecia sempre escapar quando eu acreditava estar perto de alcançar.

    Essa inquietação me acompanhou por tanto tempo que, em diferentes momentos da vida, tentei compreendê-la através dos caminhos mais tradicionais. Passei por diversas abordagens terapêuticas, diferentes profissionais e inúmeros processos de investigação. Consultei psiquiatras, psicólogos e especialistas que buscavam encontrar uma explicação para aquilo que eu relatava sentir. Em determinado momento, cheguei a ser internada para acompanhamento e testes de medicações, na esperança de que existisse uma resposta capaz de aliviar aquilo que carregava desde a infância.

    Ao longo dessa trajetória, recebi diferentes hipóteses diagnósticas. Bipolaridade, transtorno de personalidade borderline, TDAH, suspeitas relacionadas ao espectro autista, síndrome do pânico, ansiedade generalizada, depressão e outras possibilidades surgiram em diferentes momentos da minha história. Cada profissional observava uma parte da experiência, cada abordagem oferecia uma interpretação, cada diagnóstico parecia tentar organizar algo que, para mim, continuava maior do que qualquer definição.

    Não questiono a importância dessas ferramentas, muitas delas me ajudaram a compreender aspectos de mim mesma e algumas foram fundamentais em períodos difíceis da minha vida. Mas, mesmo depois de anos de acompanhamento, tratamentos, medicações e tentativas sinceras de encontrar respostas, permanecia uma sensação difícil de traduzir… Era como se todos estivessem tentando dar um nome à minha experiência, enquanto eu continuava tentando compreender algo que parecia existir antes dos nomes… Talvez algumas explicações estivessem certas, outras quem sabe, incompletas. As vezes, todas descrevessem fragmentos de uma realidade maior… O fato é que, independentemente dos rótulos, existia uma pergunta que permanecia intacta dentro de mim.

    Com o passar dos anos, comecei a perceber que essa mesma inquietação moldava a forma como eu observava o mundo. Talvez por sentir tão profundamente a própria experiência de existir, eu tenha desenvolvido uma atenção especial para tudo aquilo que existia ao meu redor. Os silêncios das pessoas, os detalhes que passavam despercebidos, as emoções escondidas atrás das palavras e até mesmo a beleza silenciosa das coisas mais simples começaram a chamar minha atenção de uma forma quase involuntária, foi quando compreendi que a distração que viam em mim talvez fosse, na verdade, uma forma diferente de atenção.

    Enquanto muitos enxergavam apenas uma árvore balançando ao vento, eu me perdia observando sua dança. Enquanto alguns viam apenas uma nuvem atravessando o céu, eu acompanhava sua trajetória como quem observa uma história sendo contada. Enquanto uma conversa acontecia, muitas vezes eu percebia aquilo que estava sendo dito sem palavras apenas no olhar e nas expressões que as pessoas entregavam involuntariamente, não porque possuo respostas, mas porque aprendi a observar, talvez tenha sido justamente a observação que me salvou.

    Depois de anos tentando resolver aquela dor, comecei a contemplá-la. Parei de exigir uma explicação definitiva e passei a observá-la da mesma forma que observo uma tempestade chegando, uma árvore se movendo ao vento ou um céu mudando de cor ao final da tarde. A dor não desapareceu e as perguntas também não, mas algo mudou na forma como me relaciono com elas.

    Hoje entendo que nem toda experiência humana pode ser completamente explicada. Vivemos em uma época que valoriza respostas rápidas, mas algumas das coisas mais profundas que já senti jamais vieram acompanhadas de explicações, simplesmente estavam ali, por isso eu continuo observando e contemplando.

    Não espero encontrar verdades definitivas, existe uma beleza singular em contemplar a vida enquanto ela acontece. Uma beleza discreta, silenciosa e muitas vezes invisível para quem está sempre com pressa, é justamente aí que eu encontrei alguma paz: Na capacidade de permanecer diante das minhas dores, sem precisar fugir.

    Porque algumas experiências não vieram para ser resolvidas… Vieram apenas para ser sentidas.




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