Efeito #Loquinha: Bombom viral de Três Graças faz marca vender o equivalente a 'três Natais' em um dia

Na noite da última segunda-feira (1), a advogada e empreendedora Michelle Kallas, de 40 anos, estava em um compromisso pessoal, longe da televisão. 40 minutos depois, ao checar o celular, deparou-se com mais de 100 mensagens não lidas e um turbilhão de notificações. Sem saber, sua marca, a Mica Crafted Chocolates, havia acabado de ganhar o "horário nobre": uma caixa de seus bombons pintados à mão foi destaque em um momento importante da novela das 21h da TV Globo, 'Três Graças'.
Na cena, a personagem Lorena (Alanis Guillen) recebe uma caixa de bombons de sua pretendente, Juquinha (Gabriela Medvedovsky). O casal, que deu origem ao "ship" Loquinha, viralizou (inclusive internacionalmente) e ajudou a dar projeção aos doces da Mica Crafted Chocolates. "Não foi orgânico, a gente não sabia. Comecei a abrir as mensagens e estava todo mundo falando: 'Meu Deus, os chocolates apareceram na novela'. Só descobri pelos memes e mensagens", conta Kallas, em entrevista a PEGN.
O impacto foi imediato. No dia seguinte à exibição, a operação de delivery da marca registrou um pico de vendas atípico para o início de dezembro.
"O fechamento de ontem foi mais ou menos três vezes as vendas de um dia de Natal, que já costuma ser três vezes maior que um dia comum", revela a fundadora.
O item que viralizou na trama foi a caixa "dupla", com 32 unidades, vendida a R$ 450. Na cena, a personagem de Alanis Guillen se refere aos doces como veganos — uma licença poética da trama, uma vez que a caixa exibida continha a linha tradicional da marca. "Muita gente ficou impactada com o valor, tivemos memes dizendo que a personagem 'investiu real', mas também gerou muita curiosidade de pessoas de outros estados querendo provar", afirma.
A Mica Crafted Chocolates nasceu em 2018, fruto de uma transição de carreira. Kallas atuou por dez anos na área jurídica antes de trocar os tribunais por um ateliê na Vila Madalena, em São Paulo. O negócio começou com recursos próprios ("dinheiro do meu bolso que economizei durante anos") e sem sócios.
A proposta sempre foi a união de estética e sabor: bombons com design artístico, pintados à mão, usando chocolate belga e ingredientes como baunilha de Madagascar. "Desde o início foquei muito na qualidade. O crescimento foi no boca a boca; as pessoas achavam bonito, gostavam do sabor e presenteavam. Foi um movimento cíclico que fez a marca crescer naturalmente, sem investimentos em marketing no início", diz.
O crescimento, porém, trouxe desafios logísticos. Durante a pandemia, a produção, que ocupava salas comerciais em um prédio na Rua Purpurina, em Pinheiros, começou a incomodar vizinhos devido ao fluxo intenso de motoboys e mercadorias. "Fomos meio que convidados a nos retirar", relembra Kallas.
Michelle Kallas, fundadora da Mica Crafted Chocolates
Divulgação
A "expulsão" impulsionou a profissionalização. Hoje, a marca opera uma loja de fábrica (com café) em Pinheiros e um quiosque no Shopping JK Iguatemi, além de um e-commerce que atende todo o Brasil.
Atualmente, a Mica conta com cerca de 45 funcionários fixos — número que quase dobra com temporários em datas sazonais como Páscoa e Natal. A produção é complexa: cada bombom leva cerca de três dias para ficar pronto, passando por etapas de pintura, confecção da casca, recheio e cristalização.
"Nossa fábrica nunca para, temos turnos de 24 horas. Às 4 da manhã tem gente trabalhando. Produzimos cerca de 20 mil bombons por semana", explica a empreendedora.
A complexidade do produto reflete no preço e no comportamento do consumidor. Kallas detalha que o tíquete médio varia drasticamente conforme o canal de venda. Nas lojas físicas, onde o cliente consome um café e um doce, o gasto médio é de R$ 80. Já no delivery, o valor salta para R$ 250.
"Atribuo essa diferença ao frete. Na loja, a pessoa prova um bombom. Quando pede em casa, como o frete é mais caro, ela acaba pedindo mais itens, seja para presente ou consumo próprio", analisa. O faturamento é equilibrado: um terço vem das lojas físicas, um terço do delivery e um terço de vendas corporativas (brindes personalizados para empresas).
Apesar da euforia com a exposição na TV Globo, Kallas mantém a cautela. A marca aproveitou o buzz momentâneo criando um cupom de desconto ("Juquinha10") e interagindo nas redes sociais, mas a estratégia de longo prazo permanece inalterada.
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"Sou uma pessoa muito pé no chão, gosto de dar passos seguros. Essas viralizações são plásticas; o sucesso vem e vai rápido. Não vou mudar meu planejamento em detrimento disso", afirma.
Para 2026, o foco é resolver o gargalo produtivo. A empresa já alugou um novo espaço em Pinheiros para centralizar estoque e escritório, e o próximo passo é migrar a produção para um galpão maior. "Minha capacidade produtiva hoje é pequena para a demanda, os produtos esgotam. O objetivo é ter um galpão central para abastecer as lojas e, quem sabe, abrir mais uma ou duas unidades", projeta Kallas.




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