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Brasil,28/06/2026

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    14 pontos para enxergar oportunidades e ajustar o rumo da sua empresa para atravessar 2026

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    14 pontos para enxergar oportunidades e ajustar o rumo da sua empresa para atravessar 2026


    Planejar está além do opcional: é algo absolutamente necessário. Toda empresa que quer crescer – e não ser pega de surpresa – precisa olhar desde já para 2026. Neste segundo semestre, muitos empreendedores começam a traçar metas e definir os caminhos para alcançá-las. O compromisso com a sustentabilidade da organização deve ser redobrado.
    Explica-se: o próximo ano promete ser turbulento. Conflitos no Oriente Médio; guerra na Ucrânia; tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ainda perdura sobre alguns produtos brasileiros; câmbio instável, juros elevados e risco de nova alta da inflação formam um cenário que pode corroer margens, encarecer insumos, travar investimentos e dificultar o acesso ao crédito. “Diante de uma economia que deve crescer menos de 2%, as companhias precisam dimensionar de forma realista suas possibilidades de avanço”, afirma Eduardo Menicucci, professor da Fundação Dom Cabral (FDC).
    A palavra de ordem é preparo. Urge considerar diferentes cenários, mapear riscos e buscar alternativas para manter o negócio de pé. Quem se adaptar com maior velocidade terá também mais chance de transformar ameaças em oportunidades. A seguir, você confere 15 respostas a perguntas decisivas para orientar as decisões estratégicas no ano que vem.
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    CENÁRIO MACROECONÔMICO
    1. De que forma posso adaptar o planejamento financeiro à taxa de juros, sem saber se ela irá permanecer em patamares altos ou será reduzida?
    “Uma taxa de juros de 15% ao ano somada ao aumento do IOF [Imposto sobre Operações Financeiras, cobrado em câmbio, crédito e investimentos] é um complicador para o empreendedor”, afirma Guilherme Dietze, assessor econômico da FecomercioSP.
    “Mas há uma tendência de inflação abaixo de 4,5% no segundo trimestre do ano que vem, e o Banco Central pode promover uma redução da taxa de juros para estimular a produtividade”, pondera. Se isso ocorrer, o ambiente passa a ser favorável para investimentos em expansão, inovação e modernização, já que as linhas de crédito tendem a ficar mais acessíveis. Para quem tem dívidas, será também uma oportunidade de negociar em condições mais vantajosas. “Isso trará um alívio para o orçamento dos empresários”, diz.
    Diante desse cenário, ele recomenda acompanhar não apenas a taxa de juros, mas também outros indicadores relevantes: o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal medidor da inflação no país, que reflete a variação de preços de uma cesta de bens e serviços e impacta diretamente a Selic (taxa básica de juros), e o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M), usado sobretudo para reajuste de aluguéis.
    Por outro lado, se houver alta de juros, a melhor forma de se proteger é constituir desde já uma reserva financeira. Isso reduz a necessidade de recorrer a crédito caro, garante capital de giro para despesas fixas – como folha de pagamento e fornecedores – e dá mais tranquilidade para lidar com imprevistos, como aumento de insumos ou atrasos de clientes.
    2. Qual é o impacto do aumento no IOF na necessidade de capital de giro?
    O ajuste anunciado pelo governo federal em maio praticamente dobra as alíquotas. Para negócios enquadrados no Simples Nacional, a taxa passou de 0,88% ao ano para 1,95% em operações acima de R$ 30 mil. Já para as demais empresas, subiu de 1,88% para 3,5%. Isso torna a busca por crédito difícil e onerosa.
    O impacto vai além dos empréstimos. Contratações de seguros empresariais – como os voltados ao transporte de cargas ou de equipamentos – ficarão com valores mais altos, elevando os custos fixos. O consumo também será afetado, já que compras parceladas ou pagas com cartão de crédito terão incidência maior de IOF.
    “O capital de giro estará mais caro em 2026”, diz Márcio Iavelberg, CEO da consultoria Blue Numbers. “O dono de uma grande empresa repassará esse aumento para o consumidor, mas o de uma pequena terá dificuldade para isso.” O resultado serão margens mais apertadas e menor fôlego financeiro.
    Como o IOF encarece o dinheiro, a tendência é que planos de crescimento sejam adiados ou limitados. O especialista recomenda rever estratégias, explorar novos mercados, conquistar clientes e investir em produtos e serviços de maior valor agregado.
    Caso não haja alternativa e o empréstimo seja inevitável, indica-se reduzir o peso do tributo no caixa. Isso pode ser feito por meio de linhas especiais para pequenos negócios – como as do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), das cooperativas de crédito ou de fintechs –, que geralmente oferecem condições mais vantajosas que os bancos tradicionais. Também é válido negociar prazos maiores de carência, permitindo gerar receita antes do início dos pagamentos.
    3. Vale prever a tomada de crédito em 2026?
    Buscar crédito em meio a juros elevados e instabilidade internacional sempre envolve risco. Como a expectativa para 2026 inclui margens mais apertadas, é fundamental avaliar a capacidade de pagamento e os efeitos do empréstimo nos custos financeiros. Pagar dívidas precisa ser prioridade, já que elas comprometem a saúde da empresa, a credibilidade no mercado e o potencial de crescimento.
    Na ausência de débitos, a tomada de recursos precisa ser pontual – para aproveitar descontos, financiar uma expansão com retorno rápido ou investir em inovação que aumente a competitividade. “Se o ganho for maior do que o custo que ele vai pagar, vale a pena”, explica Iavelberg, da Blue Numbers. “Mas o empresário tem que avaliar as taxas de juros, levar em conta que o IOF incidirá sobre o empréstimo, e estar atento às taxas bancárias, entre elas as de análise de crédito.”
    Com a economia instável, as instituições financeiras tendem a ser mais restritivas, encarecendo o dinheiro. Diante desse quadro, uma alternativa é reduzir a alavancagem – ou seja, depender menos de recursos de terceiros para fortalecer a segurança do negócio. Isso pode significar quitar ou reduzir dívidas, evitar novos empréstimos desnecessários e ampliar o capital próprio, seja por aportes dos sócios, seja por reinvestimento dos lucros. Crescer com recursos internos garante mais autonomia e estabilidade.
    4. Quais impactos o ano eleitoral pode trazer ao negócio e que ações adotar para minimizá-los?
    O eleitor brasileiro se prepara para ir às urnas em 2026 em meio a uma polarização que gera alta tensão. A política influencia diretamente a economia, a tributação e a confiança do mercado. “Isso provoca instabilidade, que é a pior realidade para pequenas empresas enfrentarem”, afirma Samuel Barros, reitor do Ibmec RJ e especialista em finanças. “Nessas condições, ele pode fazer um planejamento que corre o risco de não acontecer na prática. É algo que foge das suas mãos.”
    Mudanças de governo podem fragilizar a economia, aumentar a dívida pública, manter juros elevados, levar bancos a adotarem critérios mais rigorosos na concessão de crédito – restringindo o capital de giro – e até alterar o comportamento do consumidor.
    Entre os caminhos para se proteger estão considerar um planejamento financeiro mais conservador e redobrar os cuidados com as finanças. “Fazer uma reserva de caixa protege o dono do negócio de surpresas, como potenciais aumentos de impostos”, orienta. Dependendo da situação da empresa, vale reavaliar projetos e investimentos previstos para 2026 e ajustar estratégias. Quem planeja tomar empréstimo pode considerar antecipar a operação ainda neste ano, para obter condições mais favoráveis.
    Outra medida importante é acompanhar o noticiário político. Isso permite reagir rapidamente a mudanças em regulamentações, subsídios e impostos, além de adaptar preços, rever estoques, ajustar o quadro de funcionários ou diversificar fornecedores.
    Fonte: Banco Central do Brasil
    PEGN
    COMÉRCIO EXTERIOR E GEOPOLÍTICA
    5. O contexto internacional recomenda diversificação de fornecedores?
    Ter mais de um parceiro comercial é essencial em qualquer empresa, mesmo em períodos de estabilidade. Em tempos de incerteza, com eventos como a guerra entre Rússia e Ucrânia, a crise no Oriente Médio, as tensões entre China e Estados Unidos e o tarifaço, essa estratégia se torna ainda mais crucial. Ao diversificar suas fontes de suprimento, a empresa reduz o risco de interrupção no abastecimento, evita dependência de preços e prazos de entrega, se protege contra variações cambiais e ainda ganha poder de negociação.
    “É possível que ocorra um reordenamento comercial, pois o mundo acabou ficando muito dependente da China, seja para vender ou comprar, o que impõe a necessidade de buscar fontes alternativas de fornecimento até mesmo em outros mercados”, afirma Menicucci, da Fundação Dom Cabral.
    A vulnerabilidade não vem apenas da geopolítica. Qualquer elo da cadeia pode enfrentar dificuldades financeiras, ser atingido por desastres naturais, reduzir a qualidade da matéria-prima para cortar custos, sofrer falhas na produção, limitar investimentos em inovação ou ser impactado por entraves fiscais e trabalhistas. Situações como essas comprometem entregas e podem paralisar empresas que dependem de um único fornecedor.
    Alguns mercados já despontam como boas alternativas. No Sudeste Asiático, a Indonésia, a Tailândia e o Vietnã têm atraído companhias que buscam reduzir a dependência chinesa. A Índia investe pesado em infraestrutura e tecnologia. Na América Latina, o Chile, a Colômbia e o México aparecem como polos de soluções digitais. “Não temos o hábito de olhar para os nossos vizinhos aqui da América do Sul, o que é um erro”, diz ele. “O Peru, por exemplo, inaugurou recentemente um megaporto em parceria com a China para exportação de produtos pelo Oceano Pacífico, possibilitando novas rotas e oportunidades.”
    6. Diante das incertezas sobre tarifas de exportação, vale refazer os planos de vender para o exterior?
    Exportar continua viável, mas exige ajustes para preservar contratos. “Em boa parte dos casos, o empreendedor deve tentar conversar com seus clientes estrangeiros para não perdê-los, mesmo que para isso precise aceitar uma margem menor”, afirma Menicucci. Não é fácil para as pequenas e médias empresas abrirem espaço no exterior, “e reconquistá-lo é ainda mais difícil”. Recomenda-se oferecer uma redução de preços e negociar para que o comprador absorva parte do impacto. Quando o cenário mudar, os valores poderão ser revistos.
    Tanto exportadores de itens acabados quanto de partes e insumos precisam avaliar suas estratégias, observa ele. “Seja qual for a realidade da empresa, é hora de buscar mais pontos de fornecimento e novos clientes.”
    ESTRATÉGIA CONTRA TARIFAS
    Para driblar a taxação de 50%, Eliana Tameirão transferiu toda a produção da Soul Fibra para os EUA
    Divulgação
    A decisão norte-americana de elevar tarifas de importação mudou radicalmente os planos da Soul Lab, de Belo Horizonte (MG). Criada em 2023, a startup lançou uma bebida funcional à base de fibras, vitaminas e sais minerais. Para driblar a taxação de 50%, os fundadores, Eliana Tameirão, 60 anos, e Maurício Esteves, 55, transferiram toda a produção para os Estados Unidos.
    Fabricar e distribuir a partir de lá não apenas evitou o tarifaço, como também abriu as portas do mercado externo, graças às conexões comerciais do novo parceiro. O que seria uma atuação restrita ao Brasil agora se expande para os EUA e, em breve, para a Europa.
    Tameirão afirma que não abandonará o mercado interno, mas reconhece que o potencial internacional cresceu. “Um dos quatro grandes investidores globais está em processo de namoro com a gente e nos avaliou em R$ 4 milhões”, diz.
    Batizada de Soul Fibra, a bebida ganhou força com seu diferencial: estimula o funcionamento do intestino, reduz inflamações e auxilia na cicatrização de pequenas lesões, sem renunciar ao sabor. O lote inicial de 16 mil unidades superou as expectativas, e a meta é alcançar 450 mil até 2026, com vendas no site da empresa e em lojas de suplementos alimentares a R$ 14,70 cada uma.
    INOVAÇÃO E COMPETITIVIDADE
    7. Quais mudanças recentes nos hábitos de consumo devem entrar no radar em 2026?
    O comportamento de compra dos brasileiros mudou de forma significativa após a pandemia, e essas transformações seguirão em 2026. Entre elas estão a busca por experiências personalizadas, a valorização de marcas comprometidas com causas socioambientais, a predileção crescente por compras online e entregas rápidas – de preferência no mesmo dia –, o desejo por conveniência e a expectativa de atendimento multicanal. “Cada vez mais, as pessoas estão migrando para o online, e o empreendedor precisa estar disponível no ambiente digital para não perder vendas”, afirma Dietze, da FecomercioSP. “Se você comprar um presente para o Dia das Mães ou dos Pais e ele não for entregue no prazo certo, o cliente não comprará mais no futuro.”
    Competir com grandes empresas consolidadas torna-se um desafio maior para as de menor porte. Uma saída é se associar a plataformas coletivas de e-commerce. Apesar das taxas, comissões e tarifas de publicidade, o empreendimento ganha visibilidade, elimina custos de manter loja física e se beneficia de campanhas de marketing, promoções e parcerias com transportadoras que dão mais agilidade. “O consumidor não vai olhar para o pequeno negócio com sentimento de pena e comprar dele por conta disso”, diz o especialista. “Busque os marketplaces, exponha seu produto para um público maior, atenda outras regiões do país, torne sua marca mais conhecida e dispute a preferência das pessoas.”
    No varejo físico, não há grandes mudanças além das já consolidadas. Quem vai até uma loja quer ver o produto, tocar e experimentar. Muitas vezes tenta negociar preço. Como a pesquisa prévia em sites se tornou hábito, o cliente chega informado. Por isso, o espaço precisa ser atrativo, bem cuidado e iluminado, com vendedores preparados para esclarecer dúvidas. Quem vende não pode saber menos do que quem compra.
    Fonte: Nielseniq, Empresa Global de Inteligência de Mercado
    PEGN
    SOLUÇÕES PARA VENDER MAIS
    Os irmãos Irwin (à esq.) e Rafael Gomes, criadores do software Fazer Orçamento
    Samuel Esteves
    A digitalização dos hábitos de consumo também atinge a forma como os pequenos negócios se relacionam com seus clientes. Orçamentos improvisados em planilhas simples já não transmitem a credibilidade necessária para conquistar vendas em um mercado cada vez mais competitivo.
    Foi observando essa demanda que os irmãos Irwin e Rafael Gomes, 31 e 33 anos, respectivamente, criaram em 2021 a Fazer Orçamento, um software para elaboração de propostas comerciais com apresentação profissional.
    A plataforma inclui modelos customizáveis de recibos e tabelas de preços, atualizáveis a qualquer momento, além de assinatura eletrônica. “Desde a pandemia, as empresas têm buscado tecnologias que permitam maior agilidade, qualidade e otimização desses processos”, diz Irwin. “Promovemos um salto importante na credibilidade e na velocidade da elaboração dos orçamentos, que são feitos em até dez minutos, o que aumenta a taxa de aprovação.”
    Hoje, mais de 6 mil empresas utilizam a solução, especialmente as com até dez funcionários – as que mais enfrentam dificuldades, inclusive pela falta de letramento digital dos donos. “As grandes buscam softwares mais complexos e para demanda B2B”, afirma.
    “Cerca de 40% dos nossos usuários não têm o ensino médio e precisam de ajuda.” Por isso, a plataforma foi desenvolvida para ser o mais intuitiva possível. Os planos vão de R$ 39/mês a R$ 199/ano, com 14 dias de teste gratuito. O faturamento dobrou entre 2023 e 2024 e deve repetir o desempenho neste ano.

    PEGN
    8. Dado o aumento dos custos, como devo fazer o repasse ao preço final?
    Com os preços pressionados, o repasse ao consumidor pode seguir dois caminhos: concentrar a correção em um único momento ou diluí-la ao longo do ano.
    Quando a revisão ocorre de uma só vez, a empresa entrega previsibilidade para a clientela ao mesmo tempo em que se protege contra a inflação acumulada e consegue recuperar margens mais rapidamente. Essa estratégia costuma ser útil em períodos de forte alta de despesas. “O problema é quando o cliente sente o golpe desse aumento concentrado, o que pode levá-lo a procurar o concorrente”, alerta o CEO da Blue Numbers. “Mas se o mercado aceitar, é a melhor opção.” Uma saída intermediária é dividir em dois semestres: em vez de 8% no ano, aplicar 4% em cada etapa, reduzindo o impacto percebido.
    O repasse gradual, feito em várias fases, tende a ser mais bem recebido, pois o consumidor percebe variações menores. Isso diminui o risco de perda de vendas e de migração para a concorrência. Além disso, permite reagir a oscilações de custos quase em tempo real, lidar com imprevistos – como alta de insumos ou problemas logísticos – e ajustar produto, serviço ou ações de marketing com mais precisão.
    Seja qual for a escolha, a base está em precificar de maneira assertiva. “Existe uma etapa anterior, que é saber exatamente quanto custa o produto que ele quer colocar no mercado e com qual valor precisaria vendê-lo para ter o resultado desejado”, explica Iavelberg. “Descubra quanto o seu concorrente está cobrando e, se for um item similar, entenda que não poderá aumentar muito para não perder seu poder de venda.”
    LOGÍSTICA E CADEIA DE SUPRIMENTOS
    9. Onde estão os principais gargalos logísticos globais e de que forma podem impactar os negócios em 2026?
    Os entraves no transporte e na cadeia de suprimentos continuam pesando no bolso das empresas e podem se tornar mais críticos em 2026. No Brasil, parte da infraestrutura é deficiente: estradas malconservadas e pouco seguras, conexões ferroviárias e hidroviárias insuficientes e fretes ainda muito caros.
    A isso se soma a falta de integração digital em muitas organizações, o que dificulta uma gestão eficiente de estoques. Em um país de dimensões continentais, onde cerca de 60% da movimentação de cargas depende das rodovias, o impacto é significativo. “Não existem grandes projetos para distribuição em massa”, aponta Barros, do Ibmec RJ. “Precisamos buscar caminhos para gerar uma logística menos custosa para os nossos produtos, especialmente para Regiões como Centro-Oeste e Centro-Sul.”
    Enquanto grandes companhias contam com frota própria, equipes especializadas e sistemas avançados de rastreamento, pequenos e médios negócios precisam contar com serviços de entrega. Essa dependência tem vantagens – como já citado na pergunta 8 –, mas também limitações. Há alternativas para reduzir esse peso: criar um e-commerce próprio, usar redes sociais para divulgar e fortalecer a marca e até vender via WhatsApp.
    Programas de fidelidade ajudam a atrair quem compra no site, e o atendimento personalizado se torna um diferencial que gigantes dificilmente oferecem. Quem tiver recursos pode investir em tecnologia para coletar dados de clientes, entendendo melhor hábitos, preferências e interesses. Nesse contexto, os marketplaces funcionam como vitrine estratégica, mas também podem servir de porta de entrada para direcionar consumidores aos canais da própria marca.
    10. Qual é a estratégia mais segura para planejar estoques em um cenário de incertezas e mudanças rápidas?
    Cada produto parado representa custo extra de armazenagem e perda de liquidez. Para muitos negócios, administrar bem os volumes será questão de sobrevivência, evitando desperdícios e preservando o caixa. “Nada de fazer estoques maiores do que o necessário”, aconselha Barros, do Ibmec RJ. “O empreendedor não precisa ter as mercadorias paradas com ele, mas de um contrato com fornecedores com preços predeterminados, que garantam o mesmo valor por um certo período.”
    Outra iniciativa vantajosa é se antecipar a aumentos e comprar mais para garantir preço. “Em alguns casos valerá a pena até mesmo fazer um empréstimo ou antecipar recebíveis para adquirir esse produto mais barato”, afirma Iavelberg, da Blue Numbers. “Mas essa conta tem que fechar.” Do contrário, o risco é se endividar e ficar com volumes parados, criando uma bola de neve difícil de controlar.
    Há também situações em que a ameaça de falta de matéria-prima leva à decisão inversa: reforçar o estoque para não ficar desabastecido. Isso, porém, exige mais capital de giro – e deve ser avaliado com cautela para saber se vale assumir o custo maior agora ou arriscar a falta depois.
    Diversificar fornecedores está entre as estratégias. Dar preferência a quem está mais próximo reduz o frete, encurta prazos de entrega e ainda abre espaço para negociar condições, como parcelamento, descontos por fidelidade ou volume.
    REGULATÓRIO E TRIBUTÁRIO
    11. Quais ajustes iniciar nos processos internos e no sistema de gestão para acompanhar as novas regras da reforma tributária, cujos testes começam no próximo ano?
    O ano de 2026 marca o início da transição do Brasil para o novo sistema fiscal que mudará a forma como os impostos são cobrados e distribuídos. A reforma tributária impacta diretamente as empresas, seus custos, o fluxo de caixa e até a competitividade, exigindo atenção redobrada ao traçar o planejamento estratégico.
    Os cinco tributos atuais serão substituídos pelo Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual, em dois níveis. Os federais (Cofins, IPI e PIS) darão lugar à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS); enquanto os estaduais e municipais (ICMS e ISS) serão substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).
    A implementação será gradual, com conclusão prevista até 2033. “O novo modelo vai facilitar muito a vida do empresário [ao gerar menos guias e aumentar a segurança nos pagamentos, por exemplo]”, observa Barros, do Ibmec RJ. “Mas o meu conselho é que ele tenha ao seu lado um contador para ajudar a tomar decisões e definir, por exemplo, se será melhor permanecer no Simples Nacional ou mudar de regime tributário no futuro.”
    12. Como se preparar para novas exigências regulatórias ambientais?
    Manter-se competitivo hoje passa por atender a normas ambientais. Ignorá-las pode custar caro: multas, restrições para operar, perda de credibilidade com clientes, fornecedores e investidores e até dificuldades no acesso ao crédito. “Trata-se de uma questão de governança para organizações, bancos e fundos”, alerta Barros, do Ibmec RJ. Na prática, significa que instituições financeiras e parceiros comerciais tendem a se afastar de quem não cumpre as regras nem adota políticas de ESG (governança ambiental, social e corporativa).
    Para os pequenos negócios, considerar esse tema como algo distante é um erro grave. Medidas simples e de baixo custo já fazem diferença. O reitor sugere a elaboração de relatórios que comprovem iniciativas como coleta seletiva de lixo, uso de combustíveis renováveis na frota ou compensação de carbono por meio do plantio de árvores. Vale lembrar que não adianta apenas criar uma imagem verde – o chamado greenwashing pode prejudicar ainda mais a reputação. “O fornecedor vai fazer auditoria para saber se tudo aquilo que está no papel acontece na prática”, afirma.
    No aspecto social, também é importante ir além da legislação trabalhista: contratar pessoas com deficiência, promover diversidade na equipe e oferecer educação financeira aos funcionários são práticas bem-vistas pelo mercado.
    EM SINTONIA COM A NATUREZA
    Para erguer A Terra Dos Dinos no RJ, Marcio Clare precisou plantar 12 mil árvores
    Divulgação
    Atender às exigências regulatórias ambientais foi o maior desafio enfrentado pelo empresário Marcio Clare, 53 anos, quando decidiu construir um parque temático em Miguel Pereira (RJ). Depois de um ano, ele conseguiu a liberação e inaugurou, em 2022, a Terra dos Dinos, uma área de preservação de 1,4 milhão de metros quadrados que abriga 40 réplicas de dinossauros importados da China, além de trenó sobre trilhos, tirolesa e trilha suspensa. Já foram recebidos 600 mil visitantes, que pagam ingressos de R$ 129 (inteira) e R$ 69 (meia). Para erguer a estrutura, foi preciso cortar 40 árvores nativas da Mata Atlântica e plantar 12 mil em compensação. O sucesso levou o empreendedor a investir R$ 150 milhões em três novos parques, em Campos do Jordão (SP), Guarapari (ES) e João Pessoa (PB), o último em fase final de obras. “Demoro sete meses apenas para encontrar uma área compatível e obter a autorização ambiental. Cada projeto leva em média dois anos para ser aprovado e construído.”
    TRANSFORMAÇÃO DIGITAL E FORÇA DE TRABALHO
    13. Que mudanças a automação e a inteligência artificial devem trazer ao perfil das equipes?
    O avanço das novas tecnologias está levando as empresas a reverem modelos de trabalho e produção. Já não se trata de decidir se vale a pena ou não adotá-las, mas de reconhecer que são estratégicas para manter a competitividade. Isso impacta diretamente as equipes, que passam a precisar de novas habilidades, maior capacidade analítica e preparo para interpretar dados. Companhias que apostam na requalificação de talentos registram ganhos em produtividade e inovação.
    “Mais do que maior velocidade para realizar as tarefas, existe um ganho potencial de qualidade”, afirma Edney Interney Souza, professor de inteligência artificial (IA) da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e professor convidado dessa disciplina na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “A empresa deve estabelecer os cuidados que a equipe deve ter com a segurança dos dados, deixar claro o que é permitido ou não e treinar as pessoas para aprenderem a usar a IA, saberem o que podem entregar e quais os objetivos.”
    Para ele, como a tecnologia se dissemina rapidamente, em breve deixará de ser diferencial competitivo. Mais do que gerar eficiência, será questão de sobrevivência, já que todos terão acesso. “A IA não cria nada novo, embora pareça novo”, diz. “Mas um ser humano com bastante criatividade vai fazê-la ser mais eficiente, pois tem mais repertório e capacidade de fazer conexões para criar prompts [comandos] diferenciados.” Quanto mais criativo e preparado for o time, melhores serão os resultados.
    A tendência não é de substituição em massa, mas de readequação, com o ser humano permanecendo no centro. Indica-se, no início, priorizar investimentos em IA em setores intensivos em texto, como jurídico, marketing e recursos humanos, nos quais contratos, propostas e descrições de cargos já podem ser feitos de forma mais ágil e eficiente.
    QUALIFICAR PARA CRESCER
    Rafaela Assis, da Aba Comunicação, contrata profissionais sem experiência e treina internamente
    Divulgação
    Se a automação e a inteligência artificial estão exigindo novas habilidades das equipes, em alguns segmentos a capacitação humana permanece o grande diferencial competitivo. É o que defende Rafaela Assis, 40 anos, fundadora da agência ABA Comunicação, de São Paulo (SP).
    Em um mercado de códigos e símbolos muito específicos, formar profissionais preparados é um desafio constante. “Para trabalhar aqui é necesssário entender as sutilezas da linguagem dos meus clientes, composta por códigos, sinais, postura, o tom de voz e o olhar”, explica. “Minha equipe precisa ser refinada para gerar uma boa comunicação.”
    A agência conta com seis funcionários, todos contratados sem experiência prévia e treinados internamente. No recrutamento, a empreendedora não se preocupa tanto com a formação, mas sim com as chamadas soft skills.
    Para 2026, o plano é aumentar a equipe e dobrar o tempo de capacitação semanal. Com isso, ela espera alcançar a marca de cem projetos atendidos até maio do próximo ano e dobrar o faturamento, podendo chegar a R$ 2 milhões em 2026.
    ATRAIA E RETENHA BONS TALENTOS
    A disputa por profissionais qualificados é cada vez mais acirrada em um mercado em constante transformação, marcado pela digitalização acelerada e pela ascensão da inteligência artificial (IA). O desafio não é apenas contratar, mas manter quem se destaca diante da concorrência das grandes organizações, que, além de salários agressivos, oferecem desenvolvimento, flexibilidade, trabalho híbrido, bom ambiente e uma cultura voltada ao alto desempenho.
    Sem acesso a esse pacote de benefícios, PMEs competem em desvantagem. Ainda assim, conseguem atrair e reter pessoas com práticas criativas e foco no bem-estar. “Proporcionar movimentações laterais que permitam novas experiências, aprendizados e uma visão abrangente do negócio pode atender às expectativas de muitas pessoas”, afirma Sandra Fiorentini, consultora do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - São Paulo (Sebrae-SP). Outras estratégias incluem oferecer equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, horários flexíveis e a possibilidade de atuar em uma organização guiada por um propósito claro.
    IA SEM GASTAR MUITO
    Acesso à inteligência artificial não depende de grandes investimentos. Hoje há diversas soluções gratuitas ou de baixo custo que ajudam a automatizar tarefas repetitivas, otimizar processos e apoiar a tomada de decisões sem comprometer o orçamento.
    “Não é preciso sair por aí assinando tudo de uma vez”, recomenda o professor da ESPM e da USP. “Em vez disso, invista em treinamento para que as pessoas possam extrair ótimos insights das ferramentas disponíveis.”
    As mais conhecidas do mercado, como o ChatGPT, da OpenAI, e o Gemini, do Google, têm versões gratuitas com vários recursos úteis. É possível elaborar posts para redes sociais e redigir e-mails em segundos; estruturar planos de negócio e roteiros de vendas e campanhas de marketing; extrair dicas e explicações sobre gestão, finanças e marketing digital, entre outras áreas; e gerar planilhas para as mais variadas finalidades.
    A opção grátis da Gamma AI permite criar rapidamente apresentações visuais – de slides a posts para redes sociais e websites – de maneira simples e intuitiva. Já a Tactiq funciona como uma assistente para reuniões online: transcreve as conversas, gera resumos e itens de ação, além de oferecer dez transcrições gratuitas na versão inicial. A ferramenta pode ser instalada como extensão no navegador.
    14. Quais tendências de trabalho híbrido e remoto considerar no modelo organizacional?
    O modelo remoto passou a integrar a estratégia de muitas empresas para atrair e reter talentos, além de reduzir custos fixos como aluguel, energia, insumos de escritório e manutenção. Algumas organizações migraram para o home office, enquanto outras preferem combinar dias presenciais e à distância.
    “Para saber qual é a melhor alternativa, você precisa ter um descritivo das atividades de todos os colaboradores e avaliar se elas podem ou não ser executadas de forma remota”, explica a consultora do Sebrae-SP.
    O escritório vem ganhando uma nova função: menos espaço para mesas individuais e mais para conexão entre pessoas. É o lugar para estimular a criatividade coletiva, realizar treinamentos, reforçar a cultura da companhia, criar senso de pertencimento e promover encontros entre lideranças para discussões estratégicas.
    Com equipes parcial ou totalmente fora do ambiente físico, torna-se essencial acompanhar a produtividade. Definir metas individuais é uma saída prática. Quem lida com clientes pode ter como objetivos um número mínimo de contatos por período, prospecções ou envio de promoções personalizadas. Esses indicadores precisam ser monitorados de perto. Se não estiverem sendo cumpridos, a empresa deve repensar a dinâmica, como ampliar dias presenciais e reduzir o tempo de trabalho em casa.
    * Esta reportagem foi publicada originalmente na edição de setembro de Pequenas Empresas & Grandes Negócios.




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