Ailton Krenak faz duras críticas contra a COP30: "Serve-se xícara de café com petróleo"

Ailton Krenak, 72, imortal da Academia Brasileira de Letras, é convidado diariamente para falar sobre o fim da humanidade. Há seis anos, com o sucesso do best-seller Ideias para Adiar o Fim do Mundo, precisou contratar uma assistente para ajudá-lo com a demanda apocalíptica. Todos querem ouvi-lo o tempo todo sobre tudo. Mesmo que ele não traga boas notícias.
No começo de outubro, a vez de escutá-lo foi da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Um dos assuntos inevitáveis: a COP30, evento da ONU promovido pela primeira vez em Belém, no Pará, que reunirá em novembro representantes de mais de 130 países para discutir o meio ambiente.
O posicionamento crítico de Ailton em relação ao encontro já havia gerado antipatia em Brasília, em especial no Ministério dos Povos Indígenas, segundo apurou a GQ Brasil. Ele se mostra cético quando o assunto são engravatados unidos para planejar maneiras de salvar o planeta. Por isso não se envolveu na organização — e nem gostaria. Em sua visão, o termo “sustentabilidade” é um “mito corporativo”. Em meio aos apertos de mão, ele diz, serve-se "uma xícara de café puro com petróleo pela manhã".
Uma semana após o encontro no Rio de Janeiro com Marina, Ailton desembarcou de um táxi na Avenida Paulista, subiu um pequeno lance de escadas do Itaú Cultural e encontrou um auditório de 242 assentos lotado, com ingressos esgotados havia uma semana. Via-se seu nome em todos os lugares. Na fachada do edifício, em panfletos, em televisores e na assinatura de quadros e fotografias cedidas por ele para uma exposição sobre sua carreira em cartaz por lá. A agenda envolvia mais uma palestra que renderia perguntas sobre a COP.
O autor best-seller Ailton Krenak é convidado para falar do fim do mundo
Gleeson Paulino
Ailton relembrou, então, uma conversa com um líder indígena curioso sobre a reunião. “Ele me perguntou se os brancos eram muitos. Eu disse que sim. Eram mais do que as estrelas do céu, do que a areia do litoral, do que as árvores da floresta. Ele ficou estatelado ao constatar que os brancos eram impossíveis de ser contados. Também quis saber o que comiam. Respondi que comiam tudo: terra, floresta, pedras. Tudo. Ele me perguntou sobre a COP30 e o que eles faziam depois de comer. Respondi: depois, eles cagam no mundo”, atestou.
Não é que Ailton tenha sido sempre refratário à ideia, mas já tomou bordoadas do próprio movimento indígena quando a COP ainda engatinhava. Na Eco-92, no Rio, Ailton foi criticado por receber atenção demais e expor os indígenas a, como descreveram, um “circo” da ONU. Foi ali que ele começou a se desapegar do movimento indígena e a trilhar o caminho como intelectual que o levaria à Academia Brasileira de Letras. Seus livros venderam mais de 500 mil cópias.
“Ele viu que surgia uma nova geração de lideranças e, como pessoa desapegada, foi saindo de cena”, afirma o colega e também escritor Daniel Munduruku. Em outras palavras, ficou de saco cheio. “O Ailton caiu em uma espécie de esquecimento, de ostracismo. Algo que todos nós passávamos na época.”
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No início dos anos 2000, ele sentiu que era hora de retornar para casa. “Uma forma de voltar a se conectar com suas origens”, diz Daniel. O Watu o aguardava, mas não era mais o mesmo. Ao menos sete barragens haviam sido construídas ao longo de seu corpo, o que o obrigou a alagar cidades inteiras.
Ailton se tornou consultor do governo Aécio Neves até 2010, o que soou mal entre os indígenas de Minas Gerais. Embora ele se defenda da gestão, na qual afirma ter intercedido como uma espécie de consultor dos povos originários em solo mineiro.
"Eu atravessei do século 20 evitando qualquer relacionamento muito direto com mandato político", diz. "Mas curiosamente, do ponto de vista funcional, eu estava no gabinete militar do governo [mineiro]. Por que será? Que eu fui brincar no governo? Ou porque eu queria botar os militares para trabalhar? Eu tinha muita gente para tirar daquela terra, [e criar assentamentos] não tinha? Eu ia tirar eles à tapa?", desabafa.
O ativista, então, casou-se com uma krenak, Irani, de um clã tradicional. Os dois moram em uma aldeia em Resplendor, onde a cultura do aço ainda provoca cicatrizes. O que explica as várias reticências do filósofo sobre os acordos entre engravatados. Mesmo com a participação na política nacional e regional, Ailton viu o território sagrado onde vive ser dizimado novamente pelas forças capitalistas.
Em 2015, a lama do rompimento de uma barragem da Samarco intoxicou o rio, matou pessoas, peixes e lembranças. Milhares de ribeirinhos foram desalojados das casas onde nasceram, obrigados a migrar a evitar a pesca e o banho em um rio considerado sagrado. “Hoje, digo que ele está em coma”, lamenta.
A entrevista completa você lê na GQ Brasil de novembro.
Onde adquirir a GQ Brasil de novembro
A edição de novembro da GQ Brasil, com Ailton Krenak na capa, chega às bancas nesta sexta (7) e já está disponível no aplicativo Globo+ e na loja virtual, com entrega para a Grande São Paulo e para Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Porto Alegre e Campinas.
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Ailton Krenak é o entrevistado de capa da edição de novembro da GQ Brasil. O intelectual nascido em uma aldeia em Minas Gerais, dá seus palpites (afiados) sobre a COP30, narra como a fúria causada pela violência contra seu povo o fez protagonizar um dos momentos mais importantes na política brasileira. E mais: a GQ também teve acesso a documentos que mostram como o intelectual se tornou um dos grandes alvos da ditadura militar nos anos 80. A edição já está nas bancas e em nossa loja virtual.
Ailton Krenak: a capa da GQ Brasil de novembro
Gleeson Paulino
Texto: Marcos Candido
Fotógrafo: Gleeson Paulino
Diretor de conteúdo: Fred Di Giacomo
Gerente de fotografia e produção: Enzo Amendola
Direção de arte: Victor Amarabile
Stylist: Sam Tavares
Beleza: Sabrina Silva
Set design: Yuri Godoy
Assistentes de fotografia: Edson Luciano e Lucas Morato
Assistentes de moda: Elias Assef
Assistente de set design: Gabriel Figueiras
Vídeo: Pedro Nekrasius
Tratamento de imagem: Nicolas Leite




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