Herança deixa de ser assunto dos milionários e entra no planejamento financeiro da classe média
Recorde de testamentos revela mudança cultural e maior preocupação das famílias com patrimônio, empresas e ativos digitais
Gerada por IA Por muito tempo, falar sobre herança, testamentos e sucessão patrimonial parecia algo reservado a famílias extremamente ricas. Hoje, porém, essa realidade está mudando rapidamente. O crescimento do número de testamentos registrados no Brasil mostra que a classe média passou a enxergar o planejamento sucessório como uma ferramenta de proteção financeira, organização familiar e prevenção de conflitos.
Dados do Colégio Notarial do Brasil revelam que 2025 registrou um marco histórico: foram realizados 38.740 testamentos em todo o país, o maior volume já contabilizado. O número representa um crescimento de 21% em comparação com cinco anos atrás. Em alguns estados, a expansão foi ainda mais expressiva. No Paraná, por exemplo, os registros saltaram de 2.532 para 3.489 no mesmo período, um aumento de quase 38%.
O fenômeno acompanha uma transformação silenciosa na forma como os brasileiros lidam com o patrimônio acumulado ao longo da vida. Casas, apartamentos, pequenos negócios, investimentos financeiros e até bens digitais passaram a fazer parte de uma conversa que antes costumava ser adiada por décadas.
O envelhecimento da população acelera a mudança
O aumento da expectativa de vida tem papel importante nessa nova dinâmica. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira está envelhecendo em ritmo acelerado, o que amplia a preocupação com a organização dos bens e com a proteção dos familiares.
Ao mesmo tempo, o crescimento do empreendedorismo criou uma nova geração de proprietários de pequenas e médias empresas. Para muitos deles, garantir a continuidade do negócio tornou-se uma prioridade tão importante quanto ampliar o faturamento.
A sucessão empresarial, antes tratada apenas por grandes grupos econômicos, passou a integrar o planejamento de escritórios, clínicas, comércios e empresas familiares. A preocupação não é apenas financeira, mas também operacional: quem assumirá a gestão? Como evitar disputas entre herdeiros? Como preservar o valor construído ao longo dos anos?
Holdings familiares ganham espaço
Entre os instrumentos mais procurados está a constituição de holdings familiares. A estrutura, tradicionalmente associada a grandes patrimônios, passou a ser utilizada também por famílias que possuem alguns imóveis, participações societárias ou uma carteira de investimentos mais robusta.
A principal vantagem é concentrar a administração dos bens em uma única estrutura jurídica, simplificando processos futuros e reduzindo riscos de conflitos sucessórios.
Além disso, especialistas apontam que as discussões sobre possíveis alterações tributárias relacionadas à transmissão de patrimônio fizeram muitas famílias anteciparem decisões que antes seriam deixadas para o futuro.
O patrimônio digital entra na herança
Outra mudança importante é a inclusão dos chamados ativos digitais no planejamento sucessório.
Criptomoedas, contas em plataformas financeiras, investimentos realizados exclusivamente pela internet, canais monetizados, bibliotecas digitais e até perfis em redes sociais passaram a ter valor econômico relevante. Sem planejamento adequado, parte desse patrimônio pode simplesmente se tornar inacessível após a morte do titular.
O tema ainda é relativamente novo no Brasil, mas já desperta atenção de advogados, planejadores financeiros e famílias que desejam evitar perdas patrimoniais.
Cartórios digitais facilitam acesso
A digitalização dos serviços notariais também contribuiu para a popularização dessas ferramentas. Com a expansão do sistema online dos cartórios, diversos procedimentos passaram a exigir menos deslocamentos e menos burocracia.
Esse processo ajudou a reduzir a percepção de que elaborar um testamento ou iniciar um planejamento sucessório seria algo complexo ou inacessível.
Paralelamente, o crescimento dos inventários extrajudiciais permitiu que muitos processos fossem resolvidos diretamente em cartório, reduzindo custos, tempo de espera e desgastes familiares.
Planejar para evitar conflitos
Mais do que uma estratégia patrimonial, o planejamento sucessório vem sendo encarado como uma forma de preservar relações familiares.
Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que disputas envolvendo heranças figuram entre as causas que frequentemente se prolongam por anos no Judiciário. A definição prévia de regras para divisão de bens, administração de empresas e destinação de patrimônios ajuda a reduzir incertezas e minimizar desgastes emocionais.
O resultado é uma mudança de mentalidade. Em vez de associar a sucessão apenas ao fim da vida, cada vez mais brasileiros a tratam como parte do planejamento financeiro de longo prazo.
O recorde de testamentos registrado em 2025 indica que o tema deixou de ser exclusividade dos milionários. A organização da herança, da empresa da família e até dos ativos digitais está se tornando uma preocupação cada vez mais presente entre profissionais liberais, empreendedores e famílias de classe média que desejam proteger aquilo que construíram ao longo dos anos.




COMENTÁRIOS