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Brasil,25/08/2026

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    Saúde mental na infância: como conversar sem transformar todo medo em transtorno

    Novo estudo brasileiro reforça o peso dos transtornos mentais já nos primeiros anos escolares. Para os adultos, o desafio é perceber o sofrimento sem minimizar emoções nem antecipar diagnósticos


    Saúde mental na infância: como conversar sem transformar todo medo em transtorno Google imagens

    Uma criança de 7 anos pode não chegar em casa dizendo “estou ansiosa”. Pode apenas mostrar que alguma coisa ficou difícil, que o sono piorou ou que se mostrou mais irritada do que o habitual. Nenhuma dessas mudanças, sozinha, define um transtorno. Mas pode abrir uma conversa.

    Para os adultos, é aí que começa a parte mais delicada: ouvir sem minimizar e observar sem rotular.

    Um estudo publicado em agosto no The Lancet Regional Health – Americas, com dados do Global Burden of Disease (GBD) 2023, estimou que 15,6 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos — 20,91% dessa população — apresentavam pelo menos um transtorno mental diagnosticável. No conjunto dessa faixa etária, transtornos mentais e transtornos por uso de substâncias responderam por mais de um terço dos anos vividos com incapacidade (YLDs).

    “Anos vividos com incapacidade” é uma medida epidemiológica da carga não fatal das doenças. Isso não significa que uma criança esteja “incapaz” no sentido cotidiano da palavra. A medida combina a prevalência de uma condição com um peso que representa a gravidade da perda de saúde associada a ela.

    Nem todo medo é um transtorno

    Ansiedade, medo e preocupação também fazem parte da experiência humana e do desenvolvimento. A Sociedade Brasileira de Pediatria ressalta que a ansiedade pode ser uma reação comum diante de situações novas ou desafiadoras; a atenção aumenta quando ela se torna constante e começa a interferir na rotina.

    Esse é um ponto importante para pais e responsáveis. O desafio não é descobrir um diagnóstico em casa, mas perceber se o sofrimento persiste, ganha intensidade e começa a afetar a escola, as relações, o sono ou as atividades da criança. Nenhum comportamento isolado fecha um diagnóstico.

    A cautela também vale para os números. Uma revisão sistemática publicada em julho no BMJ Global Health reuniu centenas de estudos brasileiros sobre saúde mental de crianças e adolescentes, mas apontou que o país ainda não dispõe de um estudo nacional representativo de prevalência baseado em entrevistas clínicas. As estimativas do GBD são, portanto, um retrato epidemiológico importante — não um censo de crianças diagnosticadas individualmente.

    A conversa pode começar no cotidiano

    Para crianças de 6 a 10 anos, a UNICEF recomenda começar pela vida concreta: conversar sobre a escola, os amigos, as coisas de que gostam, aquilo que consideram difícil e situações do dia que despertaram emoções. Nessa fase, a criança está ampliando sua capacidade de descrever experiências e falar sobre o que sente. O adulto pode ajudar criando espaço para isso.

    Tão importante quanto perguntar é ouvir. Uma resposta apressada, que diminui o medo ou tenta resolver tudo imediatamente, pode fechar justamente a conversa que estava começando. Escutar com interesse não transforma cada dificuldade em problema clínico. Mostra apenas que aquele assunto pode ser falado.

    Às vezes, conversar não basta. Quando o sofrimento persiste e passa a prejudicar a rotina, os estudos ou as relações, é importante procurar avaliação profissional. A Atenção Primária à Saúde, por meio das Unidades Básicas de Saúde, pode ser uma das portas de entrada; o pediatra que acompanha a criança também pode ajudar a avaliar os próximos passos.

    Levar a saúde mental infantil a sério, portanto, não é procurar uma doença por trás de cada emoção difícil. É criar condições para que a criança consiga dizer o que sente e para que o adulto reconheça quando alguma coisa ultrapassa o esperado.

    Cuidar exige equilíbrio: nem “isso é bobagem”, nem um rótulo precoce. A criança não precisa aprender a se diagnosticar. Precisa saber que pode falar — e encontrar um adulto disposto a escutar.




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